12 December 2015

ALICE NO CINEMA: Uma recriação de Jan Švankmajer


Dirce Waltrick do Amarante*


Alice, de Jan Švankmajer  


No final de Alice no País das Maravilhas, do escritor inglês Lewis Carroll (1832 - 1898), a irmã mais velha de Alice imagina como será aquela menininha depois de crescida e se pergunta se ela ainda guardará da infância a imaginação fantasiosa:

"Por fim, imaginou como seria essa mesma irmãzinha quando, no futuro, fosse uma mulher adulta; e como conservaria, em seus anos maduros, o coração simples e amoroso de sua infância; e como iria reunir outras criancinhas à sua volta e tornar os olhos delas brilhantes e impacientes com muitas histórias estranhas, talvez até com o sonho do País das Maravilhas de tantos tempos atrás; e como iria sofrer com todas as suas mágoas simples dessas crianças, e encontrar prazer em todas as alegrias simples delas, lembrando sua própria vida de criança, e os dias felizes de verão" (CARROLL, 2009, p.149).


O filósofo alemão Walter Benjamin afirma, todavia, que resgatar o passado por inteiro é tarefa impossível. Segundo Benjamin (1995, p.105), o passado vem sempre envolto na “poeira de nossas moradas demolidas” e influenciado pelas nossas experiências posteriores. O passado só consegue sobreviver, portanto, como ficção, como adaptação dele mesmo. Sendo que a adaptação, como afirma a estudiosa canadense Linda Hutcheon, é sempre “uma repetição, porém sem replicação, unindo o conforto do ritual e do reconhecimento com o prazer da surpresa e da novidade. Como adaptação, ela envolve memória e mudança, persistência e variação” (HUTCHEON, 2011, p. 229-230).

Talvez Alice, se a considerarmos agora uma pessoa real, nunca mais contará seu sonho da mesma forma, como supôs a sua irmã, porém não devemos apressadamente concluir que, por causa disso, o seu “novo” sonho não terá valor. O “novo” sonho será uma adaptação do primeiro, e essa adaptação não deverá seu “sucesso” à fidelidade ao texto original.

Além disso, quem poderá nos garantir que a história narrada oralmente por Lewis Carroll, durante um passeio de barco com Alice Liddell e suas irmãs, é exatamente aquela história improvisada que ele posteriormente decidiu passar para o papel e que agora nós lemos como um dos clássicos da literatura de língua inglesa?

Alice no País das Maravilhas ganhou muitas adaptações (muitas traduções, eu diria) ao longo dos anos, desde adaptações “simplificadas” para crianças -- como se o livro não tivesse sido escrito a pedido de uma criança, a própria Alice Liddell -- até versões muito mais enigmáticas e soturnas do que próprio livro, como é o caso da versão para o cinema do cineasta tcheco Jan Švankmajer (1934 -), Alice, de 1989.

Em Alice, Jan Švankmajer combinou técnicas de animação com a atuação de uma atriz mirim, Kristyna Kohoutova, o que, num primeiro momento, pode levar o espectador a associar o filme diretamente com o público infantil. Esse, porém, não é o caso da adaptação cinematográfica de Švankmajer  que, do enredo original de Carroll, ressaltou o seu aspecto onírico explorando o que nele tem de mais sombrio e apavorante. O filme do diretor tcheco assume, assim, características de verdadeiro pesadelo e adentra, muitas vezes, o gótico e o grotesco.

No filme de Švankmajer  Alice não é mais uma inocente garotinha (tal como ela foi retratada originalmente por John Tenniel), que se vê de repente sozinha num mundo do qual desconhece as regras mais elementares de convivência social. Na adaptação tcheca para o cinema, que entendo aqui como um tipo de tradução de uma mídia (a página) para outra (a tela), Alice é um ser enigmático e se revela, aos poucos, tão ou mais apavorante do que os outros personagens desse estranho País das Maravilhas.

Alice, de Jan Švankmajer  

Alice, de Jan Švankmajer  

Outro personagem conhecido de Alice no País das Maravilhas é o Coelho Branco, que na versão original parece mais assustado – sempre com receio de chegar atrasado ou de fazer algo que mereça punição – do que assustador:

"Era o Coelho Branco caminhando de volta, devagar, olhando ansioso para todos os lados como se tivesse perdido alguma coisa; e ela o ouviu murmurar consigo mesmo: ‘A Duquesa! A Duquesa! Oh, minhas patas queridas! Oh, meu pelo e meus bigodes! Vai mandar me executar, tão certo quanto doninhas são doninhas!" (CARROLL, 2009, p. 43).

No filme de Švankmajer  contudo, o Coelho Branco é tão ameaçador quanto a Rainha de Copas, e está sempre carregando facas, tesouras, alfinetes. Nesse pesadelo tcheco, que certamente paga tributo a Franz Kafka, o espectador não encontra nenhum momento de conforto, ao contrário do que acontece com o leitor de Alice, de Carroll, que sempre tem motivos para sorrir, mesmo quando ele se depara com personagens absolutamente agressivos, como é o Grifo, a Lagarta etc. No nonsense de Carroll, opina Jean-Jacques Lecercle (1994, p. 100), a preocupação com o agon é exagerada demais para ser sincera. Desse modo, não conseguimos levar totalmente a sério os xingamentos dos personagens do escritor inglês.

Coelho Branco, Alice de Jan Švankmajer  

O leitor de Carroll encontrará, em suma, passagens leves e engraçadas, repletas de arbitrariedades. No capítulo 3, “Uma corrida em comitê e uma história comprida”, por exemplo, algumas aves e outros bichos se espalharam por uma pista de corrida e começaram a correr quando bem entenderam, de modo que não foi fácil saber quando a corrida havia terminado. Contudo, quando estavam correndo já havia uma meia hora, e completamente secos de novo, o Dodô de repente anunciou: ‘A corrida terminou!’ e todos se juntaram em torno dele, perguntando esbaforidos: ‘Mas quem ganhou? (CARROLL, 2009, p. 36).

Poder-se-ia dizer, talvez, que o filme de Švankmajer está muito mais próximo da estética “absurda” do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989), sem excluir algumas pitadas estratégicas de Kafka, do que propriamente do nonsense inglês de Lewis Carroll, muito mais ameno e poético.

Roland Barthes afirma que a dramaturgia de meados do século XX, na França, em especial aquela que foi chamada de “teatro do absurdo”, e da qual Beckett era um dos pilares, “tende, não a contestar a pessoa humana, mas, o que talvez seja mais incômodo, a fazer como se ela não existisse” (BARTHES, 2007, p. 301). Carroll não contestava a pessoa humana, contestava apenas que essa pessoa tivesse uma ideia imutável sobre ela mesma, uma vez que Alice está sempre em transformação. Quando a Lagarta pergunta a Alice quem ela é, ouve a seguinte resposta: “Eu... eu mal sei, Sir, neste exato momento... pelo menos sei o que eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então” (CARROLL, 2009, p. 55).

Enquanto Carroll faz Alice diminuir e crescer, ou seja, modificar-se, Švankmajer faz a personagem desaparecer, restando dela, muitas vezes, só uma boca sem rosto, a qual narra a história, numa cena muito semelhante à boca que “atua” na peça Not I (1972), de Samuel Beckett. A Alice de Švankmajer não mais dialoga com personagens “impossíveis”, mas mergulha num interminável monólogo sombrio que nos leva a pensar numa desesperada solidão, própria dos personagens beckettianos.


Alice, Jan Svankmajer


A complexa “tradução” de Švankmajer não parece ter levado em conta um público específico. O filme do cineasta tcheco não “estica e encolhe” com tanta facilidade quanto o livro de Carroll, que fascina leitores das mais variadas idades. Contudo, Švankmajer não parece preocupado com um receptor ideal, a qual caracterizaria, segundo Walter Benjamin, a intenção de toda má obra, seja ela uma tradução convencional ou, como neste caso, antes de tudo um diálogo entre duas mídias:

"Nunca, levar em consideração o receptor de uma obra de arte ou de uma forma artística revela-se fecundo para o seu conhecimento. Não apenas o fato de estabelecer uma relação com determinado público ou seus representantes constitui um desvio; o próprio conceito de receptor ‘ideal’ é nefasto em quaisquer indagações de caráter estético, porque estas devem pressupor unicamente a existência e a essência de um homem em geral" (BENJAMIN, 2010, p. 203).

Em sua adaptação de Alice, Švankmajer adota uma estética pessoal e dialoga com os conceitos de grotesco, de horror e de surrealismo... Sua adaptação, portanto, não pode ser comparada a outras da Disney, nem mesmo à recente adaptação de Tim Burton, cujo mestre, no entanto, é Edward Gorey (1925-2000), discípulo de Carroll e Edward Lear, os pais do nonsense inglês.

As adaptações da Disney têm um público específico, as crianças, e fala para esse público específico como todo filme comercial. Além disso, as versões da Disney, principalmente a de Tim Burton, enfatizam os momentos de ação e redundam na aventura eletrizante, e, desse modo, visam acima de tudo satisfazer a um tipo estereotipado de espectador. Esses diretores aparentemente compartilharam os princípios elucidados por Erwin Panofsky, em destaque o simples prazer “de as coisas parecerem mover-se, não importa que coisas fossem” (LECERCLE, 1994, p. 345).

Se nos filmes da Disney sobra movimento e aventura, reduz-se neles o conteúdo estético. No filme de Švankmajer  os poucos movimentos e, em decorrência, as poucas ações nos conduzem, graças à sua elaborada linguagem, a uma atmosfera claustrofóbica, como se estivéssemos caindo na estreita toca do coelho ou trancados para sempre na casa do Coelho Branco.


Referências

CARROLL, Lewis. Alice. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

BARTHES, Roland. Escritos sobre teatro. Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: obras escolhidas. Volume II. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1995.

BENJAMIN, Walter. “A tarefa do tradutor”. Tradução de Susana Kampff Lages. In HEIDERMANN, Werner. Clássico da teoria da tradução. Florianópolis: UFSC/ Núcleo de Pesquisa em Literatura e Tradução, 2010, p. 203.

HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução de André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011.

LECERCLE, Jean-Jacques. Philosophy of nonsense. Londres: Routledge, 1994.

SVANKMAJER, Jan. Alice. Magnus Opus, 2007. DVD

* Professora da Universidade Federal de Santa Catarina. Autora, entre outros de James Joyce e seus tradutores (Iluminuras). Traduziu uma adaptação clássica de 1903 de Alice no País das Maravilhas (Rafael Copetti Editor), de Lewis Carroll.

E-mail: dwa@matrix.com.br


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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”