8 January 2010

Alice ilustrada

The illustrators of Alice in Wonderland.
OVENDEN, Graham & DAVIS, John.
London: Academy Editions. New York: Martin’s Press, 1979.




O livro contém uma seleção de alguns dos mais importantes ilustradores ingleses e americanos de Alice até a década de 70. Fartamente ilustrado por 110 ilustrações, sendo 32 de Alice através do Espelho e 78 de Alice no País das Maravilhas, representa o trabalho de 36 ilustradores. Editado por Graham Ovenden, destacado ilustrador de Alice e introduzido por John Davis, The illustrators of Alice in Wonderland foi reeditado várias vezes desde 72, ano de sua primeira publicação. Tornou-se nesses anos uma referência básica acerca do tema.

No prefácio é contada uma parte dessa rica história dos ilustradores e das ilustrações de Alice, amplo campo de pesquisa de grande valor histórico, artístico e cultural. Como esse livro ainda não foi traduzido e nem editado no Brasil, resolvi adaptá-lo ao português, resumindo o texto original.

John Davis toma como ponto de partida o fato de que raramente um autor foi tão bem servido por um ilustrador como Lewis Carroll foi por John Tenniel, mesmo que desde então a obra já tenha sido ilustrada por bem mais de duzentos artistas em todo mundo. (Hoje podemos aumentar esse número para mais de mil). Pode-se dizer que no século XX cada década produziu suas próprias Alices: Já tiveram Alices Art Noveau, Art Deco, Surrealistas, Pops e Psicodélicas entre outas.


John Tenniel, 1865.


De qualquer forma, seria impossível discutir sobre as ilustrações de Alice sem discutir sobre sua criação. Assim John Davis resgata o contexto histórico e biográfico de Lewis Carroll, passando pelos dias em que contou a história de Alice para as três irmãs Liddell durante um passeio de barco (Alice, Edith e Lorina). Depois veio a sugestão de amigos para que o livro fosse publicado e a contratação de um profissional para ilustrá-lo: John Tenniel. Ambas as Alices foram ilustradas por ele e publicadas em Londres pela Mcmillian. Alice no País das Maravilhas em 1865 e Alice através do Espelho em 1872.


Jô Oliveira (Brasil), 1998.


A relação de Tenniel com Carroll foi bastante tumultuada e segundo Furniss, que ilustrou o romance Silvia e Bruno, anos depois Carroll teria lamentado que somente o Humpty Dumpty de Carroll teria correspondido à sua própria visão da obra e de seus personagens. O fato evidentemente não deixa de problematizar a importância paradigmática adquirida pelas ilustrações de Tenniel. Entretanto, o relacionamento estreito entre ambos e sua fidelidade em relação ao texto e a sua própria época, fizeram com que suas ilustrações fossem consideradas inseparáveis da obra. A partir daí pode-se dizer que toda a história das ilustrações de Alice no século XX se firmaria por uma certa angústia de influência em relação às ilustrações de Tenniel, marcada na maior parte das vezes pela celebração, respeito e mesmo repetição de suas soluções, e em raros momentos pela necessidade de sua superação na procura por novas abordagens e releituras das Alices.




John Tenniel, 1872.


As críticas mais comuns às ilustrações de Tenniel para o pPaís das Maravilhas referem-se à própria Alice, muito séria, formal e pouco expressiva. Já as ilustrações para Através do Espelho teriam sido mais elaboradas tecnicamente e com uma Alice mais leve e cativante, constituindo-se, entretanto, para alguns de seus biógrafos, “em melhores desenhos mas piores ilustrações”, reforçando assim a diferença decisiva entre a técnica do desenhista e a interpretação sensível do ilustrador.


John Tenniel, 1865.


O primeiro ilustrador de Alice fora entretanto o próprio Lewis Carroll. Ele ilustrou o manuscrito original de Alice, chamado de “As Aventuras de Alice no Subterrâneo”, com que ele presenteou Alice Liddell no natal de 1862, três anos antes de sua publicação. Embora não tivesse a competência profissional de Tenniel, o valor de suas ilustrações tem sido profundamente revisto. Alice tem bem mais força nas suas ilustrações do que nas de Tenniel e uma das hipóteses para a pequena aceitação da publicação do manuscrito original em 1886, é a de que a Alice de Lewis Carroll estaria muito mais interessada em entender a lógica daquele lugar, o que seria inadmissível para a mentalidade da época. A Alice de Tenniel por sua vez, é bem mais convencional.


Lewis Carroll, 1862.


Por outro lado, hoje que o virtuosismo técnico não é mais tido como indispensável, as ilustrações de Carroll são revalorizadas pela sua expressividade. Alem de evidentemente, serem de autoria do próprio autor, reforçando a estreita relação entre texto e imagem, ou entre os diálogos e as figuras, como anuncia a própria Alice logo no início do livro: “E de que serve um livro sem figuras e nem diálogos?”


Tradução de Adriana Peliano para o manuscrito de "Alice's Adventures Underground",
simulando a letra do próprio autor.


Quando Lewis Carroll ainda era vivo, alguns artistas tiveram o desejo ou a oportunidade de competir com as ilustrações de Tenniel, muitos com o estímulo de Carroll, como fruto de sua insatisfação. Assim, em 1880 foi publicado “Alice and other fairy plays” e em 1882, “Trough the Looking Glas and othe fairy plays for children”, ambos publicados por Kate Freiligart Kroeker’s e ilustrados por Mary Sibree; em 1884, Stanley Leathers produziu “Alice’s Wnderland Birthday Book” com ilustrações de J.M.P. e em 1896 Blanche Macmanus foi a primeira ilustradora americana de Alice.


Blanche Macmanus, 1896.


Mas a avalanche de novas ilustrações de Alice só começaria mesmo após a morte de Lewis Carroll, inicialmente nos EUA e depois na Inglaterra. Entre 1899 e 1904 mais quatro edições americanas foram publicadas, das quais a mais conhecida foi a de Peter Newel. Quando em 1907 se esgotaram os direitos autorais de Alice, se iniciou uma grande disputa para que se produzissem novas edições com novos ilustradores.


Peter Newel, 1902.


A primeira edição, publicada em outubro daquele ano, foi produzida por Chatto and Windus, com ilustrações coloridas de Millicent Sowerby. Com exceção de uma abertura pouco usual, as ilustrações desapontaram considerando-se que se esperou 40 anos por um sucessor de Tenniel. A próxima edição, ainda em 1907 foi ilustrada por Thomas Maybank, que também não conseguiu desenvolver uma interpretação própria e diferenciada da obra.


Millicent Sowerby, 1907.


Thomas Maybank, 1907.


Essas edições foram seguidas por uma edição ilustrada por Arthur Rackham, um ilustrador de livros infantis já bastante conhecido e considerado o primeiro artista comparável à Tenniel em suas ilustrações para Alice. Suas aquarelas em tons soturnos onde predominam cinzas e marrons, caracterizam uma atmosfera sombria e melancólica, com árvores retorcidas e olhares penetrantes e enigmáticos, numa interpretação bastante singular e original das aventuras de Alice no Pais das Maravilhas. O sonho ilustrado de Alice se convertia então em pesadelo.


Arthur Rackham, 1907.


Arthur Rackham, 1907.


Arthur Rackham, 1907.


Ainda em novembro de 1907 surgiu uma edição com oito pranchas coloridas e outras 112 ilustrações de Charles Robinson. Com um marcante caráter Art Noveau, suas ilustrações são encantadoras, com momentos de grande beleza e expressividade. Conforme se valorizava na época, raramente uma página não era ilustrada, mas infelizmente tais ilustrações não são reeditadas desde 1928. Seu irmão, Thomas Robinson, também faria interessantes ilustrações de Alice na década seguinte, juntamente com Charles Pears, criando uma Alice mais madura do que de costume, entretanto a parceira entre os dois ilustradores resultou em um conjunto com pouca coesão e de qualidade irregular.


Charles Robinson, 1907.


Entre as oito edições ilustradas em 1907, as de Arthur Rackham e as de Charles Robinson foram as únicas que captaram a história de maneira realmente nova. A partir de 1908 quase todo ano surgiam novas ilustrações de Alice. Cada uma contribuiu obviamente com o estilo e a habilidade próprias de cada artista, mas poucas realmente produziram uma nova abordagem, redundando em grande parte em ilustrações monótonas e repetitivas. Assim como Charles Robinson e Tenniel, um outro artista do Punch, Harry Rountree ilustrou Alice em 1908. Embora a caracterização dos animais fosse confusa, suas figuras humana merecem atenção. A próxima ilustração de destaque foi a de A.E. Jackson em 1915, que produziu uma Alice mais contemporânea e sintonizada com sua época, recontextualizada.


Harry Rountree, 1908.


A.E. Jackson, 1915.


Um artista que se destacou nas pouco criativas ilustrações de Alice nas décadas de 20 e 30, foi o americano de origem húngara Willy Pogany (1929). Suas ilustrações têm um estilo Art Deco totalmente novo, conciso, clean e para muitos considerada a primeira interpretação original desde Tenniel. Sua Alice é uma adolescente americana típica da década de 30, de saia curta e cabelo de menino, fazendo uma série de outras referências ao contexto da sociedade americana daquele período. Outra ilustração de destaque da década foi a de D.R. Sexton (1933) que produziu uma Alice bem mais melancólica do que a de Pogany, de olheiras e ares soturnos.


Willy Pogany, 1929.


D.R.Sexton, 1933.


Dos artistas contemporâneos que ilustraram Alice, Ralph Steadman foi um dos mais importantes, produzindo uma série de ilustrações com um apelo bem mais adulto e critico do que seus predecessores. Todo o humor do nonsense carrolliniano e referencias de Carroll ao seu próprio contexto histórico são atualizados com grande ironia e perspicácia. Seu forte caráter satírico não agradou a todos, mas foi sem duvida uma interpretação radicalmente nova, com grande coerência e estilo, além de um primor técnico nos desenhos.




A série de litografias de Salvador Dali para uma maravilhosa edição limitada é de puro surrealismo. Alice percorre todos os desenhos com sua corda de pular, chegando ao chá do chapeleiro louco onde o tampo da mesa é um dos seus famosos relógios derretidos. Outro surrealista, Max Ernst ilustrou a festa do chá de Lewis Carroll em uma seleção de escritos de lógica e de cartas de Carroll, onde as cenas são representadas por modelos matemáticos.


Salvador Dali, 1969.


Salvador Dali, 1969.


Salvador Dali, 1969.


Max Ernst, 1970.


Graham Ovenden tem um approach único e bastante singular em relação ao livro: em todas as ilustrações apenas Alice é representada, num estilo hiperrealista. Durante toda a história são enfatizadas as reações da protagonista em relação aos diálogos e situações, com profunda sensibilidade, atraindo até mesmo os mais puristas amantes da obra. Alice no Pais das Maravilhas foi com certeza mais ilustrado do que qualquer outro livro infantil e talvez até mesmo do que qualquer outro livro de ficção. Alice através do espelho não teve o mesmo apelo. Alguns artistas ilustraram as duas obras apenas por conveniência e a maioria dos editores se contentaram em reimprimir as ilustrações de Tenniel.


Graham Ovenden, 1969.


Graham Ovenden, 1969.


A primeira edição inglesa com novas ilustrações de Harry Rountree só foi realizada em 1928, embora nos EUA já existisse edições anteriores. Blanche Macmanus fora novamente a precursora. As ilustrações de Peter Newel foram melhor sucedidas do que as que fizera para o Pais das Maravilhas, embora as feições orientais das peças de xadrez afastassem as imagens do espírito do texto.


Blanche Macmanus, 1899.


Peter Newell, 1902.


Harry Rountree, 1928.


Já em 1931 uma série de elegantes aquarelas do artista americano Franklin Hughes combinam um estilo geométrico com a arte americana da década de 30, resultando em uma curiosa contemporaneidade. Na Inglaterra, no mesmo período, Edgar Thurstan produziu suas ilustrações. Sua Alice era mais madura do que em muitas outras representações, mas não tão adulta como nas ilustrações de J. Morton Sale e seu Humpty Dumpty caracterizando um inseguro e desequilibrado homem de negócios.


Franklin Hughes, 1931.


Edgar Thurstan, 1932.


Morton Sale, 1933.


Na década seguinte foram publicadas algumas das mais interessantes edições de Alice. Philip Gough ilustrou os dois livros num encantador cenário Rococó, com Tweedledee e Twedledum como dois cortesãos franceses. Também o escandinavo Robert Högfeldt, um dos poucos artistas estrangeiros cujas ilustrações foram publicadas numa edição inglesa, produziu uma serie de animais esplêndidos particularmente a falsa tartaruga, cuja tristeza ocupava graficamente toda a página.

Philip Gough, 1949.



Robert Högfeldt, 1945.

No entanto, talvez a mais memorável interpretação de Alice segundo os autores, tenha vindo de Mervyn Peake. Graham Greene escreveu mais tarde ter sido Peake a primeira pessoa capaz de ilustrar o livro satisfatoriamente depois de Tenniel, embora tenha insistido durante varias conversas com ele que sua Alice era excessivamente gamine, o que iria contra o sinistro e quase macabro desenho dos outros personagens como por exemplo, o Chapeleiro Louco.


Mervyn Peake, 1946.


Já em 1970 Peter Blake produziu uma série soberba de aquarelas baseadas em Alice através do Espelho. O mais interessante nesse caso é observar o trabalho de um artista, sem compromissos editoriais ou comerciais, profundamente inspirado por esse livro. Suas ilustrações, entretanto, ainda não foram publicadas na íntegra em uma edição de Alice, mas apenas em coletâneas ou catálogos de exposições.



Inevitavelmente, conclui-se, as ilustrações de Tenniel têm influenciado profundamente o trabalho de quase todos os artistas que se dedicaram a ilustrar novamente as duas Alices, que muitas vezes se limitaram a embelezar o livro ou reproduzir literalmente o texto. Entre os artistas que enfrentaram esse desafio de ilustrar as Alices de Carroll, os melhores, segundo os autores, até a década de 70, incluiria o próprio Carroll, Rackham, Pogany, Peake, Steadman, Dali, Ernst, Blake e Ovenden, “But another lover of the Alice books could, and probably would, create a tottaly different list.”

Bibliografia adicional




Onde pesquisar sobre ilustradores de Alice de todos os tempos:

[1] VEJA-ME [2] VEJA-ME [3] VEJA-ME [4] VEJA-ME [5] VEJA-ME [6] VEJA-ME [7] VEJA-ME [8] VEJA-ME [9] VEJA-ME [10] VEJA-ME [11] VEJA-ME

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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”