1 September 2009

Ilustrações de Salmo Dansa


ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO
Releituras em verso de Letícia Dansa.
Ilustrações de Salmo Dansa.
Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
Formato: 19 x 27 cm. 76 pág. 16 ilustrações, cor.
Técnica mixta: colagem e arquitetura de papel.

Salmo Dansa, inspired by Tenniel’s illustrations, depicted Alice with collage and paper sculptures.
Foreign readers can copy the texto and immediately translate it at the Google translator



Salmo Dansa também ilustrou Alice com colagens. As imagens se fragmentam e se deslocam criando desproporções e estranhamentos. Um mundo de sonho, que extravasa os limites da percepção comum. É interessante observar que Salmo Dansa também se inspirou nas ilustrações de Tenniel, dialogando com suas imagens. Mas podemos observar aqui a diferença, fecunda e instigante, entre a redundância e a originalidade. Entre o que se esvazia e o que se renova. Salmo Dansa encontra um delicioso equilíbrio entre a referência e a reinvenção, propondo uma leitura nova e instigante.


Inseridas em suas colagens Salma Dansa cria curiosas e incríveis arquiteturas de papel. A página se torna espelho atravessado pela imagem, atravessada pelo olhar. Nas palavras de Salmo Dansa: “este trabalho partiu da idéia do espelhamento entre as páginas pares e ímpares; então, criei, com páginas de livros, imagens espelhadas, como esculturas de papel, para que você “entre” este livro como se ele fosse o espelho de Alice...” Atraves/suras.


ENTREVISTA EXCLUSIVA
Interview

Quem é Alice para você? Qual a sua relação pessoal com a obra?

Sou apaixonado pelos livros de Alice, é algo que sempre me interessa e surpreende. Minha relação com a obra de Lewis Carroll começou há nove anos atrás quando meu professor me sugeriu ler Alice através do espelho devido a relação conceitual entre alguns trabalhos que eu estava fazendo e a obra. Foi um trabalho que demorou muito tempo para amadurecer e acho que ainda sei muito pouco sobre Alice.

Qual é o maior desafio dos livros de Alice para um ilustrador contemporâneo?

Alguns trabalhos tem uma identidade visual tão forte que fica difícil se desvencilhar dela. É o caso do trabalho de John Tenniel nos livros de Alice e Gustave Doré em Don Quixote. Acredito que se deva nesse caso elaborar trabalhos mais autorais, sem a preocupação de publicar com editoras tradicionais, mas buscar formas alternativas de publicação.

Você acha necessário que o ilustrador de Alice dialogue com as ilustrações clássicas de Tenniel?

Acho que a citação é parte fundamental da arte contemporânea, sem a história da arte alguns trabalhos se tornam áridos e difíceis de justificarem.

O que você acha que as técnicas da colagem e da escultura de papel acrescentaram às suas imagens, proporcionando novas leituras e interpretações para o texto?

A colagem é uma velha companheira minha. Durante os anos que estudei pintura fiz muitas colagens em diferentes formatos e ganhei intimidade com a técnica porque era barato e eu tinha tempo de sobra. As esculturas são “livros-objetos” e exploravam o espelhamento, ou seja, a inversão complementar entre as páginas. Esse trabalho foi como um ponto de chegada para o meu estudo de colagem e ponto de partida para o projeto de livro ilustrado uma vez que depois de ter essas esculturas comecei a fazer as imagens do livro usando a estrutura dos desenhos do J. Tenniel como base e usando a colagem de forma figurativa.
Esse processo foi muito estimulante para mim e acredito que para leitores atentos pode criar novas camadas de significado e consequentemente novas leituras e interpretações para o texto.


O PRINCÍPIO DA COLAGEM

A colagem é um procedimento poético efetuado com elementos extraídos de desenhos impressos em livros, revistas, jornais, fotografias, figuras de propaganda e retalhos visuais que são incorporados ao quadro de maneira minuciosa. Herdeira direta do surrealismo, a colagem é fruto da aproximação entre realidades distantes, criando uma visão alucinatória e contraditória quando comparadas a realidade convencional. O caráter enigmático e ao mesmo tempo realista do sonho encontra na fotomontagem um terreno propício, numa lógica que aponta para outro sentido, que deve ser buscado entre fragmentos e associações inesperadas.

O princípio da fotomontagem juntamente com a colagem tornou-se um projeto poético e político nas vanguarda históricas, um dos grandes legados da arte moderna. A colagem no surrealismo teve expressão máxima na obra de Max Ernst, que desenvolveu a concepção surrealista da collage a partir da famosa imagem de Lautréamont do encontro de um guarda chuva e uma máquina de costura sobre uma mesa de dissecação, como o “acoplamento de duas realidades aparentemente inacopláveis sobre um plano que aparentemente não lhes convém.”

Max Ernst. Colagem de “Une Semaine de Bonté”, 1934

No dadaísmo Raoul Hausmann foi o provável inventor do procedimento por ele batizado de fotomontagem. A fotomontagem no contexto do dadaísmo berlinense surgiu como uma proposta política provocativa e iconoclasta, através do emprego livre de peças da realidade visando ao ataque político. A fotografia comparecia como uma imagem ready made, que era colada junto a recortes de jornais, revistas, letras e desenhos, a fim de construir uma imagem caótica e explosiva, num desejo de destroçar a imagem do mundo, desmascarado em sua absurda falta de sentido. Introduzindo simultaneamente diversos pontos de vista e diferentes níveis de perspectiva na representação plástica, as fotomontagens dadaístas desmontavam um mundo de sistemas despedaçados, arrancando do caos dos tempos de guerra e revolução uma imagem nova, tanto visual quanto intelectual.

Raoul Hausmann. Tatlin chez lui, 1920.

O construtivismo russo também adotou os procedimentos da fotomontagem dentro do contexto revolucionário. Durante a década de 20 ampliou-se cada vez mais o uso da fotomontagem combinado a novas técnicas tipográficas no campo da publicidade e da propaganda política para pôsteres, capa de livros, postais e ilustrações. Entre os artistas do construtivismo russo, destaca-se Alexander Rodchenko, cujas fotomontagens e cartazes são tão fantásticos quanto suas fotografias, onde rompe com os limites da percepção comum. Em 1923 fez uma série de fotomontagens para ilustrar o poema “Isto” de Mayakovsky. Centradas na imagem de Lily Brik, amante de Mayakovsky, as fotomontagens, assim como o poema, promovem um diálogo entre a condição do indivíduo e da coletividade. Foi a primeira vez que um livro foi inteiramente ilustrado com o uso da fotomontagem.

Alexander Rodchenko. Ilustração para o poema de Mayakovsky “Isto”, 1923.

As técnicas da colagem e da fotomontagem estão entre as influências mais significativas das vanguardas modernas. Hoje podemos perceber que a técnica foi absorvida nos diversos universos gráficos e estéticos, entre eles a ilustração. Max Ernst ilustrou Lewis Carroll. Darcy Penteado já tinha ilustrado Alice com colagens na década de 60. Cores, texturas, símbolos gráficos, fotografias e vestígios de imagens dialogam com o texto, compondo um mundo em fragmentos, onde a linguagem e a construção da imagem são mais determinantes do que a realidade representada.


Alice de Darcy Penteado.

Catálogo da Bienal de Ilustração da Bratislava / 2009










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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”