24 May 2026

Alice por Ana Collete Chalfun

                                                                @anacolletechalfun 

 

 


 

A  ALICE

 

NARRADOR: O começar do começo

 

O reavivar do sentido

 

Que por mais insano mente

  

Se pareça

  

Ao rodar

 

Ao contar

 

O jogo se revela

 

Brincando

 

Como em uma grande roda gigante

 

Se fechando em círculos

 

Cada vez mais redundantes,

 

Rebuscantes

 

Tudo a procura

 

Do sentido

 

Escondido na imutabilidade inflexível do destino.

 

Neste momento Alice pensou:

 

ALICE:Ação e reação

 

Como um grande amálgama da construção?

 

Modelos desnecessários 

 

A se seguir

 

Que se impelem

 

Pausadamente em cada mente

 

Determinando

 

Guiando 

 

Construindo

 

Evocando

 

ALICE:Cabeça evidentemente grande demais

 

Pés evidentemente pequenos demais

 

NARRADOR:Sugere Sr. Tenniel

 

Replica Sr. Carroll

 

O que acha futura, presente e já passada Alice?

 

ALICE:Só falta moldar, dobrar, engomar e guardar.

 

NARRADOR:Oh Carrrol!

 

Bem tu imaginaste

 

O retrato da linda heroína

 

ALICE:Amorosa como um cão

 

E gentil como uma corça

 

NARRADOR:Mas, mesmo para ti

 

A dúvida relampejava

 

Somente para com os ilustres?

 

Para com os grotescos?

 

Pequenos? Grandes?

 

 

Reis? Lagartos?

 

Pode o criador almejar a criatura?

 

Pode o criador incitar a criatura?

 

Pode o criador vivificar a criatura?

 

 

Tendo ainda Alice

 

Respingado um gozo de vida

 

Onde pecado e dor ainda são nomes 

 

Quando de repente

 

Um coelho branco de olhos cor de rosa

 

Passou correndo por ela dizendo:

 

ALICE(como o coelho):Vou chegar atrasado demais

 

NARRADOR:Nisto guardou o seu pomposo relógio

 

Dentro de seu imaginário bolso

 

Dentro de seu permanente colete

 

E num piscar de olhos

 

Quem quiser que meça

 

Se meteu a toda pressa

 

Numa grande toca de coelho

 

Debaixo da cerca.

 

ALICE:Não! Não! Não!

 

E que menininha ignorante vão achar que sou

 

Convém perguntar nada

 

Talvez eu veja o nome

 

Escrito em algum lugar

 

NARRADOR:O que oscila são os modos de

 

ALICE:Modos, Nodos, Engodos

 

Modos, Nodos, Engodos

 

ALICE(Reflexão):Lembro de ti Alice

 

NARRADOR:Neste instante

 

Como não sabia responder a nenhuma pergunta

 

O jeito como as fazia não tinha nenhuma importância

 

ALICE:Ah! Como queria ser ti Alice!

 

Isso de nada adiantaria sem meus ombros.

 

NARRADOR:Então? Quem sou eu?

 

ALICE:Primeiro me digam

  

Aí se eu gostar de ser essa pessoa 

 

Eu subo

  

Se não, fico aqui embaixo

 

NARRADOR:Até ser essa outra pessoa.

 

Alice, abriu a porta que dava para uma pequena passagem

 

Por dentro do telescópio

 

Avistou o possível

 

ALICE:Beba-me

 

NARRADOR:Neste instante ela lembrou-se de 

 

Modos, Nodos, Engodos

 

Modos, Nodos, Engodos

 

 

NARRADOR(apavorado):Oh! Desculpe-me!

 

Desta vez o camundongo estava ficando todo arrepiado

 

A certeza de que devia estar realmente ofendido

 

Nós não falaremos mais

 

ALICE:Se você prefere

 

NARRADOR:Nós, é claro!

 

ALICE:Não me faça ouvir de novo.

 

NARRADOR(fala para Alice a provocando, ironicamente):Á defesa da muralha

 

Que inculta todos os mistérios

 

Todos dizeres 

 

Que não devem ser libertados

 

Todos os viveres

 

Implantados

 

ALICE (desesperada)Á construção! Á construção!

 

Salvem à construção

  

Alice(enojada)Vinha novamente o coelho a bradar

 

No que respondeu a duquesa

 

Alice(ironicamente)Sou mais velho que você e devo saber mais.

 

ALICE:Preciso tomar um fôlego

 

Meus pés não tocam o solo

 

E minha cabeça não submerge.

 

NARRADOR:Oh! Divina Alice

 

O vulcão vem à tona

 

Range, Tange

 

Efervesce

 

As larvas por vezes 

 

Sobressaem

 

As percepções multiplicam

  

Cores totais

 

Azul, Amarelo, Vermelho, Roxo

 

ALICE (triste)Os olhos doem

 

Retraem

 

NARRADOR:Como eu queria ser ti, Alice

 

Dona da chave de ouro.

 

NARRADOR(para o público):Era o coelho branco caminhando de volta

 

Devagar

 

Ansioso

 

Olhando para todos os lados

 

Como se tivesse perdido alguma coisa

 

Alice sentira-se empurrando uma grande roda

 

Que a medida que rodava

 

Grudava seu corpo 

 

Com um tipo especial de cola.

 

Já viu essa cola?

 

A imperceptível?

 

ALICE:Acho que eles não deixariam a Dinah ficar lá em casa 

 

NARRADOR:Se ela começasse a dar ordens desse jeito.

 

ALICE:Perde-se as luvas brancas de pelica e o leque

 

NARRADOR:Já amedrontava Carroll

 

ALICE(com temor)Crescer e diminuir

 

Alice:E à Alice?

 

NARRADOR:Oh! Divina Alice

 

Patina no gelo

 

Não importa a casa

 

E sim quais tijolos

  

Irá colocar

 

ALICE(para o público)Entrei sem bater e corri escada acima

 

Com muito medo 

 

De dar de cara  

 

Com a verdadeira Mary Ann

 

NARRADOR:Como querer a constância 

 

Se o segundo passado já 

 

ALICE( súbito grito):Não volta mais

 

NARRADOR:Ah! Alice! Como queria ser ti!

 

ALICE:Não se lembra das coisas como antes?

 

ALICE(se referindo ao narrador e falando para o público):

 

Não fica do mesmo tamanho por dez minutos seguidos?

 

Alice ( neste momento várias ações físicas como se cuidando de um bebê e falando docemente) 

 

A lagarta aconselhou

 

Vem crisálida

 

A

rrebenta o casulo de seda

A seda é tão macia

 

( a fala fica agressiva)Adormece

 

( mandando chega a bater no bebê)E apenas sonha com a borboleta

 

 (volta ao normal)A lagarta disse isso 

 

Após fumar o seu narguilé( uma grande risada)

 

NARRADOR:E Alice inspirou a fumaça

 

Oh! Alice! Como queria ser ti!

 

Desconcerta!

 

Desconstrói!

 

 

ALICE ( apavorada)Onde esta ti, Alice?

 

(como se ouvisse algo):Eu estou aqui

 

Por favor tem alguém aí?

 

 Não! Eu não quero mais chá!

 

Já chega! (gritando): Eu disse já chega!

 

NARRADOR:E a lebre de março não consegui encontrar 

 

Nada melhor para dizer:

 

Era manteiga da melhor qualidade.

 

ALICE:Falta algum ingrediente?

 

NARRADOR:Não! 

 

ALICE:Então por que não tomamos o chá?

 

NARRADOR:Oh! Alice

 

Se lembra de tudo?

 

Quando era apenas um jogo de croqué?

 

E o gato de cheshire?

 

Ás vezes se fazia

 

A boca

 

 A orelha

 

Os ohos

 

Ás mãos

 

ALICE:E logo a rainha gritava

 

( repete-se esta frase com várias intonações):Cortem a cabeça!

 

NARRADOR(como cicerone):Novamente os ingredientes

 

Sirva-se 

 

De pimenta a melado

 

Você pode fazer a sua 

 

Sopa de tartaruga falsa

 

Oh! Alice

 

O que fazes com as canções?

 

Lindas mutações!

 

Como ages?

 

ALICE:E você como reages?

 

Ignora a tartaruga 

 

Soprepõe-se  ao Grifo

 

NARRRADOR(Zombando): Só mesmo ti Alice.

 

Neste momento os dois entram em uma grande ação física como gato e rato.

 

NARRRADOR: (fingindo ser doce):Não! Não chora Alice

 

ALICE:Sim! Deves chorar Alice

 

NARRADOR:Se exalta Alice

 

ALICE (apavorada): O vulcão vem à tona 

 

NARRADOR:Range, Tange

 

Efervesce

 

ALICE:As larvas já se sobressaem

 

As percepções multiplicadas

 

Cores já unidas

 

O telescópio abrindo o branco e criando o preto

 

NARRADOR:Os olhos ainda doem?

 

ALICE:Retraem mas abstraem

 

NARRADOR (Com muita raiva):Como eu queria ser ti Alice!

 

Dona da chave de ouro!( totalmente irônico) 

 

Não se preocupe Alice

 

Se no dia de seu julgamento

 

ALICE:Não acho que eles deixariam a Dinah ficar lá em casa

 

NARRADOR:Se ela começasse a dar ordens desse jeito.

 

ALICE:Agarre-se a seu telescópio

 

NARRADOR( Se justificando a alguém):É tudo fantasia dela. 

 

ALICE:Não tem problema nenhum.

 

Salta em sua cama de elástico

 

NARRADOR:De que adianta um cortejo

 

Se todos tivessem de ficar de bruços

 

Sem poder vê-lo?

 

Oh! Divina Alice

 

Seja ti!

 

ALICE:Se eu não levar essa criança comigo

 

Com certeza , vão mata-la

 

Qualquer dia desses

 

NARRADOR:E Alice abriu a porta que dava para uma pequena passagem

 

Terminando com o sorriso que persistiu algum tempo depois

 

Que o resto de si fora embora.

 

ALICE (gritando desesperadamente):Alice? Oh Alice?

 

Onde está ti?

 

Alice?