8 January 2010

Alice ilustrada por Lewis Carroll



Alice illustrated by Lewis Carroll.


Lewis Carroll

Alice’s Adventures Under Ground.

Introduzido por Martin Gardner.
New York: Dover; 1965.
Formato: 13 x 21 cm. 95 pág.
37 ilustrações originais de Lewis Carroll.




Páginas do manuscrito de "Alice's adventures Under Ground"



Edição facsímile do manuscrito original de Lewis Carroll de 1864, introduzida por Martin Gardner, um matemático brilhante e profundo conhecedor da vida e da obra de Charles Dodgson. No prefácio desta edição, Gardner nos oferece o privilégio de conhecermos melhor sobre a história desse manuscrito e, por conseguinte, das etapas de criação de Alice no País das Maravilhas, assim como da relação entre Lewis Carroll, e sua musa inspiradora, Alice Liddell.



Alice Liddell fotografada por Lewis Carroll


Não vamos abordar todos os aspectos presentes no livro, mas algumas informações são bastante relevantes e merecem destaque. Vamos nos deter aqui com mais detalhes no fato surpreendente de Carroll ter escrito três e provavelmente quatro diferentes versões para Alice no País das Maravilhas. A primeira transcrição desse “interminável conto de fadas” (Carroll), história contada por ele nos longos passeios de barco com as irmãs Liddell em junho de 62, possivelmente foi mais tarde destruída pela própria insatisfação. A segunda versão de Carroll, por sua vez, foi a que ele presenteou Alice Liddell no Natal de 64, manuscrita e ilustrada por ele, similar no conteúdo a essa que tenho agora em mãos.



Ilustração de Maggie Taylor


Enquanto isso Carroll preparava uma nova versão de Alice para ser publicada, sob forte insistência de amigos que já haviam tido contato com a sua fantástica criação. Lewis Carroll então ampliou e modificou a história em muitos aspectos, acrescentando poemas, novas capítulos como “Um chá bastante louco” e “Porco e Pimenta”, além de novos personagens como a duquesa e o gato de Chershire. O episódio da corrida sucessória foi também criado nesse intervalo, a partir de um evento ocorrido entre Carroll e as irmãs Liddell, que parece ter provocado vivo interesse entre o grupo. Um novo texto, mais sofisticado e complexo, foi então publicado em Londres pela Macmillian, já com as ilustrações de um famoso ilustrador do Punch: John Tenniel.



Ilustração de John Tenniel


A quarta e última versão de Alice, The Nursery Alice, foi completamente reescrita por Carroll dirigida a um público infantil de até cinco anos de idade. Essa nova vesão foi publicada em 1889 em Londres, também pela Macmillian com as ilustrações de Tenniel coloridas desta vez. Essa última versão pode ser tomada como uma indicação de que Carroll teria considerado sua obra excessivamente complexa para as crianças menores, público para ele mais atraente do que o público adulto.



Capa de "The Nursery Alice". Ilustrações de Tenniel a cores.



Vamos nos deter agora nessa segunda versão de Alice, que é entretanto considerada como a original, visto que não se tem hoje registros da versão anterior e de que foi precisamente esta a obra presenteada e dedicada à Alice Liddell, sua musa inspiradora, com o nome de Alice’s Adventures under Ground. Muito se diz na introdução de Gardner sobre o texto desse manuscrito, como também sobre sua história posterior. Nos concentraremos aqui, entretanto, nas ilustrações de Carroll propriamente ditas, assim como nas informações relevantes sobre esse aspecto presentes no texto de Gardner.



Ilustração de Lewis Carroll


As primeiras evidências encontrada no prefácio sobre a visão de Carroll sobre suas próprias ilustrações, já são bastante relevantes. Tratam-se de duas cartas que Dodgson enviou à Alice, já como Sonhora Hargreves, referindo-se à publicação do facsímile do manuscrito.



Senhora Heargreves (Alice Liddell), fotografada por Lewis Carroll


Na primeira das cartas Dodgson pede à Alice um empréstimo do manuscrito a ela presenteado vinte anos antes, com seu consentimento para que ele fosse publicado. Nesta carta ele se refere diretamente às suas ilustrações, reconhecendo mais uma vez e de maneira enfática, a evidente precariedade de suas ilustrações, chegando mesmo cogitar que fosse absurda a reprodução daquelas imagens. Mas ele acaba cedendo ao reconhece o interesse do público em conhecer a versão da história que naquele momento já usufruía de grande sucesso.

Mais adiante Gardner dá seu próprio parecer em relação às ilustrações de Carroll. Muito embora ele afirme que Tenniel não teria entrado em contato com o manuscrito quando fez suas ilustrações, muitas semelhanças entre ela podem ser identificadas, fruto provavelmente, da proximidade entre eles durante o período.


Ilustração de John Tenniel


Felizmente, e com grande sensibilidade, Gardner não compartilha de uma opinião, quase unânime na época, e ainda hoje muito divulgada, de que as ilustrações de Carroll são desprezíveis em relação às de Tenniel, mantendo seu interesse apenas como curiosidade pitoresca. Assim como Gardner, devemos superar esse preconceito, visto que nosso contexto atual permite que ela sejam reavaliadas com uma sensibilidade renovada, sem precisar fazê-la competir com as ilustrações posteriores, tendo em vista que sua natureza é bastante distinta.

Realmente Carroll não é um desenhista excepcional, mas de forma muito essencial ainda é a grande autoridade em Alice no País das Maravilhas. E por outro lado, tendo em vista que as ilustrações de Tenniel não contentaram Carroll, podemos recorrer às suas ilustrações como as mais autênticas e intimamente ligadas ao texto, visto que foram criadas como parte indispensável de sua obra, destarte o seu próprio descontentamento com elas. A visão de Gardner é também a de que as ilustrações de Carroll são fascinantes, mostrando de forma muito mais aguda, como o autor concebeu os seus curiosíssimos personagens.

Os desenhos de Carroll são desproporcionais e toscos de comparados aos padrões acadêmicos. Seu estilo é irregular e sua Alice muda de feições a todo momento, em alguns desenhos visivelmente por terem sido baseados em algumas fotografias, pinturas e outras ilustrações a que Carroll teve acesso e que tomou como referencia para seus desenhos. No caso da personagem Alice e de suas “aventuras no Subterrâneo”, as irregularidades de sua caracterização tornam-se mais significativas visto que na historia, Alice se transforma tantas vezes até perder a noção de sua própria identidade.

Ao mesmo tempo, o caráter primitivo dos desenhos de Carroll produz uma estranheza e um certo desconforto, em grande parte profundamente ligados ao espírito do texto. Enquanto a Alice de Tenniel é comportada e convencional, mais fria e distante do que acontece ao seu redor; a Alice de Carroll exala uma sinistra melancolia, ao mesmo tempo que nos encara com olhares muito mais perturbadores e enigmáticos.

Um adicional caráter grotesca está associado aos demais personagens, em especial a Rainha de Copas, o lagarto fálico e outros animais como a tartaruga, o grifo e os personagens da corrida de comitê, intensificando um clima de crueldade pesadelo. Muitos momentos são mesmo de arrepiar, como a Rainha de Copas gritando “Cortem-lhe a cabeça!” quando podemos sentir o golpe travado por Carroll.

Devemos ainda ressaltar o caráter erótico subterrâneo em seus desenhos, em especial no lagarto e nas deformações de Alice, “menina falo”. A esse respeito Gardner sugere: “... and there are amusing details, and some not consciously intended aspects of special interest to freudian symbol searchers, that call for more than a casual inspection of the pictures.” (pág.10)

Os desenhos de Carroll são fascinantes, certamente não por sua técnica, mas por sua profunda ligação com o espírito do texto, fundamental contraponto subterrâneo e intenso para a desbotada e comportada Alice de Tenniel. Um dos mais maravilhosos presentes de desaniversário que uma menina poderia receber, uma carta de amor dirigida não apenas aquela por muito tempo considerada “seu ideal de menininha”, mas a todas as meninas do mundo. Intenso convite para penetrarmos nesse fascinante universo de Alice Carroll, que um dia caiu num buraco profundo.



Ilustração de Maggie Taylor

Segue um trecho extraído do livro:

Lauro Maia Amorim
Tradução e adaptação: 
Encruzinhadas de textualidade em Alice no Pais das Maravilhas, de Lewis Carroll, 
e Kim, de Rudyard Kipling
São Paulo: UNESP, 2005.
Formato: 14 x 21 cm.  


“É interessante observar as ilustrações do criador de Alice, referentes ao capitulo “A quadrilha da lagosta”, em que se encontra com a Falsa Tartaruga (Mock Turtle) e o Grifo (Griphon) e compará-las com as da edição de Tenniel.



Ilustração de Lewis Carroll




Ilustração de John Tenniel


Comparativamente, percebemos que a ilustração de Carroll permite criar uma certa visão do desconhecido, da obscuridade, da incerteza, tons característicos de uma “indefinição” de identidade. As personagens que estão juntas da Alice, na ilustração, seriam marcadas por essas características. O que seriam essas criaturas? “Mock Turtle”, na cultura inglesa, adviria da expressão “mock turtle soup” ou “sopa de tartaruga falsa” – ou seria “falsa sopa de tartaruga”? Essa sopa, segundo o dicionário Oxford Advanced Learner’s, significa “sopa feita com cabeça de bezerro ou com outro tipo de carne para se parecer com sopa de tartaruga”. Griphon (Grifo) seria uma criatura mitológica grega, com cabeça e asas de águia e corpo de leão. A ilustração realizada por Carroll não confere a essas personagens clara delimitação do que elas realmente seriam. A própria ausência de uma delimitação como essa, teria sido, em principio, uma forma proveitosa para criar uma sensação de estranheza no leitor.

A ilustração de John Tenniel permite identificar, de forma mais clara, os aspectos físicos dos dois personagens. Tenniel reforça as características que seriam peculiares à figura do Grifo, tais como as asas, a cabeça de águia e o corpo de leão, alem de diferenciar com maior clareza o corpo da Falsa Tartaruga (pela mistura de corpo de tartaruga com cabeça e patas de bezerro), podendo remeter, com mais facilidade, os leitores da época à expressão “mock turtle soup”. Poderíamos supor que essa mudança de perspectiva, quanto a concepção ilustrativa do livro, poderia estar vinculada a aspectos receptivos da obra no mercado de literatura infantil da época e que privilegiaria o emprego de ilustrações mais “acessíveis” às crianças.

Se, por um lado, as ilustrações produzidas por Carroll poderiam não ser apropriadas para o público infantil, por outro, seriam bastante sugestivas para o público adulto. As noções de “viagem”, de descida à “Toca do Coelho”, proporcionam ao leitor a percepção de “subterrâneo”, de entrada em outro mundo, regido por outras leis. Antes mesmo de presentear Alice Liddell com seu livro, Carroll havia concebido para sua obra o título de Alice’s adventures in under ground (“As aventuras de Alice no Subterrâneo”).

A ilustração de Carroll sugere a impressão do subterrâneo, de uma delimitação incomum do mundo, expressa pela não-identificação do que representariam as duas criaturas. A edição da tradução de Uchoa Leite teria mantido as ilustrações de Carroll, talvez, pela possibilidade de uma percepção nonsense do mundo carrolliano, (...) Na concepção de Uchoa Leite, o sentido da obra de Carroll revelar-se-ia “mais do que através da visão simbólica, pela percepção do jogo dialético permanente entre significado e significante. Do jogo das palavras e do que elas significam, ou do questionamento das regras lógicas pelo nonsense e pelo paradoxo”. (p.23)



Ilustração de Maggie Taylor

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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”