16 April 2010

Diário de uma Alice

toca
Lucas Alfaro



dream

Polixeni Papapetrou





Alice! Eis aqui a tua história,

Contada assim, em verso e prosa,
A imaginação fiel da infância,
Colhida, um broto de rosa,
Aroma místico da memória,
Numa terra misteriosa. (L. C.)


Lembro-me bem daquele dia, abril de 1856: brincava com minhas irmãs no jardim quando dois homens apareceram. Traziam enorme parafernália misteriosa que nos deixou muito curiosas. Descobrimos surpresas que era um aparato para fotografar a catedral. Um deles era o reverendo Charles Dodgson, professor de matemática em Christ Church, onde vivíamos. Mais tarde ele ficaria conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll e mal sabíamos nós quantas aventuras ainda teríamos pela frente.



Janela para o jardim de Christ Church onde as meninas costumavam brincar.
Fotografia de Adriana Peliano.

A fotografia se tornou logo uma de nossas paixões. Mr. Dodgson era um excelente fotógrafo. Adorava retratos, em especial de meninas pequenas, entre 8 e 12 anos, que ele amava e admirava. Escolher a pose, selecionar os objetos, o figurino, arrumar as roupas, ajustar o caimento das saias, endireitar o corpo, definir a expressão facial, ajeitar o cabelo, tudo era um jogo que participávamos com grande interesse. Ele nos fotografava assim como as suas outras amiguinhas, muitas vezes fantasiadas, numa grande brincadeira. Recordo-me de Chapeuzinho Vermelho e das roupas que vesti de mendigo e oriental com uma linda sombrinha estampada. Mr Dodgson me chamou carinhosamente uma vez de ciganinha. Assistia seu trabalho no quarto escuro revelando fotos e a excitação era enorme quando as imagens apareciam. Ele nos estimulava e encantava enquanto executava o extenso ritual. Por mais demorado que fosse, cada minuto do jogo era motivo de diversão e encantamento.


Alice e Lorina Liddell fotografadas por Lewis Carroll

Mr. Dodgson, para nos cativar, inventava jogos, trocadilhos, adivinhas e tinha uma valise mágica repleta de curiosidades. Ele tinha também uma linda coleção de caixinhas de música, acho que 42, seu número predileto. No inverno ouvíamos histórias incríveis sentadas no enorme sofá de seus aposentos. Enquanto contava, ele desenhava as cenas com esboços divertidos, os quais eram depois lançados ao fogo. Assim, histórias não escritas e esboços queimados foram perdidos para sempre.


Aposentos de Lewis Carroll em Christ Church.

Guardo boas lembranças das horas felizes que passamos juntos, antes e depois das aventuras de Alice terem sido criadas. Inúmeras outras histórias foram inventadas e contadas em viagens de barco, piqueniques e longas caminhadas nos arredores de Christ Church. Nossa imaginação fértil transformava os piqueniques em verdadeiros banquetes e a cabana onde lanchávamos num palácio real por puro encantamento. Mr Dodgson nos levava para passear de barco, 4 a 5 vezes por ano. Nossas expedições, bem planejadas, eram acompanhadas por lindas cestas forradas com bolos e biscoitos. Improvisávamos pequenas fogueiras às margens do rio para esquentar o chá.



No verão, as águas cristalinas do rio Isis seduziam os homens de Oxford para saírem em expedições de barco. Nos passeios com Mr. Dodgson, o som dos remos n’água se misturava a nossas risadas que embalavam a sua imaginação. Acho que ele não percebia estar perto de uma descoberta literária ainda pouco explorada e que nunca havia pensado antes: o reino das histórias infantis.



Ouvíamos nessas viagens histórias que nos levavam ao mundo das fadas ou das ”aventuras do mundo dos elfos”, que era um de seus títulos para o livro de Alice. Ah! Lembro-me bem daquela tarde dourada: céu azul sem nuvens e águas espelhadas fluindo lentamente com o barco, pelo rio abaixo. Famintas por notícias do mundo das fadas, Lorina com 13 anos, eu 10 e Edith com 8, estávamos as três e o reverendo Duckworth, que cantava muito bem. Era uma sexta feira, 4 de julho de 1862. Mas confesso que não sei mais se é mesmo lembrança ou embalo das poesias de Carroll.


Maggie Taylor

Quando ele lançou sua heroína pela toca do coelho não fazia idéia de como seriam as aventuras. Chamava-se Alice por minha causa, acredita? Carroll criara ali um caminho, para um reino onde a fantasia reinasse suprema. Quando se perdia e não sabia como seguir, fingia-se dormindo, mas insistíamos para que a história continuasse. Acabamos até ajudando na criação da história, com nossas perguntas e intromissões constantes.



Maggie Taylor.

Sozinhos naquele santuário aquático, isolados no bote, longe da família, da governanta, do dever, da moral, de tudo, ficávamos unidos nas brincadeiras pelo riso e a descoberta da fantasia. Conte uma história, ordenávamos. E Carroll ali mesmo, criava seu interminável conto de fadas, como ele mesmo gostava de chamar. Mas como a história é levada pelo ar e por pouco não se evapora, implorei-lhe que a escrevesse para mim e ele não resistiu aos apelos. A partir daquele dia tornei-me seu ideal de menininha.



Alice Liddell fotografada por Lewis Carroll.

O bote deslizava rio abaixo e Carroll inventava a história com ajuda da paisagem e dos animais presentes: uma toca de coelho, uma poça d’água, uma casinha com chaminé, uma lebre, um gato, um sapo, um peixe, um porco, pássaros e a vida cotidiana como colégio, professores, matérias escolares, mas também poemas e canções, danças e jogos populares, além de poderes instituídos como rei, rainha, tribunais e soldados. Referências, linguagem, jogos de palavras, tudo tinha origem na cultura vitoriana. Oxford era palco, arquitetura, história, sociedade. Muitas referências se perderam no tempo de tão localizadas que eram.



Alice do filme de Jonnathan Miller (1966)

No Natal, dois anos depois do passeio de barco, ganhei o manuscrito ilustrado pelo próprio Carroll com a dedicatória “um presente de Natal, para uma criança querida, em memória de um dia de verão”. A história se chamava “Aventuras de Alice no Subterrâneo”. Tinha insistido muitas vezes para que ele terminasse o manuscrito entregue num pequeno caderno de couro verde com sua letra caprichosa e seus desenhos de inspiração pré rafaelita.

Saiba mais sobre os desenhos de Carroll AQUI


Antes de me presentear com o manuscrito, Carroll preparava nova versão das aventuras de Alice, seguindo conselhos de amigos. A história original estendida e modificada com novos poemas, capítulos, personagens e textos, mais complexa e sofisticada veio a público em Londres, três anos após aquela “tarde dourada”. Alice no País das Maravilhas, como foi chamada, foi ilustrada por John Tenniel. Famoso na época, suas ilustrações se tornaram clássicas e consideradas inseparáveis da obra, mesmo que esse tenha sido um dos livros mais ilustrados de todos os tempos, seguindo ironicamente a sugestão da própria Alice: “De que serve um livro sem figuras e nem diálogos?” Somente sete anos após Carroll escreveria “Através do Espelho e o que Alice encontrou lá”.



Saiba mais sobre as ilustrações de Tenniel AQUI


Analisando hoje as aventuras, percebo por trás dos personagens das Alices, embora distorcidos e exagerados, os rígidos fundamentos da sociedade vitoriana, seus lemas, hierarquias, costumes, convenções, etiquetas, tabus. E acima de tudo defeitos e loucuras. A visão vitoriana da criança está no cerne das histórias, assim como as observações da criança sobre o mundo adulto e o tratamento insensível e cruel que ela dele recebia.



John Tenniel.

Tornei-me para Carroll símbolo de uma infância doce e sublime que ele mesmo não tivera. Ele não queria que crescêssemos e às vezes nem eu mesma queria, para que não me tornasse uma esposa passiva e obediente, um anjo do lar. Ter de usar espartilho e me submeter a tantas regras e proibições. Queria mesmo era ser independente como Alice. Outras vezes queria crescer rápido e não ter de decorar lições, seguir ordens de mamãe e da governanta, ter de recitar poemas para as visitas, e tantas outras coisas feitas por obrigação e sem prazer. Acho que é por isso que Alice também cresce e diminui tantas vezes seguidas, nas suas aventuras. Chego a acreditar que as fotografias de Carroll serviram para ele nos fixar como crianças eternas, imortalizadas em imagens de uma infância perfeita e ideal.


Irmãs Liddell: Edith, Lorina e Alice.

Carroll atingiu a essência universal da infância e captou desilusões, medos e desorientações do dia a dia das crianças. Os livros de Alice fornecem uma alternativa onírica para os fardos da infância. Alice representa o desafio à autoridade. Só a criança pode ter desprendimento de ignorar as regras que sustentam o poder dominante. Tal como o menino que um dia gritou que “O rei está nu!”.



Lewis Carroll aos 8 anos.

A maioria dos livros para crianças das classes altas da época tinha objetivos ditos nobres: ensinar e pregar, pois as cartilhas ministravam princípios religiosos junto com a tabuada. Livros sisudos e didáticos estimulavam temer o pecado e infundir disciplina e obediência. Raramente se dava crédito à inteligência da criança, à sensibilidade ou imaginação. Carroll fundou a literatura infantil de verdade, aquela que não dá aulinha nem lição de moral, mas que explora bem a linguagem.






O país das maravilhas e o outro lado do espelho são lugares misteriosos onde os personagens não seguem regras convencionais e o significado não desempenha seu papel habitual. As palavras pulam do livro e mexem com as pessoas. Somos outros depois da leitura. Experimentamos novas possibilidades de existir. A imaginação mergulha no desconhecido. Esse livro é doido, o sentido está na gente.



Maggie Taylor

Com Carroll desafiei a lógica e aprendi a árdua tarefa de pensar. Seus livros ajudam a criança a tomar consciência de si e mostram não ser ela a única a sentir o que sente. Talvez eles indiquem até mesmo aos adultos como respeitar a criança. Os livros de Alice me ajudaram a crescer. Mas as histórias de Alice foram muito além do mundo infantil, e cada vez que lemos, em diferentes idades, o livro se mostra diferente.


Maggie Taylor

Tudo quanto possuímos de poético e também de absurdo se apresenta nesse livro. Ao descer pela toca do coelho Alice passa a habitar – como quando atravessa o espelho, um país diferente do conhecido, como aquele que experimentamos quando fechamos os olhos. Encantadora e excepcional, a narrativa a cada instante foge do plano da realidade e oniricamente se move, alada e sensível, num mundo que a imaginação borda com todos os seus caprichos. Alice é a carta de amor de Carroll para mim, o “ideal de menininha”, e para todas as crianças e adultos do mundo. Convite ao fascinante universo daquele que, em tarde dourada, mergulhou em um poço profundo e se aventurou no desconhecido, e que ainda hoje nos desafia a mergulhar também.


Este texto é uma mistura de textos de Nicolau Sevchenko, Paulo Mendes Campos, Ana Maria Machado, Cecília Meireles, Anna Clark Amor, Morton Cohen e Martin Gardner. Foi criado para ser lido num evento.



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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”