9 July 2010

CLALICE







Mas quem é que fabrica esse tecido? Esse tecido é feito pela fada miragem.
E como é cortado? Com a tesoura da imaginação.
E com que agulha é costurado? Com a agulha da fantasia.
E com que linha? Com a linha do sonho.



colagens de Adriana Peliano


Assim fez dona Aranha o maravilhoso vestido de noiva de Narizinho, em suas Reinações.

Também costurei as aventuras de Alice e os mergulhos de Clarice, numa nova viagem em que Alice incorpora Clarice Lispector entre águas vivas, alicinações e claricinações. Em momentos de viagem por mundos misteriosos cometi essa ousadia de uma montagem de citações sem aspas, mistura de vozes e pensamentos sem palavras. Criei também as colagens das imagens em mergulhos oníricos.

C lalice

Eu estava deitada na margem do rio sem nada fazer. Pensava lentamente, quase sem palavras. Era noite plena e eu estava plena da noite que escorria com perfume de amêndoas doces. Queria morder as estrelas, morder estrelas sim, por que se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante é por que alguma coisa semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Eu queria ser estrela. Meu corpo sentia a terra, tão profunda e tão secreta que não havia entendimento que dissolvesse o seu mistério. A primeira verdade está na terra e no corpo. De volta ao corpo, me assustei. Posso até acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida, mas me sinto espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Também me surpreendo que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa. Sinto o ar fresco circular por dentro como saído de alguma gruta oculta, úmida e fresca.






Flagrei o tempo que tentava passar desapercebido e me perguntei em seguida “o que vai acontecer agora, agora, agora?” E sempre, no mínimo instante que vinha, nada acontecia se eu continuava a esperar o que ia acontecer. Será que isso é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz de parar de raciocinar, o que é terrivelmente difícil, que me acompanhe. De súbito um coelho branco de olhos rosados passou correndo dentro de mim. Não havia nada de tão notável nisso: nem achei tão extraordinário ouvir o coelho murmurar para si mesmo: é tarde, é tarde, tão tarde até que arde! Mas quando o coelho tirou um relógio do bolso do colete e deu uma espiada, apressando-se logo em seguida, levantei-me sem demora pois percebi que jamais vira em minha vida um coelho de colete e muito menos com relógio no bolso. Ardendo de curiosidade corri atrás do coelho campo a fora chegando a tempo de vê-lo enfiar-se numa caverna misteriosa. Entrei atrás dele sem pensar por um instante sequer em como sairia dali outra vez.





A caverna se alongava em linha reta como um túnel, e de repente se abria num buraco, tão de repente que não tive nem um segundo para pensar em parar, antes de cair no que parecia um poço muito profundo. Ou o poço era profundo demais, ou eu caía muito devagar, pois tinha tempo de sobra para olhar em torno de mim durante a queda e perguntar-me o que aconteceria em seguida. Tentei primeiro olhar para baixo, para saber aonde ia, mas a escuridão era demais para ver qualquer coisa. Olhei então para as paredes do poço e observei que estavam cheias de armários e estantes: aqui e ali vi também molduras e mapas e cartas de baralho. O poço parecia cheio de coisas curiosas... mas o mais estranho de tudo era que cada vez que olhava uma prateleira para ver o que ela continha exatamente, esta parecia sempre vazia enquanto as outras em volta transbordavam de coisas. As coisas aqui são tão fugidias, pensei por fim depois de perseguir um objeto brilhante que às vezes parecia uma boneca, outras vezes um pote de geléia, uma chave, um relógio, uma borboleta, uma peça de xadrez, uma garrafa ou uma xícara de chá, e estava sempre na prateleira a cima daquela que estava olhando, como se estivesse ali para isso.






Eu vou me criando. Mergulhar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Solta no ar, longe da razão que aplaina o mistério, perto da intuição, de assombros e sobressaltos, longe das definições que explicam o mundo, numa terra de ninguém, perto do selvagem coração da vida. As grutas são o meu mergulho na terra, grutas extravagantes e perigosas, aonde se unem estalactites, fósseis e pedras, e onde os bichos que são doidos procuram refúgio. Caverna sempre sonhadora com suas névoas, lembranças e saudades. Dentro da caverna obscura tremeluzem dependurados os morcegos. Vejo aranhas negras e feiticeiras. Ratos e ratazanas correm espantados pelas paredes. Entre as pedras, o escorpião. Caranguejos pré-históricos pareceriam bestas ameaçadoras se fossem do tamanho dos homens. Baratas velhas se arrastam nas penumbras. E tudo isso sou eu. Tenho medo de mim, eu, bicho das cavernas.

E comecei a ficar meio sonolenta, continuando a dizer para mim mesma numa espécie de devaneio: ia sentir amor cego por morcego? E será que o morcego também sente amor cego? Estava entrando sorrateiramente em contato com uma realidade nova para mim que ainda não tinha pensamentos correspondentes e muito menos ainda alguma palavra que a significasse: era uma sensação atrás do pensamento. Esse ar solto, esse vento que me bate na alma, cada vez que mergulho em alguma coisa sem fundo onde caio sempre, caindo sem parar, até morrer e adquirir enfim o silêncio. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo. Quando o silêncio aparece, o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente.

Caindo, caindo, caindo. Essa queda nunca teria fim? Só queria saber quantos quilômetros já desci esse tempo todo! Devo estar chegando perto do centro da Terra. Deixe ver: deve ter sido mais de seis mil quilômetros, por ai... Mas então, qual seria a latitude ou longitude dentro de mim? Só queria saber se vou passar direto através da Terra! Mas o que será afinal latitude e longitude? Acontece o seguinte: quando estranho a palavra aí é que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí que começa a vida. Atrás do pensamento atinjo um estado que recuso a dividir em palavras e o que não posso e não quero exprimir fica sendo o mais secreto dos meus segredos. Preciso de segredos para viver. Sei que tenho medo de momentos nos quais não uso o pensamento, que, todo secreto, não usa mais as palavras. Não usar as palavras é perder a identidade? É se perder nas essenciais trevas daninhas? Perco a identidade do mundo em mim e existo sem garantias.






A palavra tem seu terrível limite. Além desse limite é o caos orgânico. Depois do final da palavra começa o grande uivo eterno. Quero lonjuras. Minha selvagem intuição de mim mesma. Mas o meu principal está sempre escondido. Sou implícita. E quando vou me explicar perco a úmida intimidade. Sou obscura para mim mesma. Só tive inicialmente uma visão lunar e lúcida, e então prendi para mim o instante antes que ele morresse e perpetuamente morre. Não são idéias que tenho e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. Me habituei a mexer na natureza íntima das coisas. Este é um exercício de vida sem planejamento. Deixo-me acontecer. Sou subterraneamente inatingível pelo meu conhecimento.





Fascinada mergulhei o corpo no fundo do poço, calando todas as suas fontes e sonâmbula segui por outro caminho. De repente caí num monte macio de folhas e gravetos. Num instante fiquei de pé. Olhei pra cima e estava tudo escuro mas a minha frente havia uma espécie de corredor bem comprido e o corredor que ia correndo por ele com muita pressa era o coelho branco que dava para ver bem ao longe. O que me guia apenas é um senso de descoberta. Atrás do atrás do pensamento. Sigo-me sem saber ao que me levará. Ás vezes ir seguindo-me é tão difícil. Por estar seguindo o que ainda não passa de uma nebulosa. As vezes termino desistindo. Cheguei finalmente a uma sala comprida e baixa iluminado por uma fileira de lâmpadas dependuradas no teto. Em toda volta da sala havia portas, mas todas estavam trancadas. Sentei-me muito triste no meio da sala sem saber como sair dali. De repente vi uma mesinha de três pernas toda feita de vidro. Não havia nada nela a não ser uma chave dourada, bem pequena. Logo achei que ela devia servir numa das portas, mas infelizmente, ou as fechaduras eram grandes demais ou a chave era muito pequena, porque não dava para abrir nenhuma delas.





Entretanto, quando dei uma segunda volta, vi uma cortina baixa, em que não tinha reparado antes. Atrás havia una portinha de dois palmos de altura. Foi só experimentar a chave na fechadura e para minha grande alegria, cabia direitinho. Abri a porta e vi que dava para uma pequena passagem, não muito maior do que um buraco de rato. Ajoelhei-me e avistei, do outro lado da passagem, o mais belo jardim que já vi na vida. Como adoraria sair daquela sala escura e passear entre os canteiros de flores resplandecentes e as fontes de água fresca. (Ah! Como eu gostaria de encolher como um telescópio! Acho que poderia se soubesse como começar.) Tantas coisas extravagantes tinham acontecido que eu começava a pensar que quase nada seria realimente impossível.





Fechei a porta, tranquei a chave, ajoelhei-me perto dela. Ensaiei um sorriso, ausente, quase misterioso, com se prestasse ouvido ao rolar suave de um rio dentro de meu peito. Senti a forma brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim. No momento em que fechei a porta, instantaneamente me desprendi das coisas. Aspirei então aquele perfume morno e adocicado de rosas velhas. Tudo o que fora distanciava-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante dos meus olhos. Vejo-me em seguida desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. O que desejo ainda não tem nome.





Foi quando achei uma garrafinha e em volta do gargalo estava amarrado um pequeno rótulo com a inscrição BEBA ME brilhantemente impressa em letras grandes e arrisquei-me a prová-la. Achei o gosto muito bom, de fato o sabor era uma mistura de torta de cereja, creme de leite, suco de abacaxi, peru assado, caramelo e torradas quentes com manteiga e bebi até o finzinho. Que sensação mais curiosa! Devo estar encolhendo como um telescópio! E de fato estava: tinha agora só uns vinte e cinco centímetros de altura. Agora pensava que tinha o tamanho exato para passar pela pequena porta que levava ao lindo jardim. Mas esperei primeiro alguns minutos para ver se ia continuar encolhendo. Fiquei um pouco nervosa com isso. Posso terminar sumindo completamente como uma vela. E como é que eu seria depois disso? Tentei imaginar com o que pareceria a chama de uma vela depois de apagada, mas não podia me lembrar de ter visto alguma vez.


Depois de esperar um pouco, vendo que nada mais acontecia, resolvi ir para o jardim de uma vez por todas. Mas, quando cheguei à porta vi que tinha esquecido a chavezinha dourada, e ao voltar para a mesa, constatei ser impossível atingi-la. Podia vê-la perfeitamente através do vidro e fiz o que pude para subir por uma das pernas da mesa, mas era muito escorregadia. E quando fiquei cansada, depois de várias tentativas, sentei e chorei. Mas os meus olhos deram com uma caixinha de vidro debaixo da mesa: abri e achei dentro um pequeno bolo, no qual estava lindamente marcada com passas a inscrição COMA ME. Bom, vou comê-lo e se ficar maior posso pegar a chave e se ficar menor passo por baixo da porta, assim de qualquer maneira entro no jardim e pouco me importa o que acontecer.





Comi um pedacinho e disse a sim mesma com ansiedade: e agora? E agora? Colocando a mão em cima da cabeça, a fim de sentir se estava crescendo ou diminuindo. E fiquei bastante surpresa de ver que continuava do mesmo tamanho. Isso é o que geralmente acontece quando se come bolo, é claro, mas estava acostumada a só esperar coisas extraordinárias que agora parecia maçante e enfadonho as coisas acontecerem de modo comum. Portanto devorei o bolo de uma só vez. Muito estranhíssimo! Muito estranhíssimo! Estou me esticando agora como o maior telescópio jamais visto! Adeus pés! Nesse momento minha cabeça bateu contra o teto da sala: estava com mais de dois metros e meio de altura. Peguei depressa a chavezinha dourada e precipitei-me para a porta do jardim. Tudo o que pude fazer, estirada meio de lado foi olhar para o jardim com um olho só. Tive de dobar-me para não quebrar o pescoço enquanto dizia a mim mesma: acho que basta... espero que não vá crescer mais que isso pelo jeito que estou já nem consigo passar pela porta. Continuava a crescer e crescer até que tive que me ajoelhar. Daí a pouco nem isso adiantava, pois nem havia mais espaço no lugar. Tentei estirar me de lado com um cotovelo apoiado no chão e outro braço enroscado por cima da cabeça. Mesmo assim continuava a crescer. Disse então para mim mesma agora não posso fazer mais nada, aconteça o que acontecer. Que vai ser de mim?






Comecei a chorar de novo. Chorei despejando galões de lágrimas até formar uma lagoa em torno de mim. Seria melhor não ter chorado tanto, parece que vou afogar nas minhas próprias lágrimas. Isso será uma coisa bem esquisita com certeza. Mas tudo aqui é muito esquisito hoje. Esperei que a idéia se tornasse mais clara. Que subisse das névoas aquela bola brilhante e leve que era o germe de um pensamento. De profundis. Sentia-o vacilar, quase perder o equilíbrio e mergulhar para sempre em águas desconhecidas. Todo o meu corpo e minha alma perdiam os limites, misturavam-se, fundiam-se num só caos, suave e amorfo, lento e de movimentos vagos como matéria simplesmente viva. Sou-me. Continuei a nadar, a nadar, a nadar e olhar, olhar, olhar, vendo. Continuei no meu corpo a corpo com a vida.





A primeira coisa que tenho de fazer disse a mim mesma enquanto divagava em direção a um bosque próximo é voltar ao meu tamanho normal e a segunda é achar o caminho para aquele lindo jardim. Cheguei em baixo de uma árvore e lá em cima vi um gato que apenas sorriu. Ele tinha garras muito compridas e dentes graúdos e era mestre em enigmas. Gato mistério, poderia me dizer por favor qual é o caminho para sair daqui? Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. Não me importa muito onde. Nesse caso não importa para onde você vá. Contanto que eu chegue a algum lugar. É claro que isso acontecerá, desde que você ande durante algum tempo. Isso vi que era impossível negar. Tentei outra pergunta. Que espécie de gente vive aqui? Todos são loucos. Mas eu não quero me encontrar com gente louca. Você não pode evitar isso todos nós somos loucos aqui. Eu sou louco você é louca. Como sabe que eu sou louca? Deve ser, ou não teria vindo por aqui. As palavras estalavam entre meus dentes em estilhaços frágeis. Não era à toa que eu entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o meu!

O gato esvanecia tão rapidamente que era de deixar qualquer um tonto. Mas dessa vez desapareceu bem devagarzinho, começando com a ponta da cauda e terminando com o sorriso que ficou suspenso no ar algum tempo depois que o corpo tinha desaparecido. Já vi muitos gatos sem sorriso, mas sorriso sem gato! É a coisa mais curiosa que já vi na minha vida. E continuei na minha busca do mundo. Era uma mancha difusa de instintos, doçuras e ferocidades, mas seria de forma permanente: por que se o meu mundo não fosse humano eu seria um bicho. Os bichos me fantasticam.





Encontrei então uma lagarta fumando sentada em cima de um cogumelo. Nos olhamos por algum tempo em silêncio. Finalmente a lagarta tirou o narguilé da boca e perguntou em voz languida e sonolenta: Quem é você? Não era um começo de conversa muito animador....eu...eu... nem mesmo sei, nesse momento...eu... enfim sei que em era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então. Que é que você quer dizer com isso? Explique-se! Acho que eu mesma não posso explicar porque eu não sou eu mesma, está vendo? Não, não estou. Acho que não posso explicar melhor porque eu mesma não consigo entender e depois ter tantos tamanhos diferentes num dia só é muito confuso.


É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios, na língua principalmente, na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer. O gosto é cinzento, um pouco avermelhado, nos pedaços velhos um pouco azulado e move-se como gelatina vagarosamente. As vezes torna-se agudo e me fere, chocando-se comigo. Mas sobretudo de onde vem essa certeza de estar vivendo? Não, não passo bem. Pois ninguém se faz essas perguntas e eu... Por que sou uma pergunta.






Um lado a fará crescer e outro lado a fará diminuir. Um lado de quê? Outro lado de quê? Do cogumelo disse a lagarta. Fiquei olhando o cogumelo pensativamente tentando saber quais eram os dois lados pois como era perfeitamente redondo, isso era uma questão difícil. Finalmente estirei os braços em volta do cogumelo o mais distante que pude um do outro e tirei um pedaço de cada lado. E agora qual é qual? Pensei comigo mesma e mordisquei um pedacinho da direita para ver o efeito. Quase imediatamente senti um violento impacto sobre o queixo ele tinha ido bater nos pés! Fiquei assustadíssima com a súbita mudança, mas senti que não havia tempo a perder, pois estava encolhendo rapidamente. Esforcei-me para comer uma parte de outro pedaço. Meu queixo estava tão imprensado contra os pés que mal havia espaço para abrir a boca mas finalmente consegui abocanhar um pouco do pedaço da mão esquerda. Que bom minha cabeça está livre outra vez! Fiquei feliz mas logo me assustei novamente ao notar que meus ombros tinham sumido de vista: tudo o que eu podia ver, ao olhar para baixo, era uma imensidão de pescoço, que parecia erguer se como uma chaminé de um mar de folhas verdes que jaziam bem abaixo. Que são essas coisas verdes lá embaixo? E meus ombros onde se meteram? E minhas mãozinhas, como não vejo vocês? Eu movia as mãos mas não conseguia ver nada exceto uma leve agitação nas folhas verdes bem longe. Como não havia jeito de levantar as mãos até a cabeça tentei baixar a cabeça até as mãos e fiquei deliciada de ver que podia mover o pescoço facilmente em qualquer direção como uma serpente. Tinha conseguido curvá-lo com um gracioso zigue zague mergulhei a cabeça entre as folhas que descobri serem da copa das árvores sob as quais estivera vagando.






Que horror! Serpente! Eu não sou uma serpente, estou lhe dizendo. Sou uma... sou... Ah, é? Então é o quê? Disse a pomba. Estou vendo muito bem que você está tentando inventar alguma coisa. Não sabia dizer, me lembrando de todas as mudanças pelas quais tinha passado naquele dia. Já vi muitas não sei dizer na minha vida, mas nunca tinha visto uma com um pescoço tão longo. Nada disso você não me engana, é uma serpente, eu sei. Imagino que vai mentir dizendo que nunca comeu um ovo. Claro que já comi ovos, mas as não sei dizer comem ovos tanto quanto as serpentes, sabia? Não acredito! Mas se for verdade isso prova que são uma espécie de serpente. Essa idéia era tão nova que fiquei em silêncio alguns instantes. Parambólica – o que quer que queira dizer essa palavra. Parambólica que sou. Não me posso resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo.





Eu achava que não existia a menor partícula de sentido na minha viagem. Mas se não existe sentido, isso nos pouca um grande incômodo: não precisamos procurar nenhum sentido. Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapo, gêneros não me pegam mais. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. “Não entender” é tão vasto que ultrapassa qualquer entender – entender é sempre limitado. No entanto às vezes adivinho. São manchas cósmicas que substituem entender.


A certa altura lembrei-me que ainda tinha dois pedaços de cogumelos nas mãos. Com muito cuidado mordisquei um primeiro pedaço, depois o outro aumentando um pouco diminuindo um pouco até que finalmente consegui voltar para a minha altura normal. Já fazia tanto tempo que eu não tinha o meu tamanho normal que a princípio estanhei um bocado. Mas em poucos minutos me acostumei e como de costume comecei a falar comigo mesma: ótimo metade do meu plano já se realizou, que coisa mais confusa essas mudanças todas, nunca sei o que vai me acontecer no minuto seguinte. Mas agora pelo menos já voltei ao meu tamanho normal e a próxima coisa a fazer é entrar naquele lindo jardim. Como vou conseguir isso é que eu queria saber.

Descolei-me de mim. E quero a desarticulação, só assim sou eu no mundo. Minha busca não é fácil. Minha dificuldade é ser o que sou, o que de repente se transforma numa dificuldade intransponível. O excesso de mim chega a doer e quando estou excessiva tenho que dar de mim como o leite que se não fluir arrebenta o seio. Livro-me da pressão e volto ao tamanho natural. A elasticidade exata. Elasticidade de uma pantera macia. Um mundo fantástico me rodeia e me é. Na minha viagem aos mistérios ouço a planta carnívora que lamenta tempos imemoriais e tenho pesadelos obscenos sob ventos doentios. Estou encantada, seduzida, arrebatada por vozes furtivas.





Chovo. Nas estrelas pressinto o segredo, esse brilho é o mistério impassível que ouço fluir dentro de mim, chorar em notas largas, desesperadas, românticas. Pelo menos queria comunicar-me com elas, e fazer realidade o desejo de beijá-las. De sentir nos lábios a sua luz, senti-la fulgurar dentro do corpo, deixando-se faiscante e transparente, fresco e úmido como os minutos que antecedem a madrugada. Por que surgem em mim essas sedes estranhas? A chuva e as estrelas, essa mistura densa e fria me acordou, abriu as portas de meu bosque verde e sombrio, desse bosque com cheiro de abismo onde corre água.






Quero a seguinte palavra: esplendidez, esplendidez é a fruta na sua suculência. Várias frutas apareceram, cada fruta era insólita, apesar de familiar. Às vezes comparava-me às frutas, e me comia internamente, cheia de sumo vivo que era. Conheço um ela que se apavora com borboletas como se estas fossem sobrenaturais. E conheço um ele que se arrepia todo de terror diante de flores, acha que as flores são assombradamente delicadas como um suspiro de ninguém no escuro. O perfume da rosa é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de nos abrirmos em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca – é só experimentar. Já o cravo, temos uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de sua pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berramos em violenta beleza. Os brancos lembramos o pequeno caixão da criança defunta: o cheiro então se torna pungente e agente desvia a cabeça para o lado com horror. A violeta, somos introvertidas e nossa intimidade é profunda. Dizem que nos escondemos por modéstia. Não é. Escondemos para poder captar o nosso próprio segredo. Violeta, dizemos levezas que não se podem dizer. Dama da noite, temos perfume de lua cheia. Somos fantasmagóricas e assustadoras e somos para quem ama o perigo. Somos perigosíssimas: um assobio no escuro, o que ninguém agüenta. Mas eu agüento porque amo o perigo. O crisântemo, somos de uma beleza sugestiva. Falamos através da cor e do despenteado. Descabeladamente controlamos a nossa selvageria. No profundo da Amazônia corre a lenda de uma planta que fala. Chama-se tajá. E dizem que sendo mistificada de um modo ritualista pelos indígenas, ela eventualmente diz uma palavra.

Oh! violeta eu disse para uma flor que ondulava graciosamente ao vento. Só queria que você pudesse falar. – Nós podemos falar, mas só falamos quando tem alguém com quem valha a pena falar. Já estive em muitos jardins antes, mas nenhuma das flores podia falar. Coloque sua mão no chão e sinta a terra então você saberá porque. Obedeci. Ela muito duro, mas não via o que tinha a ver uma coisa com a outra. Na maior parte dos jardins fazem o canteiro tão fofo que as flores estão sempre dormindo. Isso parecia uma boa razão. Nunca, pensei nisso antes. Na minha opinião você nunca pensa em nada, disse o cravo irritado. Nunca vi ninguém que parecesse mais burra, disse uma Dama da noite tão de repente que dei um pulo. Você está começando a murchar, entende? E assim não pude impedir de minhas pétalas ficarem desmazeladas.





Expresso meus desejos mais ocultos e consigo com as palavras uma sensual beleza confusa. Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam um intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente meus pensamentos e sensações, sem nenhum sentido utilitário: sou sozinha. Cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou orgânica. E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens.

Mas vou me seguindo. Elástica. É um tal mistério essa floresta onde sobrevivo para ser. Mas agora acho que vou mesmo. Isto é: vou entrar. Quero dizer: no mistério. Eu mesma misteriosa e dentro do âmago em que me movo nadando, protozoário. Eu sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Respeito muito o que me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço. Para onde vou? A resposta é: vou. Movo-me dentro de meus instintos fundos que se cumprem as cegas. Sinto então que estou na proximidade de fontes, lagoas e cachoeiras, todas de águas abundantes.






Logo cheguei a um descampado e do lado oposto havia um bosque. Parecia mais denso que os anteriores e eu hesitava em entrar dentro dele. Esse deve ser o bosque onde as coisas não tem nomes. E o que vai ser do meu nome quando eu entrar? Ia devaneando quando cheguei à entrada do bosque que parecia muito úmido e sombrio. Bom, de qualquer modo é um alívio, disse enquanto avançava no meio das árvores, depois de tanto calor entrar dentro do... dentro do... dentro de que? Estava assombrada de não poder me lembrar do nome. Com é bom estar debaixo das ... debaixo disso aqui ora, e coloquei a mão no tronco da árvore. Como é que essa coisa se chama? É bem capaz de não ter nome nenhum... fiquei calada durante um minuto pensando. E agora quem sou eu, eu não sei mais lembrar. Nesse exato momento ia passando um cervo. Com é que você se chama? Bem que eu queria saber. Pense mais uma pouco.Por favor pode me dizer como Você se chama? Acho que isso me ajudaria. Eu lhe direi mais adiante se você me acompanhar. Aqui também não consigo me lembrar.


Dessa falta de sentido nascerá um sentido como de mim nasce inexplicavelmente vida que pulsa. A densa selva de palavras envolve o que sinto e vivo, e transforma tudo o que sou em alguma coisa minha que fica fora de mim. A natureza é envolvente: ela me enovela toda e é sexualmente viva, apenas isto: viva. Também eu estou viva e faminta. Lambo meu focinho como o tigre depois de ter devorado o cervo. Como vês, é-me impossível aprofundar e apossar-me da vida, ela é aérea, é o meu leve hálito. Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem orgânica que no entanto dá a pressentir uma ordem subjacente. A grande potência.





Ninguém pode acreditar em coisas impossíveis, disse um dos bichos que encontrei. Eu diria que você nunca praticou o bastante, quando eu era pequena praticava sempre meia hora por dia. Às vezes me acontecia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã. Por que no impossível é que está a realidade. Sou das que crêem no que é inacreditável. Aprendi a viver com o que não se entende. Mas conheço também uma outra vida ainda. Conheço e quero e devoro. É uma vida de violência mágica. É misteriosa e enfeitiçada. Nela as cobras se entrelaçam enquanto as estrelas tremem. Gotas de água pingam na obscuridade fosforescentes da gruta. Nesse escuro as flores se entrelaçam em jardim esplêndido e úmido.





O que é...isso? disse finalmente. Isso é uma menina sonho mulher menina sonho! Nós a achamos hoje mesmo. É do tamanho natural e duas vezes mais verdadeira. Sempre pensei que fossem monstros fabulosos! Disse o unicórnio. Está viva? E isso fala! O unicórnio me olhou sonhadoramente e disse. Fala! Sabe? Sempre pensei também que os unicórnios fossem monstros fabulosos. Nunca tinha visto um antes! Está bem, agora que nos vimos um ao outro, se você acreditar em mim, acreditarei em você, negócio fechado?

Eu estou sonhando agora e com o que você pensa que eu estou sonhando? É impossível adivinhar uma coisa dessas. Ora, ora, é com você! E se eu deixasse de sonhar com você, onde você acha que estaria? Você não estaria em lugar nenhum pois você é apenas uma espécie de imagem no meu sonho. Se eu acordasse você se apagaria puff! como a chama de uma vela.





Não quero perguntar por que, pode-se sempre perguntar por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim. Não me entendo. Sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que caleidoscopicamente persigo. Que música belíssima ouço no profundo de mim. É feita de traços geométricos se entrecruzando no ar. Palavras muito puras, gotas de cristal. Meu conjunto com o mundo tem a crueza nua dos sonhos livres e das grandes realidades. Minha própria força me libera, essa visão plena que se me transborda. E nada planejo no meu trabalho intuitivo de viver: trabalho com o indireto, o informal e o imprevisto. Deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.


E caminho segurando um guarda chuva aberto sobre corda tensa até o limite do meu sonho. E trabalho quando durmo: porque é então que me movo no mistério. Calada, aérea, no meu grande sonho. Como nada entendo mergulho na vacilante realidade movente. O real eu atinjo através do sonho. Eu te invento, realidade. No fim das contas eu não estive sonhando. A não ser. A não ser... que todos façamos parte do mesmo sonho. Só espero que seja o meu sonho e não o seu sonho! Não me agrada nada a idéia de fazer parte do sonho de outra pessoa. Dá vontade de te acordar para ver o que acontece. Quer ver como continua? Esta noite sonhei que estava sonhando. Será que depois da morte é assim? O sonho de um sonho de um sonho de um sonho?





As ilustrações foram feitas por Adriana Peliano através de colagens, utilizando fotografias de Clarice Lispector, Alice Liddell (por Lewis Carroll e Julia Margaret Cameron), ilustrações de Eric Kincaid e os incríveis desenhos de René Bour para uma rara edição francesa de Alice da década de 50, entre outras paisagens.

O texto também incorpora textos de Clarice Lispector em 'Água Viva' e 'Alice no País das Maravilhas' de Lewis Carroll.




(1) "Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narizinho. (...) Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida." Clarice Lispector

About Me

My photo
“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”