7 January 2010

ALEJANDRA PIZARNIK e o jardim proibido


Su Blackwell






Poeta argentina nascida em Buenos Aires em 1936. Alejandra Pizarnik obteve a licenciatura em Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e em seguida cultivou seu interesse pela pintura com a supervisão de Juan Batlle Planas. Mais tarde viajou para Paris onde estudou história da Religião e Literatura Francesa na Sorbonne e trabalhou colaborando em vários jornais e revistas literárias com poemas, textos críticos e traduções de Artaud e Marguerite Duras, entre outros. Nessa época estabeleceu amizade com Otávio Paz, Júlio Cortazar e Rosa Chacel.

É uma das vozes mais representativas da geração dos anos sessenta e é considerada entre os poetas mais importantes e surreais da Argentina. Comparada a André Breton e Latréamont, a vida e a obra dessa autora pode definir-se como uma tentação de ultrapassar os limites, tateando o milagre, assombrada pela morte e pela loucura. Sua temática noturna, lúdica e angustiada é bastante elaborada. Amiga de Cortázar, explorou como esse o universo literário do fantástico.

Sua obra poética está representada nas seguintes obras: «La tierra más ajena» de 1955, «La última inocencia» de 1956, «Las aventuras perdidas» de 1958, «Árbol de Diana» de 1962, «Los trabajos y las noches» de 1965, «Extracción de la piedra de locura» de 1968, «El infierno musical» de 1971 e «Textos de sombra», publicação póstuma de 1982. Nos últimos anos experimentou textos em prosa como «La Condesa Sangrienta» de 1971 e teatro, como «Los Perturbados entre Lilas» de 1969.

Suicidou-se em 1972 como resultado de uma profunda depressão.



INFANCIA

Hora en que la yerba crece
en la memoria del caballo.
El viento pronuncia discursos ingenuos
en honor de las lilas,
y alguien entra en la muerte
con los hojos abiertos
como Alicia en el país de lo ya visto.



Joseph Cornell


OBRA
Pizarnik no jardim das Maravilhas.


Em uma entrevista à Martha Moia, Pizarnik declara que em seus poemas “existem palavras que se repetem sem cessar, sem trégua, sem piedade: as da infância, dos medos, da morte, da noite dos corpos”. (Alejandra Pizarnik (2002), “Prosa completa”. p. 331) Considera também que certos termos como errância, silêncio, vento, noite, são por sua vez, signos e emblemas que mapeiam seu universo poético.

A imagem da infância em Pizarnik é repleta de desolação e silêncio. É notável sua identificação com Alice, que como Pizarnik, explora o “outro lado” do espelho. Mas ao contrário de Alice que retorna do sonho à realidade, na obra de Pizarnik a estória termina com o ingresso na morte. Suas estórias se articulam com “Alice no Pais das Maravilhas”, mas sua Alice, personagem que reflete ela mesma, não alcança o conhecimento desejado, nem tampouco a comunicação.

O tema da infância, unido ao de Alice em muitas partes de sua obra, também busca outros personagens célebres com Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, com quem se compara. E nesse universo, o bosque torna-se um tema dominante, visto que “a ação transcorre no deserto e sozinha atravessei minha infância com Chapeuzinho no bosque antes do encontro feroz”. Existe aqui um paralelo entre o bosque, que é deserto, e os personagens: todos são devorados metaforicamente em seu jogo literário.

A natureza em Pizarnik é um espaço que invoca estados psicológicos, sonhos, devaneios. Esses estados podem ser de alegria e terror. Os elementos externos – vento, chuva, pássaros, paisagens, jardim – simbolizam estados de alma. Esses signos se entranham em sua poesia como personagens, criando campos semânticos que nos levam a paisagens estranhas, terríveis e maravilhosas, que tendem a obscurecer a realidade cotidiana. O tema da natureza é usado apenas com base para territórios subjetivos. Até mesmo o tema do jardim, capaz de conotar um universo de paz e beleza, se torna uma área proibida, almejada e inatingível.

Os discursos são espelhos de reflexos infinitos e Alice forma um importante elo intertextual na obra de Pizarnik. Uma aproximação com as “Obras Completas” da autora é suficiente para revelar o impacto considerável exercido pelos livros de Alice, ora como citação direta, ora como uma referencia mais abstrata ao jardim em seu potencial simbólico.

Pizarnik projeta uma auto-imagem de criança vulnerável, incapaz de enfrentar o mundo adulto. Dessa forma, sua tendência de identificar-se com a figura de Alice e seu jardim onírico, forma um importante aspecto dessa auto-imagem, e reforça a posição de Lewis Carroll como uma das influências determinantes em sua obra.

Alice é motivada inicialmente por sua curiosidade, que vai aos poucos se tornando uma determinação: o jardim é atraente e o fato de ser inalcançável só aumenta seu interesse e determinação de chegar até ele. Pizarnik é movida por um desejo similar pelo inalcançável, o jardim se torna um símbolo poderoso e ambíguo de um mundo fascinante além do conhecido, que poderia oferecer um lugar acolhedor para o sujeito poético. Em sua entrevista com Martha Moia, Pizarnik comenta: “Uma das frases pela qual sou mais obcecada é dita pela pequena Alice no pais das Maravilhas: “Só vim ver o jardim”. “Para Alice e para mim o jardim seria o centro do mundo”.

Mas na obra de Pizarnik o desejo de entrar no jardim não é satisfeito, ou é abandonado com impossível. Assim, o significado do jardim se torna mais explicito. É uma metáfora para o inalcançável. Cada jardim que é visitado não é nunca o jardim que está sendo buscado e então é estabelecido um paralelo entre essa busca e o processo da escrita, tendo em vista o que quer que ela escreva nunca diz o que ela queria dizer. “Mas cada vez que visitava um jardim comprovava que não era o que buscava, o que queria”.

Um forte motivo conduz o desejo de Pizarnik de entrar nesse jardim mítico: a angústia de deixar a infância. Mas o jardim é bem mais do que um símbolo do paraíso perdido da eterna infância. O jardim pode carregar associações com a infância, mas mesmo nela a morte marca sua presença. E a figura de Alice entra na Morte. A combinação de inocência e experiência comunicada com tanta força nos livros de Alice, aqui ganha o peso da fascinação da criança com a morte. Os personagens de Pizarnik entram em jardins que as flores têm cheiro de cadáver e são transpassadas por associações obscenas. Em uma torrente enlouquecida da linguagem, o sonho de Alice se torna um pesadelo; seu jardim de “flores brilhantes e fontes de água fresca” é raptado pelo “Jardim das Delícias” de Bosch e a cartografia dos mundos além da morte.

“Uma vez que o Hades não existe, certamente você está lá,
no último hotel, último sonho, passageira obstinada da ausência. Sem bagagem ou papéis, dando
 um níquel por um caderno ou um lápis de cor. - Aceita-os, barqueiro: ninguém pagou mais caro
o ingresso para os Grandes Transparentes, 
para o jardim onde Alice a esperava.”
(CORTÁZAR, Julio. 
Desquicio 4. Paris: 1972.)



Toyen

CORTÁZAR, Julio. 
Desquicio 4. Paris: 1972.
MACKINTOSH, Fiona J. La pequeña Alice: Alejandra Pizarnik and Alice in Wonderland. University of Warwick (Fornecido pela Autora).
PIZARNIK, Alejandra. Poesia Completa. Barcelona: Editorial Lumen, 2002.
PIZARNIK, Alejandra. Prosa Completa. Barcelona: Editorial Lumen, 2002.




Austria Salzburg Festival
Andrea Wenzl


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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”