16 April 2010

Alice por Salvador Dali

Salvador DALI (1904 – 1989)




Salvador Dali se encontra entre os pintores deste século que fizeram um maior número de ilustrações para obras literárias. Entre elas destacam-se suas ilustrações para os Cantos de Maldoror, A Divina Comédia, Dom Quixote, A Vida é Sonho, Tristão e Isolda, Pantagruel e Alice no país das Maravilhas.

Uma edição limitada de luxo com 200 exemplares de Alice autografados por Dali foi publicada em Nova Yorque em 1969 pela Maecenas Press-Random House. Uma outra edição limitada de 2500 exemplares foi lançada na mesma data. Hoje em dia, exemplares disponíveis destas edições são muito raros e disputados. Segundo Mark Burstein, colecionador e membro da Sociedade Lewis Carroll dos Estados Unidos, o preço da edição de luxo tem superado o valor de $ 10.000,00.



Sua Alice não é propriamente uma menina, vulto misterioso que atravessa pulando corda uma país das Maravilhas repleto de referências e obsessões dalinianas. Cabe ressaltar as múltiplas possibilidades simbólicas que as imagens de Salvador Dali podem encarnar. Como os relógios derretidos da série “persistência da memória” que, se em outros momentos podem simbolizar o ovo frito, na imaginação daliniana, a recordação mais antiga da vida pré-natal; ou o corpo de Cristo como um queijo derretido (recuperando a imagem de Santo Agostinho); ou ainda o tema lendário do Velocino de Ouro; em Alice se converte na mesa do chá, quando o tempo “se derrete às seis horas da tarde”. Para Dali, o mole é o tempo. Metamorfoses que correspondem à sua teoria da “paranóia crítica” ou o “método espontâneo de conhecimento irracional baseado na associação interpretativo – crítica dos fenômenos delirantes.”




Através de gravuras partindo de originais pintados a guache, a representação do Sonho de Dali para o país das Maravilhas adquire contornos mais indefinidos e sutis do que a sua pintura em geral marcada por um realismo rigoroso. Manchas de cor, grafismos espontâneos, sobreposições, sombras e penumbras dançam em momentos de grade delicadeza, preservando um forte caráter onírico e enigmático, garantem um lugar de destaque absoluto para a sua Alice. Embora as imagens tendam em alguns momentos para a abração informal, é possível reconhecer as cenas da história. Faça esse exercício de encontrar a lagarta, o coelho branco, a cena do chá, e assim vai. São imagens que requerem um trabalho de leitura por parte do público, definitivamente foge do imediatismo literal que predomina na história da ilustração. Nessa série de imagens Dali não pinta o sonho, sonha pintando.

Em sua história, o surrealismo concedeu sempre uma importância fundamental aos impulsos obscuros do inconsciente, aos estados patológicos, às alicinações, aos êxtases, estados hipnóticos e principalmente aos sonhos. Por outro lado os surrealistas estabeleceram uma longa filiação na história das artes plásticas e da literatura, valorizando muitas experiências reconhecidas e mesmo apadrinhadas pelo movimento. Enfim, todas as obras que envolvessem o fantástico, o maravilhoso, a imaginação delirante, as perversões, o pensamento esotérico, as experiências cabalísticas e os discursos do inconsciente, constituíram a matéria prima para a ideologia do surrealismo. Por se tratar também de um sonho maravilhoso, Alice tornou-se musa surrealista.

Na literatura sobressaíram-se entre os autores admirados pelos surrealistas a figura do Marquês de Sade e o fantástico Nerval, representante máximo do Romantismo negro, mas também os poetas malditos Lautrèamont e Rimbaud, as “palavras em liberdade” do futurismo, a libertação de Dada, a “revolução das palavras” desencadeada em autores contemporâneos como Joyce e E.E. Cummings, como também o nonsense lingüístico de Carroll.



Deve-se porém ter o cuidado de reconhecer as diferenças entre tais autores e questionar a recorrência com que Alice é considerada uma “inadvertida precursora do surrealismo”. Alice é também sonho maravilhoso, como querem os surrealistas, mas é também Logicarroll e também outras tantas.



"A obra de Lewis Carroll tem tudo para agradar o leitor atual: livros para crianças, de preferência para meninas; palavras esplêndidas, insólitas, esotéricas; crivos, códigos e decodificações; desenhos e fotos, um conteúdo psicanalítico profundo, um formalismo lógico e lingüístico exemplar. E para além do prazer atual de algo diferente, um jogo do sentido e do não senso, um caos cosmos. Mas as núpcias da linguagem e do inconsciente foram já contraídas e celebradas de tantas maneiras que é preciso procurar o que foram precisamente em Carroll, com o que reataram e celebraram nele, graças a ele."
Gilles Deleuze



Bibliografia consultada:

DELEUZE, Gilles.Lógica do Sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. Perspectiva. São Paulo, 1974. (Estudos,35)
LIAÑO, Ignácio Gomez. Dali. Ao livro técnico S/A. Rio de Janeiro, 1986.
Edição da obra:DALI, Salvador. Alice’s Adventures in Wonderland. Maccenas Press, New York, Random House, 1969. 28 x 43 cm. 153 p. 12 litografias em cores.







Conheça a edição de Alice in Wonderland ilustrada por Salvador Dali.









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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”