1 September 2009

Alice no teatro pelo Grupo Oficcina Multimédia




Ione de Medeiros

Capítulo do livro "Grupo Oficcina Multimédia - 
30 anos de integração das artes no teatro".*



Grupo Oficcina Multimédia




Alicinações (1991), terceiro espetáculo da trilogia Joyce, corresponde ao terceiro lado de um triângulo no qual a criança representa um movimento de liberação simbolicamente registrado pela total entrega ao onírico, ao lúdico, à imaginação. Reforçando esse clima, buscamos em Lewis Carroll (criador da palavra-valise, que mais tarde seria explorada e cultuada ao extremo por Joyce em sua obra) a complementação dessa fantasia. No título, Alicinações, repetimos o procedimento de acoplar dois sentidos numa mesma palavra e referenciamos Alice (personagem infantil de Alice nos País das Maravilhas, de Lewis Carroll) e as alucinações de Joyce em Ulisses.

O espetáculo se resume numa grande maratona, e o tema central é o jogo em suas múltiplas facetas. À maneira de Através do espelho e o que Alice encontrou lá, toda a ação dramática se desenrola num imaginário tabuleiro de xadrez composto de casas móveis que vão sendo montadas e desmontadas pelos atores-bailarinos, segundo os diferentes lances do jogo. No conjunto de regras estabelecidas disputa-se o poder, e o vale-tudo incorpora também a quebra de regras ou alucinações. São essas fantasias que, interferindo no fluxo das maratonas, vão recriar continuamente as fronteiras de tempo e espaço.

Em Alicinações o texto e a música formam um complexo de citações que vão de James Joyce a Dalton Trevisan junto de trechos de ópera, além das diversas fontes sonoras trabalhadas por procedimentos eletroacústicos.

“Alucinaciones es el nombre de esta pieza dirigida por Ione de Medeiros y en la cual este grupo de Teatro-Danza logra transponer la barrera del lenguaje de la mano de una técnica depurada en sus movimientos y de una fina y simple propuesta estética, que sirven de marco al relato de su história.”
Carlos Mollejas D. – Barcelona/Especial – “El Diario de Caracas
”(26/10/1992)





Tabuleiro do jogo. Ilustração original de John Tenniel para Alice através do Espelho.


Paricularidades da montagem

O roteiro do espetáculo resultava numa seqüência de ações dos atores-bailarinos servindo às regras pré-estabelecidas de jogos competitivos, jogos de entretenimento, coreografias e ilustrações de cenas dramáticas com personagens extraídos do Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan.

Meu pai matou um porco – Cada macaco no seu galho – Os pássaros voam fora do celeiro – A lebre no jardim – Corra seu urso – Foge raposa – Cavalos e cavaleiro – Corrida de canguru – Centopéia – Sapo – Saracura – Luta de caranguejos – Pneumáticos – Raposa manca – Pinto aleijado – Cobra venenosa. (Relação de jogos pesquisados para cena)

Os textos, falados ao vivo, ditavam as regras e orientavam os personagens:

OS PÁSSAROS VOAM FORA DO CELEIRO

Traça-se um retângulo, e dentro dele alguns círculos.
Em cada um dos lados do retângulo assinala-se com uma cruz, e, a uma distância de 10 metros desta, traça-se um círculo de 2 metros de diâmetro.
Dentro deste círculo traça-se um retângulo e dentro dele alguns círculos.
Em cada um dos lados do retângulo, assinala-se com uma cruz, e, a uma distância de 10 metros desta, traça-se um círculo de 2 metros de diâmetro.
Dentro deste círculo, traça-se um retângulo...
Será considerado vencedor aquele que fizer com que o adversário, perdendo o equilíbrio, caia do cavalo. (texto falado em cena)


O cenário em Alicinações foi concebido a partir das linhas verticais e horizontais presentes nas escadas e cadeiras do primeiro e do segundo espetáculo da Trilogia. Aqui as linhas se desprenderam da forma e deixaram de representar os objetos, prestando-se a uma proposta cênica abstrata. Transpostas para oito varas de madeira clara e medindo cada uma cerca de 1,80m de comprimento, elas serviam a múltiplas composições estéticas.

Manipuladas pelos atores-bailarinos, as oito varas eram dispostas em paralelas, transversais ou diagonais, desenhando o palco de acordo com a cena. Assim, delimitavam o espaço cênico do ator-bailarino enquanto este se movimentava conforme as regras do jogo. Junto com as cadeiras e bancos de diferentes alturas, as oito varas de madeira compunham o cenário do espetáculo.

Em Alicinações os atores-bailarinos articularam diversos textos: dos jogos de palavras às citações de ópera ou de clássicos da literatura.

bebida bife batalha boiada buzina berreiro besteira bispo bandeira Bonifácio bandolim Comida couve combate cambada corrida carneiro cuspe cueiro Cristóvão camarim Dama damasco dólar duende delfim.

Nesses textos a sonoridade musical prevalecia como referência. Destacamos, sob esse aspecto, um fragmento de Dalton Trevisan extraído de sua obra Cemitério de elefantes, falado pelas duas atrizes do espetáculo como um dueto musical feminino (F1 e F2). Uma delas emitia a voz num tom mais grave, e a outra repetia o texto, sobrepondo ou completando palavras com a voz em tom mais agudo. O resultado sonoro oscilava entre a música e o texto teatral falado. Essas vozes femininas sofriam interferência de uma voz masculina (M1), que fazia comentários irônicos sobre o tema, alguns extraídos de Ulisses, de James Joyce.

F1 – Duas gorduchinhas, mesmo não sendo gêmeas, usam vestidos iguais. De preferência encarnados e com bolinhas. Rosa tem rosto salpicado de espinhas. Augusta, dois anos mais moça, é engraçadinha para quem gosta de gordas.
F2 – Rosa tem o rosto salpicado de espinhas. Augusta, dois anos mais moça, é engraçadinha para quem gosta de gordas.
F1 – Esteve noiva três vezes de sujeitos cadavéricos, esfomeados por aquela montanha de doçuras gelatinosas. São como duas pirâmides invertidas que andassem largas no vértice e fininhas na base. Manchas roxas espalhadas pelo corpo de tanto se chocarem nos móveis. Lamentam-se da estreiteza das portas e a conversa predileta é sobre receita de bolo. O terceiro noivo, mais magro, com mais cara de fome, conquista Augusta, apesar da oposição da irmã.
F2 – O terceiro noivo, mais magro, com mais cara de fome, conquista Augusta, apesar da oposição da irmã.
M1 – Um homem é um homem, senão não.
Cemitério de elefantes, de Dalton Trevisan.


Outros textos em alemão e italiano, também compreendidos como interferências musicais, ora ilustravam a cena ora justapunham-se à coreografia dos atores-bailarinos.

“... L’inferno é la perduta de la presenza de Dio, l’inferno tormento misterioso e insondábile...”
Fragmento extraído da Divina Comédia, de Dante Alighieri

No figurino usamos cores fortes como azul turquesa, laranja, preto e amarelo. Essas mesmas cores eram repetidas nos guarda-chuvas das atrizes, e essa simetria, juntamente com as coreografias e todo o desenho cênico dos atores-bailarinos, dava ao espetáculo um tom artificial, similar às histórias em quadrinhos.

A música de Antônio Celso Ribeiro compreendia a utilização de diversas fontes sonoras trabalhadas por procedimentos eletroacústicos e reforçava as tensões do jogo com sons agudos muito prolongados e timbres agressivos mais próximos do ruído musical.




Para dar corpo a esta imagem, no palco vão estar textos de línguas diferentes, músicas dos mais diversos períodos, cores e formas coordenadas por atores/bailarinos, compondo uma mistureba do pop com o erudito, do remoto com o contemporâneo, do cotidiano com o fantástico. O alvo é a abertura de amplos espaços, para a lógica do lúdico pela ruptura de conceitos de passado, presente – futuro, cânones narrativos e fronteiras entre linguagens artísticas.”
“Estado de Minas”, Segunda Seção (13/11/1991)

Curiosidades

Na cena final, queríamos uma escada suspensa no palco, sem que utilizássemos qualquer suporte vindo do alto. Esse efeito foi conseguido quando colocamos as oito varas do cenário sobre cadeiras e bancos de alturas diferentes, e jogamos sobre elas uma luz azul. Uma vez que os bancos e cadeiras eram de madeira escura, a luz azul só iluminava as varas brancas, que se destacavam como linhas paralelas no meio do palco. O resultado obtido foi uma escada suspensa surgindo inesperadamente como uma mágica ilusionista.

Em compensação o desenho dessas mesmas varas, quando colocadas no chão, teve suas limitações. No palco italiano convencional onde estreamos, o público que se assentava nas primeiras filas não tinha acesso à visão total do desenho. Não previmos isso, e foi decepcionante constatar nossa falha no dia da estréia. No entanto, do alto, o efeito do jogo de varas esteticamente se prestou muito bem à nossa linguagem.

Outro fato curioso em Alicinações foi obra do acaso. A atriz Raquel Nunnes usava em cena um vestido azul-turquesa e outro alaranjado. Para cada vestido havia um guarda-chuva da mesma cor. Eram ambos muito limpos e novos, impecáveis. Essa simetria rígida correspondia à estética rigorosa do espetáculo. Estudávamos cuidadosamente as entradas e saídas da atriz-bailarina, e o uso do guarda-chuva na cena, junto com os movimentos, seguia uma rígida coreografia em que não caberia erro. Um dia, totalmente por acaso, o guarda-chuva fechou sozinho durante o espetáculo. Pude então perceber como era bonito o seu movimento de abrir e fechar em cena.

Em Bom Dia Missislifi (1993), espetáculo seguinte do Grupo, a atriz-bailarina Mônica Ribeiro entrava em cena com cinco guarda-chuvas pretos, velhos e rasgados, que ela atirava para todos os lados ou deixava-os cair no chão abrindo e fechando cada um deles obsessivamente enquanto falava ou se movimentava. Foram essas pequenas rupturas continuadas que nos permitiram chegar a um espetáculo como Zaac & Zenoel (1998), no qual utilizamos um material cênico velho e um cenário sujo que os atores movimentavam no meio da poeira e da água.

Convidei Eugênio Barba (Odin Teatret) que estava em Belo Horizonte para assistir Alicinações. Ele assistiu e deu seu comentário: “Parece que vocês estão querendo torturar o espectador com essa fragmentação. A música com esses sons agudos intermináveis é insuportável. Não sei como o público permaneceu na platéia!”. Mesmo que eu gostasse do espetáculo ficou aquela sensação do “erro”. Só mais tarde percebi que era aquilo mesmo que eu queria naquele momento.

FICHA TÉCNICA
DIREÇÃO E ROTEIRO: Ione de Medeiros | ELENCO: Mônica Ribeiro, Tarcísio Ramos Homem e Raquel Nunnes | DIRETOR ADMINISTRATIVO: Eugênio Tadeu Pereira | ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Mônica Ribeiro | COMPOSIÇÃO COREOGRÁFICA: Mônica Ribeiro e Tarcísio Ramos Homem | TÉCNICA VOCAL: Conceição Nicolau | FIGURINO: Daniela García | COMPOSIÇÃO MUSICAL: Antônio Celso Ribeiro | ILUMINAÇÃO: Ivanir Marcos Avelar | DOCUMENTAÇÃO E VÍDEO: Bruno Viana | PRODUÇÃO: Grupo Oficcina Multimédia | FOTOGRAFIA: Márcia Charnizon | PROJETO GRÁFICO: Lápis Raro Agência de Comunicação.




ENTREVISTA de Ione de Medeiros com Ione de Medeiros.

Lendo o programa de “Alicinações”, vejo que você dá uma “explicação” sobre a escolha de Joyce. Por que explicá-la no final da trilogia?

Acho que em 1989, quando optamos por Joyce, não tínhamos a dimensão de sua obra. Estávamos começando. No terceiro espetáculo da trilogia, depois de um contato intensivo e ininterrupto com a obra desse autor, confirmava-se o que escrevi no programa: “... uma mesma paixão pela linguagem, pela liberdade do fazer/refazer/transformar, inventando compulsivamente, expandindo cada vez mais nosso potencial criador”. Essa constatação foi-se consolidando no próprio processo das montagens.


Mas por que era preciso explicar essa escolha?
Porque sempre nos cobravam a escolha de autores nacionais. Descobri que o que mais me atraiu em Joyce foi a sua obsessão pela palavra – tudo em sua obra era pretexto para sua escrita. Isso se adequava à nossa busca por uma linguagem cênica, na época pouco divulgada, e que nos demandava uma enorme dedicação.

E quem gostava de Joyce como reagiu a essa trilogia cênica?
Alguns esperavam encontrar os personagens de Joyce nos nossos trabalhos ou algo particular da Irlanda. Outros achavam que nossos espetáculos não tinham nada a ver com Joyce; outros os admiravam, reconhecendo os riscos. Estes percebiam também nossas afinidades eletivas com esse autor.

E vocês? Como reagiam?
Não é possível ficar indiferente às críticas... e também aos elogios. Em 1992 apresentamos Alicinações no Festival de Teatro de Oriente y Paises Ibero-Americanos em Barcelona (Venezuela). A estética desse espetáculo aproxima-se de uma abstração geométrica, supostamente bem diferente da “ginga brasileira”. No entanto, os venezuelanos confirmaram que a movimentação dos atores e a criatividade dos brasileiros nos tornavam inconfundíveis. Isso me deixou muito feliz. Não precisamos do estereótipo para expressar nossas idiossincrasias.

O que marca esse espetáculo e o final da trilogia?
A partir de Alicinações começamos a quebrar as fronteiras estéticas com a geometria cênica, e essa ruptura se refletiu nas montagens posteriores. Foi também a primeira vez que assinei o figurino. A partir de uma pesquisa feita em brechós substitui as roupas que tinham sido criadas para o espetáculo. É também em Alicinações que a atriz-bailarina Mônica Ribeiro passa a atuar como assistente de direção. Ela entrou no Grupo em 1986 e fez Domingo de Sol. Inicialmente assumiu o trabalho coreográfico das montagens e depois começou a contribuir na própria estruturação interna do Grupo, coordenando a pesquisa de movimentos e a preparação corporal de nosso elenco. Mônica saiu do Grupo em 1994, mas continua assinando a coordenação da preparação corporal e prestou assessoria na criação do movimento cênico em Bê-a-bá BRASIL (2007). Depois do final da trilogia ainda mantivemos Joyce no título dos espetáculos seguintes, Bom Dia Missislifi (1993) e mais tarde BaBACHdalghara (1995), cuja temática também foi inspirada na palavra “trovão”, da obra Finnegans Wake. E em 2000 fiz a adaptação do monólogo de Molly Bloom, personagem feminino de Ulisses, também de James Joyce, para o espetáculo Querida Molly, de Mônica Ribeiro.


GRUPO OFICCINA MULTIMÉDIA

"O Grupo Oficcina Multimédia pertence a Fundação de Educação Artística desde 1977 quando foi criado pelo compositor argentino Rufo Herrera no Curso de Arte Integrada do IX Festival de Inverno da UFMG. A partir de 1983, sob a direção de Ione de Medeiros, o Grupo mantém um permanente trabalho de corpo, voz, rítmica corporal, improvisação e pesquisa de material cênico, no processo de elaboração de seus espetáculos. O Grupo Oficcina Multimédia tem no seu currículo a marca de um constante vínculo com importantes eventos culturais nacionais e internacionais, nos quais o Grupo Oficcina Multimédia se apresentou com diversos espetáculos. Como extensão destas atividades foi criado o Curso de Teatro, um trabalho freqüente de preparação para os interessados nesta proposta."




* O livro "Grupo Oficcina Multimédia - 30 anos de integração das artes no teatro" apresenta informações sobre os processos de montagem de dezoito peças realizadas pelo GOM, além de curiosidades, fotos, comentários e críticas sobre suas apresentações nacionais e internacionais.

Com apoio da Fundação de Educação Artística e patrocínio do Fundo Estadual de Cultura de Minas Gerais e do Fundo de Projetos Culturais da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, a edição tem coordenação editorial, pesquisa e redação da diretora Ione de Medeiros. O projeto gráfico é de Adriana Peliano.


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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”