31 August 2009

A recepção crítica à Alice

Maria José Batista de Lima
The critical reception to the Book 'Alice in Wonderland' after the adaptation by Monteiro Lobato.

A study made about Alice, adapted by Monteiro Lobato in 1960. The objective is to organize chronologically studies dedicated to the Brazilian versions of this adaptation.


A recepção crítica à obra "Alice no País das Maravilhas", após a adaptação de Monteiro Lobato

Este trabalho se propõe compartilhar um estudo realizado sobre a obra Alice no país das maravilhas, adaptada por Monteiro Lobato, em 1960. O objetivo é organizar cronologicamente estudos dedicados às versões brasileiras desta adaptação. A metodologia adotada foi a pesquisa bibliográfica; que voltou-se para as produções sobre literatura Infanto-Juvenil (Coelho, 1991; Lajolo e Zilberman, 1991), assim como para outras versões desta obra. Para tanto, realizou-se levantamento acerca do tema, mapeando as pesquisas realizadas no Brasil, tendo por objeto a obra de adaptação de Lobato. Trata-se de um trabalho (ainda em desenvolvimento) que cobre a recepção crítica sobre Alice no país das maravilhas que surgiram no Brasil, em especial, após a adaptação efetivada por Monteiro Lobato, cuja obra marca um novo momento na literatura Infanto-Juvenil brasileira.


A partir da adaptação que Monteiro Lobato fez do Alice no País dasMaravilhas, nos anos 20, esta pesquisa tem como enfoque o levantamento e a compilação das versões dessa obras surgidas posteriormente no Brasil. Para tanto, foram escolhidos três trabalhos para análise: o primeiro, Leituras de Alice no país das maravilhas: entre o texto original e algumas versões, Lenir Fátima de Castro (2006); o segundo, Duas personagens em uma Emília nas traduções de Monteiro Lobato, Gustavo Máximo (2004); o terceiro, Os tradutores de Alice e seus propósitos, Flávia Westphalen et al (2001). O objetivo é mostrar como os pesquisadores recepcionam, após a adaptação de Lobato, as novas versões publicadas no Brasil de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.

Esta obra é considerada um clássico da literatura universal, produzida em 1865, pelo escritor inglês Lewis Carroll, cujo fundamento é o realismo mágico: o fantástico, o irreal se fundem com o mundo real concreto. Alice, personagem protagonista da narrativa, vive as aventuras mais absurdas num espaço onírico. Neste universo maravilhoso, as personagens que encontra são animais personificados, objetos com forma humana, cartas de baralhos com cabeça, mãos e pernas, enfim, são seres fantásticos. O encontro com esses personagens encantadores motivam diálogos e situações que se caracterizam pelo nonsense. A narrativa apresenta uma lógica invertida, às avessas, construída a partir da subversão das formas lingüísticas em que o humor tem presença marcante e constante, como no capítulo em que Alice encontra com a Tartaruga Falsa:

“A TARTARUGA FALSA deu um profundo suspiro, passando uma pata pelos olhos. Depois voltou-se para a menina e tentou falar, mas os suspiros embargavam-lhe a voz.
- Parece que você tem um osso atravessado na garganta! Observou o Grifo dando-lhe alguns murros nas costas. A tartaruga finalmente recuperou a voz e continuou...”
(LOBATO, p. 115)

Tradutores, como Monteiro Lobato, preocuparam-se em criar uma nova identificação, ambientando a personagem Alice em um contexto mais brasileiro, priorizando elementos da cultura nacional. Isso reflete o cuidado do tradutor, que é ao mesmo tempo autor, em adaptar a obra idealizando o público ao qual se dirige.

Em contrapartida, há muitas versões que têm por objetivo simplesmente os fins comerciais, chegam até as crianças de forma simplificada, assim perdem muito da sutileza e graça originais, como aponta Lenir Castro (2006). Nesse sentido, a obra fica comprometida, pois estas versões não recuperam totalmente a riqueza: o elemento maravilhoso da narrativa, aquilo que irrompe subitamente no mundo real, algo mágico ou absurdo que, de repente, se manifesta em meio ao universo cotidiano. Assim como o nonsense: as situações absurdas e sem-sentido, nessas versões que apresentam apenas cinco ou seis páginas não preservam as brincadeiras com a lógica, a impressão de que o mundo está de pernas para ar. Já na tradução de Monteiro Lobato esse convite a um passeio fantástico está presente, como se pode ver no início da narrativa quando um Coelho Branco apareceu no jardim:

“Alice não estranhou aquilo, como também achou muito natural que o coelho murmurasse consigo mesmo: “Como é tarde, mamãe!” Em seguida o coelho puxou do bolso do colete um relógio para ver que horas eram. Isto, sim, Alice estranhou, pois nunca tinha ouvido falar de coelho que usasse colete e relógio..." (LOBATO, p.12)

Lobato teve um cuidado especial com as traduções infantis, pois acreditava que elas deveriam transmitir uma grande história em que seu público, as crianças, pudesse compreendê-la, vivenciá-la e, principalmente, gostasse dela. Conforme pesquisa realizada por Augusto Maximo (2004, p.22), Alice, quando traduzida por Lobato perde a “maquiagem” atribuída por Lewis Carroll, dessa forma passa a ter outro tipo de atitude, que se assemelha as da boneca Emília. Nesse sentido, pode-se constatar que nas versões da obra há inovações, e a personagem protagonista recebe nova caracterização. Esse fenômeno também ocorre com outras versões, como a de Ana Maria Machado.

Máximo (2004), ao analisar o texto original com trechos de Monteiro Lobato e de Ana Maria em um mesmo fragmento, aponta que tanto Lobato quanto Machado se propõem a apresentar a tradução de formas bem definidas, isto é, cada tradutor respeitando devidamente a época. A Alice de Carroll é mais gentil, pacienciosa e inocente; já Alice de Lobato é meio sem paciência, não pergunta, mas denuncia, num gesto típico da boneca Emília. Lobato procura incansavelmente levar à criança uma literatura que tem a ver com sua realidade, com uma linguagem de criança. É possível observar isso no fragmento (da obra de Lobato) que segue:

“Oh, exclamou, que pena a gente não ser como os óculos de alcance, que se espicham vontade! Se eu pudesse espichar-me, como óculos de alcance ou bala puxa-puxa, iria, já e já, ver aquele jardim tão lindo”. (LOBATO, 1960, p.18)

Nesta parte da narrativa, Lobato mostra claramente a sua intenção para tornar o texto mais próximo do leitor infantil “bala puxa-puxa”, “espicham à vontade”, “já e já”. Segundo pesquisas realizadas, trata-se de uma escolha legítima de aproximar a tradução ao seu público infantil: uma Alice puramente brasileira. Nesta perspectiva, nota-se que Lobato procura levar essa Alice à criança, uma personagem que foi transfigurada e adequada à realidade brasileira, mas tratada com uma linguagem de criança, que lhe apresenta um mundo mágico. Para tanto, faz uso de uma linguagem flexível que permita à criança alcançar a própria maturidade de maneira gradativa e crítica, possibilitando- a questionar por meio da experiência com a leitura.

Flávia Westphalen afirma que cada uma das traduções examinadas por ela, possui diferenças no que diz respeito à comunidade interpretativa a que se dirige e à maneira como tais comunidades foram idealizadas pelos tradutores. A pesquisadora faz uma comparação entre as traduções de Monteiro Lobato e Nicolau Sevcenko, observando que ambas se dirigem a grupos semelhantes de leitores infantis e infanto-juvenis, mesmo sendo apresentadas como “tradução e adaptação”, os textos deles se diferem mais pelas estratégias e pelos propósitos da tradução do que pelo o público-alvo a que se destinam.

Westphalen comenta sobre a versão Sevcenko: “Nicolau Sevcenko parece ter mais objetivo, facilitar a leitura e tornar o texto acessível aos leitores através de uma aproximação aos costumes brasileiros – ou seja, modifica alguns elementos do texto-fonte para poder situar Alice no mundo do leitor brasileiro, sem promover cortes e alterações drásticas.” (WESTPHALEN, 2001)

Monteiro Lobato vai além, “insere elementos da cultura nacional, criando um ambiente brasileiro”, como Alice brasileira, que recita poemas clássicos de nossa literatura e tem amigas com os nomes de Cléu e Zuleica (WESTPHALEN,.2001). Nesta pesquisa, Westphalen aponta uma recente tradução de Maria Luiza de Borges afirmando ser coerente com os propósitos de uma edição anotada e comentada da obra de Carroll, mais explicitamente destinada ao publico adulto, com especial interesse nos desdobramentos e na intertextualidade resultante da recepção erudita e contemporânea das aventuras estéticas e filosóficas de Alice, trazendo notas extensas que tratam de questões complexas relacionadas à teorizações de físicos, matemáticos e pensadores, que a princípio não interessariam e nem seriam plenamente compreendidas pelas crianças.

Citando ainda outra tradução, a de Rosaura Eichenberg, até mesmo por se tratar de uma edição de bolso, pareceu ser destinada a um público abrangente e variado, encontrando-se em um meio termo, sem se dirigir especificamente a um público infantil ou adulto. Isso é percebido até mesmo no questionamento presente na contracapa, que diz “O mais estranho e fascinante livro para crianças (só para crianças?)”. Interessantemente, observa-se bastante isomorfismo nas escolhas destas duas recentes traduções.

Ao finalizar este artigo, na tentativa de analisar a recepção crítica da obra Alice no país das maravilhas, constatou-se que em alguns trabalhos, a exemplo de Augusto Máximo, os pesquisadores têm apontado o fenômeno da descaracterização de Alice, uma vez que mudaram o enfoque da personagem do texto original, dado que segundo o resultado de estudos, está enfaticamente presente em boa parte das traduções brasileiras.

Esta pesquisa ateve-se a apresentar apenas a recepção em relação às traduções e/ou adaptações desses pesquisadores apontados, entretanto, foram levantadas outras questões, tais como “quais propósitos tem o tradutor/adaptador” e “quais são os possíveis leitores da obra” a busca de respostas a tais questões não compete a este trabalho, todavia compete-lhe explicitar as questões que dele emergiram. É possível afirmar que há diferenças de tradução que deveriam ser estudadas. Assim, não há intenção alguma esgotar aqui a pesquisa, pois acredita-se que há outras possibilidades, estabelecendo-se novos parâmetros para compreender melhor a recepção destas obras pelos pesquisadores da literatura infantil e infanto-juvenil.

Referências Bibliográficas

CASTRO, L.F. Leituras de Alice no país das maravilhas: entre o texto original e algumas versões. In: III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil do Oeste paulista, Presidente Prudente: UNESP, 2006.
COELHO, N. N. Panorama histórico da literatura infanto/juvenil. São Paulo: Ática, 1991. 285 p.
LAJOLLO, M.; ZILBERMAN, R. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1991. 190 p.
LAJOLLO, M. Um brasileiro sob medida moderna. São Paulo: Moderna, 2000, 1ª Ed.
MÁXIMO, G. Duas personagens em uma Emília nas traduções de Monteiro Lobato. Campinas: Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Estudos da Linguagem: [s.n.], 2004. Dissertação (mestrado).
WESTPHALEN, Flávia et al. Os tradutores de Alice e seus propósitos. In: Cadernos de Tradução. Florianópolis: NUT, 2001, v. 2, n. 8, p. 121-144

Ilustrações de Hans Brower.

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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”