27 March 2013

ALICE POR ENQUANTO


Adriana Peliano

Jan Svankmajer

John Tenniel


Num enerdia de verão, aos 7 anos de idade, olhei através do espelho de Alice. Encontrei uma menina enigmágica que logo me perguntou: Quem é você? Ela não aceitou meu nome como resposta: assim é como você é chamada, retrucou. De súbito nossos espelhos se refletiram entre as curvas do espaço-tempo como um myse en abyme. Naquele instante perdi meu nome no espelho. Hoje busco novas Alices em aventuras labirínticas atravessando múltiplas artes. Me reinvento em Ali-se e seus tantos nomes que se expandem em uma inesgotável criação de eus: Alis, A lys, Alyssos, Alastos, Allistos, Alussas, Alions, entre outras crises e devires: reino das alicinações.




Kenneth Rougeau


Com Alices reviajo no país dos espelhos por caminhos espiralados e mergulho numa floresta misteriosa onde se perde e se encontra essa menina rompiecabezas,  plurilíngua, borboletra alicenógena, proliflora desejos em casulos oníricos, fantasmagorias deliram psicodelícias. Amaravilhas. Vislumbro um rio de florosofias errantes, espelhos líquidos, clepsidras lúdicas, Lúcia no céu com diamantes. Sonhos de Escher dançam geometrias impossíveis. Cabelos revoam anéis de Moebius.




Trevor Brown


Aliceoscópios são uma singular criação catóptrica, uma arte de conceber engenhos especulares que criam visões insólitas, perspectivas paradoxais, geografias exdruxulistas, cartografias escalafobéticas. Num golpe de máquina o espelho mutante de Alice viaja através de tempos loucos e sonhos quânticos em uma inesgotável “sede do infinito”. Sua experimentação exige constante movimento, um amor pelo estranho e indomesticável, libertando armadilhas do conhecido. Alikezan! Alices extrapolam saberes cômodos e estagnados e vão viver novas aventuras desafiando fontes de desejos e desfiando teias e constelações em novos feixes de fabulações. CURIOUSER and curiouser! Estou me esticando agora como o maior telescópio jamais visto. Adeus pés!


René Magritte


Surrealices nos convidam a atravessar os espelhos de Magritte, janelas para o invisível, sonhos dentro de sonhos, inclassificáveis confabulando atrás dos pensamentos. Nos ‘livros de Próspero’ de Peter Greenaway, um dos vinte e quatro livros é composto por páginas de diferentes espécies de espelhos. Cada página produz um reflexo metamórfico devolvendo inesgotáveis imagens de Alices quem somos. Sua leitura se faz nascente de fluxos cósmicos de criação de sentidos, mágica pulsante de investigação de si-m. Monstros do espelho, uni-vos!



Michele Lapointe


Alice foi a heroína vitoriana de um estrambólico e feraz livro de histórias infantis. Viajou para a Disneylândia e foi capturada em ondas de colonização de sonhos. Mergulhou em habit roles e num fluxo rebelde, irradiou wanderlands. Hoje respira novos artes em jogos de ser o não ser. Eu... eu... nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento ... eu ... enfim, ei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.







Em diferentes encarnações novas Alices não buscam reproduzir em imagens o que está escrito nos livros, mas de viajar em suas veias e teias, entre mergulhos, travessias e cogumelias. Inúmeras alicinações podem ser criadas desvairando em paradoxos, línguas inventadas, desejos nômades, metamorfoses sem cabeças, sonhos dentro de sonhos, caminhos erráticos, risos loucos pairando no ar, desloucamentes. Ao invés da pergunta: quem é Alice, hoje desdobram caminhos para quem Alice pode tornar-se...





Adriana Peliano


Na travessia dos mil anos o espelho de Alice explodiu em milhares de pedaços, proliferando no imaginário coletivo novas meta-alices numa ampulheta magicósmica, aliceoscópio de alicinações. Nesse universo de mundos possíveis, procuram-se artistas movidos pelo desejo de rebelar os modelos alienados da menina e suas viagens cem sentidos. Hoje extrapolam Alices que entorpecem a imaginação e se desdobram em estereótipos que aprisionam e banalidades que insistem em empobrecer a vida e a arte. Em suas desventuras, exércitos de Alices bebem da garrafa escrito “clichês”. Mas Alice had got so much into the way of expecting nothing but out-of-the-way things to happen, that it seemed quite dull and stupid for life to go on in the common way.”



Elena Kalis


O país das maravilhas e o país do espelho podem estimular o encontro com o desconhecido, a incerteza e o mistério. Jardins de alicismos buscam o que é inexprimível pela palavra, o invisível, jorrando possibilidades inesgotáveis que habitam nas margens e entrelinhas. Menina caleidoscópio, jogo de reflexos múltiplos e simultâneos, fragmentos que cruzam monstrologias e alimentam nossos rios, riscos e risos. Alice nos convida a mergulharmos no poço profundo e atravessar o espelho desafiando as loucuras que nos atravessam. Como escreveu Paulo Mendes Campos em carta para sua filha Maria da Graça: Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.





 Yayoi Kusama


“As aventuras de Alice dentro da toca do coelho ou através do espelho encoraja a procurarmos outras brechas para penetrarmos no maravilhoso.” 



Pierre Mabille




Frédéric  Delanglade


"O artista terá, tal como Alice no país das maravilhas, que atravessar o espelho da retina para alcançar uma dimensão mais profunda."


Marcel Duchamp 






Alain Gauthier






"Com a prudência que lhe confere a sua inteligência matemática e o seu sentido de humor Lewis Carroll escolheu a barca do sonho para atravessar mais confortavelmente o espelho dos olhos de Alice."



Frédéric Delanglade







Margarita Prachatika



“lewis carroll olhou através do espelho e encontrou uma espécie de espaço-tempo que é o modo normal do homem eletrônico. antes de einstein, carroll já havia penetrado o universo ultrassofisticado da relatividade. cada momento, para carroll, tinha o seu próprio espaço e o seu próprio tempo. Alice cria o seu próprio espaço e tempo."

Marshall Mcluhan  



Hajime Sawatari

"Tudo quanto possuímos de poético e também de absurdo se apresenta nos livros de Alice. Ao descer pela toca do coelho, Alice passa a habitar – como quando atravessa o espelho – um pais diferente do conhecido, como quando fechamos os olhos e nos percorremos. As surpresas despontam de todos os lados. Quem somos, afinal?"

Cecília Meirelles





Alice por enquanto é o mergulho e a travessia. 
Viajante da coleção de eus da especialice Adriana Peliano. Menina Sonho.

Adriana Peliano é uma Alice de renascimento, Rainha e fundadora da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, que ainda não sabe quem é Alice e por isso não se cansa de alicinar em suas buscas cosmicômicas. 




artigo publicado originalmente no site FORA DE MIM.

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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”