4 September 2010

As reinações de Alice e as aventuras de Lúcia



"Reinações de Narizinho". Ilustração de Manoel Victor filho.




Lúcia and Alice travel in a boat by the river. They talk about their adventures in the novels "The Adventures of Alice in Wonderland" (England, 1865), "Through the Looking glass and what Alice found there" (England, 1872) and "Romps of Little nose" (Brazil, 1931). Lúcia is "little nose", the character of the first Brazilian book for children. It was written in the same year of the first translation of "Alice in Wonderland" to Portuguese, both by the writer Monteiro Lobato. The stories present several curious connections.

left: Nasino (italian edition of A menina do Nazinho arrebitado "The girl of the snub nose"). illustrated by Vicenzo Nicoletti, 1954.


right: Alice in wonderland, illustrated by Rene Cloake, 1945.







FIG1B
Colagem de Adriana Peliano sobre a Narizinho de Voltolino (1920) e a Alice de John Tenniel (1865).



AS REINAÇÕES DE ALICE E AS AVENTURAS DE LÚCIA.

Adriana Peliano (1)


Lúcia e Alice passeavam de barco num ribeirão que ligava o Sítio do Picapau Amarelo ao País das Maravilhas. As amigas se reuniam depois de muito tempo distantes e logo começaram a trocar confidências e figurinhas. O assunto predileto das duas eram suas próprias aventuras, cada qual uma fã incondicional das histórias da outra. Alice no País das Maravilhas era o livro predileto de Narizinho. Alice, por sua vez, falava português muito bem, pois já tinha sido traduzida e publicada no Brasil pela primeira vez pelo próprio Monteiro Lobato (2), além de ter visitado o Sítio do Picapau Amarelo em mais de uma história do autor. (3)

Era uma tarde dourada e o azul do céu sem nuvens se mirava no espelho das águas que fluíam lentamente enquanto o barco deslizava rio abaixo, num fluxo de brincadeiras, memórias e revelações. O barco, vindo do Reino das Águas Claras, era encantado e gracioso e a viagem era embalada por lindas canções executadas por um músico da côrte do príncipe escamado. – Deve ter sido em uma tarde como essa que Lewis Carroll contou a minha história pela primeira vez para Alice Liddell e suas irmãs, naquele memorável passeio de barco em Oxford, na época vitoriana. E foi nas margens desse riacho em que navegamos, lá perto do Sítio do Picapau Amarelo, que começaram as suas Reinações, não foi mesmo Lúcia?

- Foi sim. Logo no início do livro que Lobato dedicou a mim, Reinações de Narizinho (4), depois de dar comida aos peixinhos, senti os olhos pesados de sono. Me deitei na grama com a minha boneca no braço e fiquei seguindo as nuvens que passeavam pelo céu, formando ora castelos, ora caramelos. E já ia dormindo, embalada pelo mexerico das águas, quando senti cócegas no rosto. Arregalei os olhos e vi um peixinho vestido de gente em pé na ponta de meu nariz. Vestido de gente, sim! Trazia casaco vermelho, cartola na cabeça e guarda chuva na mão, a maior das galantezas. Depois descobriríamos que o peixinho também usava um relógio. Em seguida pousou no meu rosto um besouro também vestido de gente, trajando sobrecasaca preta, óculos e bengala. Achei tudo aquilo tão interessante! (5)


Jean G. Villin em Reinações de Narizinho, 1931.



- A minha história começou de um jeito parecido. Eu estava com minha irmã na margem do rio e já estava começando a me aborrecer de ficar sentada sem nada para fazer. Dava uma ou outra espiada no livro que ela estava lendo, mas implicava: "De que serve um livro sem figuras nem diálogos?" Cheia de preguiça, por causa do calor do dia, eu me perguntava se o prazer de fazer um colar de margaridas valeria o esforço de me levantar e colher as flores, quando de repente um Coelho Branco de olhos rosados passou correndo junto de mim. Nada havia de muito estranho naquilo. Nem achei assim tão esquisito quando ouvi o Coelho dizer para si mesmo: – Oh, meu Deus! Como estou atrasado! Mas, quando ele tirou um relógio do bolso do colete, olhou as horas e correu apressado, eu me levantei, dando-me conta de que nunca antes havia visto um coelho nem com colete e nem com um relógio no bolso. Ardendo de curiosidade, segui correndo o coelho campo a fora, a tempo de vê-lo penetrar numa grande toca debaixo da cerca.
(6)


A.L. Bowley (1921) em Alice no País das Maravilhas.


Narizinho achou graça. – O engraçado é que o peixinho e o besouro pousaram no meu rosto e encrencaram logo com o meu nariz, pensando que ele fosse também uma espécie de toca de alguma besta fera. Logo eu, com o apelido de Narizinho, virei logo um narigão, numa brincadeira divertida com a relatividade do tamanho. Um pouco depois ficamos amigos e eu saí com o peixinho, que descobri ser um nobre príncipe e de quem eu ficaria noiva tempos depois, até que chegamos a uma gruta misteriosa que era a entrada para o maravilhoso Reino das Águas Claras. Dei uma espiada, com medo de entrar, e quase desisti, pois Emília, minha boneca, era muito medrosa. Mas o peixinho tirou do bolso um vaga lume que lhe servia de lanterna viva. A gruta clareou até que a boneca perdeu o medo. Entramos e pelo caminho fomos saudados por várias corujas e morcegos. Minutos depois chegamos ao portão do Reino, nossa, era tão maravilhoso, que até parecia um sonho.


Voltolino em Narizinho Arrebitado (1920).


Alice rapidamente interferiu na história muito entusiasmada: - Essas tocas todas são verdadeiros portais de passagem para outros mundos, não é Lúcia? Isso tudo é tão emocionante!

- Verdade, pela toca viajamos para outros reinos, mas e como voltamos de lá? É bom lembrar que no meu primeiríssimo livro, A menina do Narizinho Arrebitado (7), minha aventura no Reino das Águas Claras só terminava quando eu acordava. O leitor ficava então sabendo que ‘tudo não tinha passado de um lindo sonho’. Já nas minhas Reinações, quando aquela primeira história foi reescrita e aumentada, eu volto do mundo maravilhoso para o Sítio por uma ventania muito forte, que me arrasta junto com a Emília do fundo do oceano para a beira do ribeirãozinho do pomar. Foi assim que retornamos ao Sítio do Picapau Amarelo dessa vez. Lobato mudou a história nesse ponto e agora o maravilhoso e o mundo real se misturam na mesma dimensão, não existe mais aquela separação do sono, entende? Ele superou esse dualismo. Acho que foi uma grande ousadia do Lobato.




Jean G. Villin (1931) em Reinações de Narizinho.


Alice ouviu aquilo atentamente, ponderando consigo mesma. Será que se foi tudo um sonho, a história fica mais sem graça? Pensou. Acho que não, nas minhas histórias acordo sempre no final, mas é o próprio Lewis Carroll quem nos pergunta no final do livro do espelho: O que é a vida, senão um sonho? Assim a vida se torna sonho e o sonho se torna vida, não é? Se nas minhas aventuras do outro lado do espelho eu podia ser parte do sonho do Rei Vermelho (8), ficará sempre a dúvida se tudo não passa de um sonho dentro de um sonho e as fronteiras se diluem... E então perguntou para Narizinho: - Mas percebi que em outros momentos nas suas Reinações, você e o pessoal do Sítio (9) viajam pelo mundo das maravilhas abrindo e fechando os olhos. Esse não é exatamente o caminho do Reino dos sonhos? Lembro também que Dona Aranha costurou o seu vestido de noiva com o príncipe encantado com um tecido feito pela fada miragem, cortado com a tesoura da imaginação, costurado com a agulha da fantasia e com que linha? A linha do sonho. A mesma linha que costura o maravilhoso e a realidade. Porque então desprezar o sonho? Carroll não fazia uma separação cartesiana, pelo contrário. É como aquela história do sábio chinês que não sabia se tinha sonhado que era uma borboleta ou se era uma borboleta que sonhava ser um homem...

Narizinho refletiu. - De fato Lewis Carroll também mistura o maravilhoso, o sonho e a realidade. Acima de tudo ele coloca em cheque essas fronteiras. Mas enquanto você viaja para mundos maravilhosos, nos livros de Lobato as criaturas dos reinos maravilhosos vêm ao Sítio e o pessoal do Sítio viajam para outros mundos. Abolem-se as fronteiras. Esses seres encantados chegam até a se mudar para o Sítio... Não mais o sonho, mas o real penetrado pela magia! (10)

– Mudando um pouco de assunto, Alice, acho que o Lobato leu e gostou tanto dos seus livros e seguiu a partir dali abrindo novos caminhos em sua obra infantil. Ele é o fundador da literatura infantil brasileira, sabe? (11) Assim como Lewis Carroll, subverteu o moralismo das histórias infantis de sua época e escreveu livros com muito respeito pela inteligência da criança. Essa idéia de misturar os personagens de diferentes histórias por exemplo, ou de propor viagens entre a realidade e o mundo das maravilhas, acho que Lobato trouxe da leitura de Alice, como de Peter Pan. Mas Alice, enquanto você vai e volta dos mundos maravilhosos só um vez em cada um dos seus livros, nas histórias do Sitio agente vai e volta o tempo todo, visitando várias terras das maravilhas, graças ao famoso pó de pirlimpimpim que o Peter Pan nos deu de presente. Esse pó também é uma espécie de portal mágico, desbravador de pontes entre as histórias e incessantes cruzamentos entre os mundos da imaginação, além de permitir até viagens no tempo! Enquanto você cai naquele poço profuuundo! nós muitas vezes viajamos na velocidade da luz!



O pó de pirlimpimpim (1931).


E essa história de cheirar o pó de pirlimpimpim, Lúcia, ninguém te perturba não? Perguntou Alice. Me lembro que depois de cheirarem o pó vocês se sentiam leves como plumas ou dançarinas num sonho encantado. E boiavam no espaço como bolhas de sabão levadas por um vento de extraordinária rapidez. Outra hora Lobato fala que o efeito do pirlimpimpim parece clorofórmio!!! Lewis Carroll era também interessado em estados alterados da mente, quando o mundo das fadas passa a ser percebido com facilidade. Ele até fez um livro sobre isso, sabe? Se chama “Sílvia e Bruno”. Mas estou cansada de ver gente me perguntar: essa história de comer cogumelo, hein Alice !? Esse Lewis Carroll era um doidão? – Sabe que eu também tenho passado por isso... Retrucou Narizinho. Já me perguntaram até se meu apelido é Narizinho de tanto cheirar pó de Pirlimpimpim, vejam só. Tanto que depois mudaram a história para o seriada de TV, e agente não podia mais cheirar o pó era só falar pirlimpimpim que agente viajava, tiraram o pó.Parece  quequerem cortar nossas cabeças… – É ... Alice, Peter Pan, Pinóquio, Dom Quixote, Robinson Crusoé, Gulliver, Chapeuzinho... Esse Lobato adorava livros de viagens, ele estava sempre “viajando”... E as duas deram boas risadas.



D. R. Sexton em Alice no País das Maravilhas, 1933.






Sítio do picapau amarelo em quadrinhos. 1979.


- O Monteiro Lobato era bem esperto, não é Lúcia? Bebeu das minhas histórias, de Peter Pan, Pinóquio, Gulliver, Dom Quixote, Robinson Crusoé e tantas outras. Você ficou minha amiga, em outra história foi engolida pela Cuca como Chapeuzinho foi engolida pelo lobo, outra hora ficou noiva de um príncipe encantado e teve o seu vestido maravilhoso costurado pela Dona Aranha, costureira de todas as princesas dos contos de fadas... Pedrinho, seu primo, era amigo do Peter Pan e já Emília, sua boneca, era asneirenta como o Pinóquio, e como o boneco, virou gente. Só que Emília não se enquadra como o Pinóquio que fica bonzinho e comportado, Emília é cada vez mais independente e desafiadora. Vocês até criaram um boneco de madeira, o João faz-de-conta, irmão do Pinóquio! Pelo que estou vendo não só os personagens do mundo das maravilhas visitaram o Sítio do Picapau quanto de fato Lobato se alimentou de todas essas fontes e recriou tudo isso em seus livros como num grande rocambole. Pensando bem, ele era um autêntico “historiófago” não é? Um comedor de histórias! (Perguntou Alice, orgulhosa de falar difícil) Narizinho riu e respondeu: sabe o que ele dizia? Quem copia macaqueia, quem imita, recria. E as duas riram de novo.




O irmão de Pinocchio (1929).




Nunca me esqueço que as minhas Reinações e as suas Aventuras viraram livro no Brasil no mesmo ano não é? Em 1931. Lobato não dava ponto sem nó. Pena de papagaio saiu em 1930, no ano em que ele traduziu Peter Pan e tem tudo a ver um livro com o outro, Reinações de Narizinho saiu no ano em que ele traduziu Alice no Pais das Maravilhas e as Novas Reinações de Narizinho, no ano em que ele traduziu Alice através do Espelho, em 1933. Ele até contou no prefácio do Pais Maravilhas, traduzido por ele, que fui eu quem pediu que ele traduzisse as suas histórias, se lembra Alice? - Acho que ele percebeu logo que agente ficaria amiga, não é a toa que tem tanta coisa em comum nos livros da gente, não acha? Retrucou Alice. - Verdade! Nunca conversamos sobre isso direito não é? - Respondeu Narizinho. - Todas as vezes que você foi ao Sitio, em Reinações de Narizinho, Memórias de Emília, em Sitio do Picapau Amarelo e no conto As fadas (12), tinha tanta Reinação correndo solta que tivemos pouco tempo para trocar idéias, completou.























Peter Pan de Monteiro Lobato (1930) | O Picapau Amarelo (1939) | Memórias da Emília (1936)


Outra semelhança que eu vejo em nossas histórias é que Reinações de Narizinho é composto de vários episódios, previamente publicados, compostos em capítulos (13). Essa é outra coisa que eu acho que o Lobato também aprendeu com o Lewis Carroll. - Disse Alice. - Os livros de Alice também são compostos de episódios que foram inventados pouco a pouco. No caso do país das maravilhas, alguns episódios já estavam no manuscrito das Aventuras de Alice no Subterrâneo em 1863 outros só apareceram na publicação da obra completa, em 1865. Ao mesmo tempo, no país do espelho, Carroll desenvolve os capítulos do Humpty Dumpty, dos gêmeos Tweedle Dee e Tweedle Dum e do Leão e o Unicórnio por exemplo, através de referências a jogos e canções infantis conhecidas; enquanto Lobato reuniu em suas histórias personagens de quase todas as origens e mídias existentes na época. Elas são povoadas por figuras de mitos como Hércules, Medusa, Perseu e Minotauro; contos de fadas como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Barba Azul; do cinema e dos desenhos animados como Tom Mix , Mickey Mouse e Gato Felix; de personagens extraídos da cultura popular como o Saci (14), o lobisomem, o curupira (15) e a mula-sem-cabeça (16); do mundo das fábulas como a Cigarra e a Formiga; das mil e uma noites; entre tanto outros. Esses personagens todos questionam as histórias de onde vieram e vêm viver novas aventuras com o pessoal do Sítio. Lewis Carroll primeiro e depois Lobato foram precursores de um tipo de brincadeira que recentemente fez sucesso nas histórias em quadrinhos e no desenho animado Shrek, por exemplo.













esq.: Narizinho e Chapeuzinho. Manuel Victor Filho. | dir.: Shrek forever after (2010).

















O circo de escavalinho (1929), Cara de coruja, Aventuras do príncipe, O Gato Felix, O Noivado de Narizinho (1928).


- Enquanto na sua história Carroll criou o Pais das Maravilhas, nas minhas Reinações, Lobato criou o Mundo das Maravilhas. Ele ampliou o território, entende? Continuou Narizinho. - Ele criou até um mapa desse mundo, onde o Pais das Maravilhas convive com o Sitio do Picapau Amarelo, o mar dos piratas, a terra de Gulliver, o pais das fábulas, e tantos outros reinos maravilhosos. É muito fácil viajar por esses reinos quando se tem imaginação ou o famoso pó de pirlimpimpim.





O mundo das maravilhas
 ilustração do livro Pena de papagaio (1930) 
que iria ser integrado em Reinações de Narizinho (1931).


Você já percebeu que a todo momento agente encontra alguma relação entre as nossas histórias? Perguntou Alice. As histórias em si são bem diferentes, mas aqui e ali agente se depara com muitas semelhanças. Por exemplo: quando você chega com o peixinho no Reino das águas claras, encontra com o major agarra que é uma rã. Quando eu chego na casa da duquesa no país das maravilhas, encontro como o lacaio peixe e o lacaio rã. Na porta do castelo no livro do espelho, Alice também encontra um sapo. Narizinho rebateu: – No reino das águas claras tem uma dança de quadrilha com siris e outros vários animais marinhos, como no capítulo da falsa tartaruga e da quadrilha da lagosta do Pais das Maravilhas. Alice rebateu, num divertido ping-pong de idéias: - No reino do espelho, encontrei uma borboleta de asas de pão com manteiga, a Bread and butterfly, Emília encontra uma borboleta e faz dela um telegrama: um borboletograma, também uma palavra valise, feita com dois significados embrulhados numa palavra só, invenção de Lewis Carroll. Enquanto eu encontro os insetos do espelho, vocês vão visitar o reino das abelhas e a Dona Aranha costureira. – Isso mesmo! – Rebateu Narizinho! - E enquanto você encontra o Gato de Cheshire, nós encontramos o falso Gato Felix. Foi a vez de Alice - Enquanto vocês encontram o pássaro roca, eu encontro o grifo, um outro animal mitológico. - Emília até já visitou as cartas do baralho, o que você também faz no final do seu primeiro livro! - Sem falar em todas as aventuras que não foram contadas nos livros!!! Comentou Alice muito entusiasmada. E continuaram costurando idéias e trocando figurinhas até que terminaram cantando juntas a versão que Lobato fez da cantiga Pirolito que bate, bate (17) e a que Carroll fez de thinkle, thinkle little star (18) .



















esq.: Voltolino em A menina do narizinho arrebitado (1920).
centro.: John Tenniel em Através do espelho e o que alice encontrou lá (1872).
dir.: ohn Tenniel em Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865).


– E não é que você tem razão? Disse Narizinho. Você disse agora pouco que o Lobato era um tipo de “historiófago” mas acho que é um tipo de antropófago também, no sentido que deu um outro escritor brasileiro daquela época, o Oswald de Andrade, que formulou várias idéias modernistas sobre a cultura brasileira. Para ele nossa cultura tinha que devorar o estrangeiro, como um canibal, digerir e assimilar a sua força para então se recriar, incorporando o outro. Lobato criticava uma importação da cultura estrangeira sem crítica e sem incorporação à nossa própria realidade. Acho que Lobato também digeriu as idéias de Carroll, Collodi, Barrie, Swift, Perrault, irmãos Grimm e fez uma feijoada bem brasileira... – Hummm! Rocambole, feijoada, está me dando uma fome... É como se esses quitutes me dissessem: Coma-me, coma-me! Adoro histórias de comidas e bebidas! - disse Alice. Acontece sempre alguma coisa interessante comigo quando como ou bebo alguma coisa. Dessa vez Narizinho se surpreendeu e olhou para o céu, sem saber o que dizer diante da asneira da inglesinha...

- Sabe que as vezes eu me sinto um pouco parecida com a Emília? Comentou Alice. Emília muda muito, toda hora tem alguma coisa diferente. De boneca virou gentinha, vira bruxa, vira fada, ela adora essas histórias de virar. Muda a boca mais para baixo ou mais para cima. Muda as sobrancelhas, muda os olhos. Houve até uma vez que Emília passou sem olhos cinco dias, se lembra? Ela arregalou tantos os seus olhinhos de retrós que eles estouraram! Ela cria, recria, desafia e dá a língua... Tem horas que ela parece bem maior, outra hora cabe no bolso, chegou até a virar a chave do tamanho e reduziu a humanidade inteira a um tamanho minúsculo. Como eu, ela andou minúscula num jardim gigante e encontrou vários insetos... - Só que enquanto você viaja para mundos maravilhos, Emília viaja pelo mundo real, só que transformado, gigante, revelando a estranheza do nosso mundo. Lobato disse uma vez que esse livro era uma demonstração pitoresca da relatividade das coisas, disse Narizinho. - De fato a história é diferente, mas a própria Emília fala no livro (19) que acha que aquelas aventuras estão se parecendo muito com as minhas no país das maravilhas... Continuou Alice. Eu também mudo o tempo todo, cresço, diminuo, encolho, estico, aprendo, questiono, duvido. – Acho que todo mundo é assim, completou Narizinho, só que ainda não sabe... Mas a Emília mais zombeteira e atrevida e não sabe se comportar direito como você. Ela também não tem tanta crise de identidade, ela é toda cheia de si, e tem resposta para tudo. Enquanto você é contrariada a todo momento pelas estranhas criaturas que encontra, Emília consegue que tudo seja feito do jeito dela. Essa danada, tem um jeitinho para tudo. Não imagino o escândalo que seria uma boneca mal criada como ela em plena Inglaterra vitoriana!


A chave do tamanho (1942)



Alice encontra Emília. Jô Oliveira.


- Mas a Emília é muito esperta, continuou Narizinho, toda orgulhosa da boneca, sua companheira de viagens e melhor amiga. Ninguém pode entender como funciona a cabecinha dela! Ora raciocina muito bem, tal qual gente. Outras vezes pensa tão torto que deixa uma pessoa atrapalhada. Certa vez disse ao Sr. La Fontaine que não fizesse caso da boneca, visto que ela não batia bem da bola. Ele disse por sua vez que Emília tinha uma estranha personalidade, o que deixou claro para todo mundo que ela não é nada boba como pode às vezes parecer. Quando aprendeu a falar, depois de ingerir uma pílula falante do Dr. Caramujo, o médico do Reino das Águas Claras (20), Emília falou três horas sem tomar fôlego. Essa falação é a cara dela, como uma torneirinha de asneiras que ela tem dentro.

- É verdade, disse Alice, nas suas asneiras Emília tem uma lógica incrível! Ela questiona as normas e os padrões estabelecidos, subverte o bom senso e o senso comum sugerindo propostas desconcertantes e desafiadoras. Narizinho completou: - Em sua canastra Emília leva um monte de cacarecos que vai catando em suas viagens pelos reinos maravilhosos, já trouxe até umas estrelinhas da via láctea (21). Certa vez, ofereceu ao Sr. La Fontaine, para cortar o cabelo, uma tesoura de uma perna só. E quando ele questionou o fato da tesoura ter uma perna só, Emilia, que não se atrapalha nunca, respondeu prontamente: pois corte o cabelo de um lado só! (22) Ela é cheia dessas histórias.




Viagem ao céu (1932)


- Emília desmascara as palavras, explora o trocadilho e o duplo sentido, subvertendo a linguagem de forma lúdica e espirituosa. Olha Narizinho, estou para te dizer que o que a Emília faz é um nonsense emiliano! Ela brinca com a cultura popular, e suas adivinhas, parlendas, cantigas infantis e surpreende o tempo todo virando o sentido do avesso. – É verdade, completou Narizinho. Só que o nonsense dela é diferente. Nos seus livros me parece que você se depara a todo momento com o nonsense do Pais das Maravilhas, que te faz questionar a lógica e sua própria identidade, mas ao mesmo tempo desmascara a falta de sentido do poder reinante e das normas sociais. No caso da Emília, quem cria o nonsense é ela mesma, zombando das regras e do bom senso. Muita gente acredita que ela é o porta-voz de Monteiro Lobato, completou Narizinho - um autor sempre inquieto e muito crítico, que atuou ativamente em várias áreas da cultura, não abrindo mão de participar de todas as questões importantes referentes ao seu país e à sua época. Sua literatura infantil era parte fundamental de um projeto de transformação do Brasil. Monteiro Lobato queria transformar o país através da infância.

Hummm, tenho uma hipótese, continuou Alice. - Quem sabe você está para Alice no país das maravilhas como Emília está para Alice através do Espelho? Ao invés do subterrâneo, você viaja pelo mundo sub aquático, já Emília viaja pelo país da gramática, desconcertando a lógica e a linguagem.



Alice e Emília. | Memórias da Emília | Ilustração: Belmonte | São Paulo: Companhia Editora Nacional,1936.


– Lewis Carroll entendia bem o que era ser criança na época dele, considerou Alice. Ele atingiu a essência universal da infância e captou desilusões, medos e desorientações do dia a dia das crianças. Lewis Carroll desafio a autoridade e o poder, tal como uma menina que um dia gritou que “O rei está nu!”. Com Lewis Carroll questionei a lógica e aprendi a árdua tarefa de pensar. Seus livros ajudam a criança a tomar consciência de si e mostram não ser ela a única a sentir o que sente. Talvez eles indiquem até mesmo aos adultos como respeitar a criança. As aventuras que Carroll escreveu ajudam as crianças a crescerem. Esse livro é doido, Lúcia, o sentido dele está em nós. (24)

A maioria dos livros para crianças da minha época, acrescentou Alice, tinha objetivos ditos nobres: ensinar e pregar, pois as cartilhas ministravam princípios religiosos junto com a tabuada. Livros sisudos e didáticos estimulavam temer o pecado e infundir disciplina e obediência. Raramente se dava crédito à inteligência da criança, à sensibilidade ou imaginação. Carroll fundou a literatura infantil de verdade, aquela que não dá aulinha e nem lição de moral, mas que explora bem a linguagem. Acho que Lobato aprendeu com ele. Só que os seus livros de Alice apesar do humor, são mais angustiados e angustiantes, as histórias do Sítio do Picapau Amarelo têm um outro espírito mais frugal e mais debochado. (25)



Alice e Emília. Colagem de Adriana Peliano.


É tanta coisa... Já reparou que o Lobato adorava se corresponder com seus leitores e trocou muitas cartas com crianças, como Carroll se correspondeu com suas amiguinhas? - Comentou Narizinho. Além disso muitos de seus leitores se tornaram personagens de suas histórias, não foi só a Alice que virou história, viu? Alice sorriu e continuou: Só que o mais legal de tudo eu não te contei Narizinho... Você já notou que Lúcia é quase um anagrama de Alice? Você podia se chamar Aluci, como Lucy in the Sky with Diamonds, a música dos Beatles, também um jogo caleidoscópico que brinca com o pais das maravilhas, numa viagem em um barco em um rio
com árvores de tangerina e céus de marmelada. Podemos então juntas embarcar nessa aventura psicodélica duas meninas com olhos de caleidoscópio! Narizinho riu. Além disso temos a mesma idade, não é? Você viveu suas aventuras debaixo da terra, eu, debaixo das águas. Será que somos também como reflexos invertidos num espelho mágico? Narizinho completou: Lembro que em algum momento dos seus livros você se pergunta: será que existe um livro sobre mim? Deve haver... E eu agora te pergunto: Será que alguém escreveu essa nossa história e será que alguém está lendo exatamente nesse momento essa nossa conversa? Ou será que isso tudo é na verdade um grande sonho? - E se for, quem estará sonhando?




Notas

1 - Mestranda no curso “Interunidades – Estética e História da Arte” / USP. Orientação de Kátia Canton. Presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil.
2 - CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Tradução e adaptação: Monteiro Lobato. Companhia Editora Nacional, 1931. 1a. ed.
3 - Ver PELIANO, Adriana. Alice’s Adventures on the Yellow Woodpecker Ranch.
4 - LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1931. 1a Ed.
5 - LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Editora Brasiliense: 1981. p. 10
6 - Alice no País das Maravilhas, capítulo 1, Livre tradução.
7 - LOBATO, A menina do narizinho arrebitado. São Paulo: Companhia editora Nacional, 1920. 1a. Ed.
8 - CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice. Tradução e organização de Sebastião Uchôa Leite. São Paulo: Summus, 1980.
9 - “A maioria dos livros infantis de Lobato se ambientava no Sítio do Picapau Amarelo, localizado no interior do Brasil, tendo como personagens a senhora da fazenda, Dona Benta, seus netos, Narizinho e Pedrinho, e a cozinheira, Tia Nastácia. A esses personagens foram integradas entidades criadas ou animadas pela imaginação das crianças na história: a boneca irreverente e debochada Emília, o aristocrático e livresco boneco de sabugo de milho Visconde de Sabugosa, a vaca Mocha, o burro Conselheiro, o porco Rabicó e o rinoceronte Quindim. As aventuras, no entanto, em sua maioria, se passam em outros lugares: num mundo de fantasia inventado pelas crianças ou em estórias contadas por Dona Benta no começo da noite.” In. PELIANO, Adriana. (2009)
10 - Ver COELHO, Nelly Novaes (1982) p. 359.
11 - A menina do narizinho arrebitado, lançado no Natal de 1920, é o primeiro livro infantil de autoria de Monteiro Lobato.A vasta obra infantil de Lobato foi mais tarde reunida numa coleção de 17 volumes.
12 - in. Fábulas. LOBATO, Monteiro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.
13 - Reúne seis das onze histórias que Monteiro Lobato escreveu a partir de 1920. Narizinho arrebitado é a primeira delas. Neste livro, surge Emília, a boneca de pano que destrava a língua e começam as aventuras sem fim dos netos de Dona Benta.
14 - O Saci é um personagem bastante conhecido do folclore brasileiro. O Saci é um negro jovem de uma só perna, portador de uma carapuça sobre a cabeça que lhe confere poderes mágicos. O primeiro escritor a se voltar para a figura do Saci-Pererê foi Monteiro Lobato.
15 - O Curupira é uma figura do folclore brasileiro. Ele é uma entidade das matas, um anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás.
É um mito antigo no Brasil, já citado por José de Anchieta, em 1560. Protege a floresta e os animais, espantando os caçadores que não respeitam as leis da natureza.
16 - A mula-sem-cabeça é um personagem do folclore brasileiro. Na maioria dos contos, é uma forma de assombração de uma mulher que foi amaldiçoada por Deus por seus pecados, e condenada a se transformar em uma criatura descrita como tendo a forma de um equino sem a cabeça que vomita fogo.
17 - “Pirolito que bate bate, / Pirulito que já bateu, / Quem gosta de mim é ela, / Quem gosta dela sou eu.” Versão original de tradição oral. (“Pirolito que bate bate / Pirolito que já bateu, / Quem adora o Marques é ela, / quem adora Emília sou eu.” (Monteiro Lobato, Narizinho arrebitado)
18 - “Twinkle, twinkle, little star,
How I wonder what you are!
Up above the world so high,
Like a diamond in the sky!” (Nursery Rhyme) “Twinkle, twinkle, little bat! How I wonder what you're at! Up above the world you fly, Like a tea tray in the sky!” (Lewis Carroll, Alice in Wonderland).
19 - LOBATO, Monteiro. A Chave do Tamanho. São Paulo: editora brasiliense, 2003.
20 - In. LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Editora Brasiliense, São Paulo: 1981.
21 - In. LOBATO, Monteiro.
Viagem ao Céu. Editora Brasiliense, São Paulo: 1981.
22 - In. LOBATO, Monteiro.
Reinações de Narizinho. Editora Brasiliense, São Paulo: 1981.
23 - SEVCENKO, Nicolau.
in. CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. Tradução de Nicolau Sevcenko. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
24 - CAMPOS, Paulo Mendes. O Colunista do Morro. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1965.
25 - MACHADO, Ana Maria.


Filha de Octalles Marcondes Ferreira, Cléo, na foto com Lobato, inspiraria personagens da sua obra.


Bibliografia Consultada
AZEVEDO, Carmen Lucia de; CAMARGOS, Márica; SACCHETTA, Vladimir.
Monteiro Lobato: Furacão na Botocundia. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1997.
CAMPOS, Paulo Mendes.
O Colunista do Morro. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1965.
CANTON, Kátia & PELIANO, Adriana. Lewis Carroll na Era Vitoriana: Outras histórias de Alice. São Paulo: DCL, 2010.
CARROLL, Lewis. GARDNER, Martin.
ALICE: Edição Comentada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
CARROLL, Lewis.
Aventuras de Alice. Tradução e organização de Sebastião Uchôa Leite. São Paulo: Summus, 1980.
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Alice no país das maravilhas. Tradução de Nicolau Sevcenko. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
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LAJOLO, Marisa e CECCANTINI, João Luís. Monteiro Lobato livro a livro - obra infantil. São Paulo: editora Unesp, 2008.

LOBATO, Monteiro.
A Chave do Tamanho. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.
LOBATO, Monteiro. Fábulas. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.
LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.
LOBATO, Monteiro. O Picapau Amarelo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.
COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil. São Paulo: Quíron, Global, 1982.PELIANO, Adriana. Diário de uma Alice. http://brasillewiscarroll.blogspot.com
PELIANO, Adriana.
Alice’s Adventures on the Yellow Woodpecker Ranch. Knight letter. The Lewis Carroll Society of North America. Winter 2009. Volume II. Issue 13. Number 83.


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por Adriana Peliano.


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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”