2 May 2010

MAPA ASTROLÓGICO DE LEWIS CARROLL

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colagem de Adriana Peliano


Mapa astral de Lewis Carroll interpretado por
Cid Marcus Vasques
professor e pesquisador de astrologia e mitologia.



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colagem de Adriana Peliano

A maior parte dos astros da carta astral de Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll), nascido na madrugada do dia 27 de janeiro de 1832, em Daresbury, Inglaterra, às 03H50M, se distribui pelas suas três primeiras casas. Essas casas constituem o chamado primeiro quadrante zodiacal. Uma grande concentração de astros nessa área, em qualquer carta, indica, de um modo geral, que temos diante de nós uma pessoa muito voltada para os seus interesses pessoais. Esta interiorização costuma tomar dois caminhos: 1) uma extroversão egoísta, ou seja, o indivíduo age sobre o mundo levando muito pouco em consideração os outros, ignorando-os até; muitos são afoitos e descuidados, neles prevalecendo a idéia de, ao agir, tomar a dianteira, de ultrapassar; não há diálogo, trocas; 2) uma introversão, de certo modo também egoísta, mas fixando o indivíduo a sua energia psíquica no seu mundo interior, às vezes de grande riqueza, alimentado por buscas mentais ou pela imaginação ; são indivíduos que parecem fechados, prudentemente críticos e contidos, mas que sempre tentarão se impor ao mundo, muito mais por sua inteligência que por suas ações.



LC aos 8.


LC, desde cedo, se encaixou neste segundo tipo. A ausência do elemento água na sua carta astral tem certamente muito a ver com o enquadramento a que me refiro. A falta deste elemento num mapa é responsável, em grande parte, por dificuldades de convívio com o mundo circundante, pois afeta negativamente a sociabilidade, havendo pouca receptividade para o que vem de fora. No caso de LC, o elemento ar compensou esta carência. Reservado e tímido, primogênito numa família de muitos filhos, foi educado num ambiente familiar conservador, vitoriano. Seu o pai era pastor da igreja anglicana, muito rigoroso e severo. LC sentiu logo as pressões a que estaria sujeito, mas nunca, me parece, se deixou envolver pelos complexos que costumam submeter os tipos enquadrados no segundo item (evidentemente os tipos menos logrados), complexos como o de Cronos ou o de Isaac, que poderiam ser ativados, no caso, pelo planeta Saturno, um significador da figura paterna, da tradição, dono de sua vida econômica (casa II), condômino de sua inteligência inata (casa III) e tendo a ver também com o seu Meio do Céu, com amigos, inclusive os do pais, e projetos (casas X e XI), o planeta mais elevado de seu mapa.



No mapa de LC, Saturno, regente do signo de Capricórnio, é, como se disse, dono de sua segunda casa, a casa dos valores, da vida econômica. Nesta casa, temos informações sobre o seu destino financeiro, informações que se completam com outras, que o planeta Júpiter (Fortuna Maior) e a Roda da Fortuna oferecem. A segunda casa em Capricórnio aponta para atitudes muito conservadoras com relação ao dinheiro. Nesta casa estão definidas, ainda que inconscientemente, as coisas às quais uma pessoa se agarrará mais enquanto viver, falando-nos, no caso presente, tanto de um desejo de segurança financeira como de respeito à tradição. A capacidade ou a incapacidade de alguém para ganhos e aquisições está nesta casa. LC, como se sabe, foi preparado por seu pai para a carreira religiosa (muito segura sempre, principalmente para tipos menos afoitos fisicamente como ele) e foi através dela que ele teve acesso à cátedra na universidade de Oxford.



Era LC, sem dúvida, um conservador na aparência, mas intelectualmente, na sua expressão, um rebelde e até certo ponto muito “perigoso” sob o ponto de vista afetivo. O planeta Vênus, em conjunção com Marte, num signo de fogo (Sagitário), fala aqui de prazeres sensoriais, estetizantes, de atrações instintivas, de doces confidências, tudo ligado a afetos de atração voluptuosa e a estados emocionais. Aos mesmo tempo, valorizava bastante o mundo conservador, a segurança que ele lhe proporcionava materialmente, os favores que, pelo seu aspecto de bom moço e confiável, obteve dos outros. Não foi por acaso que permaneceu como professor de Oxford por longos 26 anos, até 1881. Sua obra literária e sua sexualidade, porém, pelo seu inusitado, sempre constituiram um problema que ele parece ter sabido contornar, sobretudo se levarmos em conta os valores da sociedade em que vivia e cultuava, muito permeados, como se sabe, por desvios sexuais (a homossexualidade e a pedofilia das elites no período vitoriano).





Saturno está posicionado na sua nona casa (setor do magistério superior), no signo de Virgem (interceptado), em conjunção com o asteróide Juno (que prefiro chamar de Hera), este sempre um indicador de tendências conservadoras, apontando para o que é legal, oficial. Este asteróide é um dos regentes de Libra, signo que governa o Meio do Céu e a casa XI do mapa de LC. A conjunção Saturno-Hera sugere benefícios mundanos, profissionais, e também a participação favorável de amigos. A interceptação Peixes-Virgo, no eixo III-IX, aponta para estudos religiosos, mas não nos deixa admitir uma prática religiosa sincera. Em LC, religião de fachada, usada apenas para fins profissionais. Ele lia os textos religiosos, transmitia-os mecanicamente, nunca se identificando com eles. A atenção e o cuidado que dedicou à sua formação religiosa não tiveram outro objetivo senão o de garantir mundana e hipocritamente, tivesse ele tido consciência disso ou não, a sua posição no sistema no qual estava integrado.

Quanto ao Meio do Céu no signo de Libra, as indicações que dele podemos obter cooperam com o que o trígono Saturno-Mercúrio proporciona. Este ângulo do mapa descreve como são conduzidos os vários papéis que alguém assume publicamente. Ele fala do perfil público que este alguém terá na sociedade em que vive. Libra, neste ponto, indica que LC se estabeleceu profissionalmente como religioso e professor muito mais por iniciativa de seu pai e pela ação de amigos do que por uma decisão sua, pessoal. Libra nesta posição revela também que a posição mundana que obteve foi por ele conduzida até com muita diplomacia, com muito tato, equilíbrio, um jogo social que ele parece ter dominado muito bem. O planeta regente do MC é Vênus, na primeira casa, em conjunção com Marte, regente da quarta casa, a da família. Mais dados, pois, a corroborar o que acima está dito: a vida profissional de LC não foi buscada por ele, não foi uma conquista sua. Ao contrário, a vida profissional é que foi a ele.


A Roda da Fortuna em conjunção com o MC, em Libra, indica que a vida profissional de LC foi beneficiada de alguma forma por essa sua postura de “não-auto-afirmação”. Recebeu a cooperação dos outros, ganhou aceitação, cultivou amizades, deixou-se conduzir; foi assim que se estabeleceu profissionalmente. Lembro que bem antes do final de sua vida, LC, ao entrar nos seus cinquenta anos, conforme registros disponíveis, já estava muito bem acomodado financeiramente, embora exteriormente não demonstrasse sinais de riqueza. Morava na mesma casa de sempre, continuava a lecionar, nenhuma mudança notável aparentemente, mas tranquilo com relação à sua vida financeira.



As relações entre a Roda da Fortuna e a Lua sugerem que o grande reconhecimento público só viria mais tarde, depois de sua morte (A Lua é regente da casa VIII, a da morte). Tal reconhecimento tem ceertamente como suporte o trígono que seu Sol faz com o MC e consequentemente com a mencionada Roda. Este trígono nos diz que a maelhor realização de LC estava, como de fato se constatou, liga à sua cada III, a dos escritos, de inspiração aquariana.




Quanto a Júpiter, regente do ascendente, posiciona-se ele no final de Aquário, na início da casa III, o que nos permite admitir uma expansão por escritos, ganhos por amigos, um certo sucesso social e popularidade (LC se tornou “popular”, digamos, pelo seu lado aquariano, como veremos), o que colabora com as indicações solares. Com Júpiter dominado por Urano, temos idéias de não confinamento mental e de uma liberdade quase anárquica nesta área; há sempre propostas de inventividade, de visão inovadora no modo de ver as coisas e de falar ou escrever sobre elas. Estas características LC as viveu muito em função dos outros (forte traço aquariano), isto é, de um público, haja vista que boa parte de seus inventos e jogos de palavras, senão a totalidade, sempre procuraram proporcionar algum benefício às pessoas, fazendo-as conviver melhor, divertindo-as, ajudando-as a participar de grupos, como o chamado Nyctograph, o triciclo, as regras para identificar o dia da semana de qualquer data etc. Jogos, brincadeiras, “gadgets”, trocadilhos, passatempos, tudo aquilo que em língua inglesa podemos classificar como “trifle”, produções aparentemente frívolas, insignificantes até, mas espirituosas, e que, no fundo, no caso de LC, serviram para não só ajudá-lo a se colocar melhor socialmente como a se aproximar de pessoas, reunindo-as, facilitar a sua a convivência de todos. Quanto a este particular, aliás, lembro que um dos traços mais salientes de muitos aquarianos, que LC aqui revela, é o desejo de agradar, de ser atencioso, de colaborar de algum modo.

Astrologicamente, como se sabe, o Sol se exila em Aquário. Este exílio oferece para os aquarianos, via de regra, uma certa dificuldade para a sua afirmação, produz um enfraquecimento da vontade solar, menos concentração, leva-a a um certo espalhamento, desconcentra-a, dificuldade que muitos procurarão compensar. Esta compensação costuma se dar pela exacerbação de alguma atitude ou postura diante da vida, fazer sobressair algum aspecto da personalidade, seja fisicamente (um esporte, radical muitas vezes), mentalmente (vanguarda literária, artística), por algum descomedimento (comportamento antissocial), por alguma extravagância (decoração corporal ou ambiental escandalosas), expressões pelas quais esses aquarianos se afirmarão, se farão notar e destacar. Muitos, como é o caso de LC, se tornarão “únicos”, diferentes, Mozart, James Joyce, Franz Schubert, Manet, Virginia Woolf, Santos Dumont, James Dean, Jules Verne, são alguns exemplos. Saliento que o planeta Urano, num mapa, fala das faculdades inventivas de alguém, da sua inserção na vida moderna, incluisve da sua adesão a ondas e modismos de vanguarda, do desejo de alguém se tornar vedete de algum modo.



Essa forma de compensação a que me refiro tornou LC, na sociedade em que vivia, uma espécie de “entertainer” (algo até certo ponto impensável para um reverendo), um “charmeur”, traço de sua personalidade que ele cultivou bastante. Longe do mundo oficial, foi mímico, contador de histórias e até um razoável cantor, apesar da sua famosa gagueira, um tormento desde a infância, que era preciso também compensar.

Quatro astros em LC são particularmente responsáveis por essa perturbação da fala de origem psicomotora, caracterizada, no geral, pela repetição espasmódica de sílabas e paradas involuntárias no início das palavras. Urano, como se sabe, é também o planeta responsável por movimentos físicos involuntários, espasmos, desde cãimbras, tiques nervosos até disritmias e manifestações epileptiformes (na época, um dos diagnósticos, diante dos desmaios de LC). Na gagueira, lembremos, há um bloqueio do centro intelectual da fala (aspecto Mercúrio, a fala, e Saturno, o bloqueio, o mundo paterno). Atividades “femininas”, porém, como o canto, podem acontecer normalmente (casos de alguns cantores gagos), ajudando a superar o problema. A gagueira se caracteriza sobretudo por uma obstrução, por um medo de alguém se expressar, o que leva o gago às vezes a querer verbalizar tudo muito apressadamente, como verdadeiras rajadas verbais. Além de Mercúrio, Saturno e Urano, a Lua, em conjunção com o ascendente, é outro fator altamente perturbador com relação à sua “presença” no mundo, à sua maneira de aparecer para os outros, além de responsável por certos traços paranóicos que encontramos na personalidade de LC.




LC chamou de “hesitação” diante da vida essa sua mistura de gagueira e de traços paranóicos, que o acometeram desde cedo. O radical “para”, em grego, quer dizer “à margem”, “ficar de lado”. Na paranóia, o que temos é um pensar (noein) de modo anormal, ficar fora da normalidade. É, no fundo, um delírio de relação onde costumam entrar mania de perseguição, ciúmes, absurdas inferências, que podem acabar levando à chamada esquizofrenia paranóide. A relação Urano-Saturno-Mercúrio no tema de LC parece ter muito a ver também com as suas famosas dores de cabeça (migraines), com manifestação de aura, e perda da consciência, de natureza epiléptica, que alguns passaram a denominar “síndrome de Alice no País das Maravilhas”. Urano, como se sabe, sob o ponto de vista aqui enfocado, é o planeta da neuromentalidade, sendo o responsável, em determinadas condições, por fenômenos de gigantismo ou de nanismo, aquilo que, em LC, se caracterizou como macropsia ou micropsia, a percepção alterada do tamanho dos objetos, deformações do mundo real, para mais ou para menos, traços que ele registrou em “Alice”.
A Lua, num mapa astrológico, nos revela muito sobre as tendências herdadas, os instintos de sobrevivência, as ligações emocionais, tendo a ver com a vida subconsciente. Fala-nos a Lua do passado, da infância, da vida familiar, da figura materna sobretudo. Enquanto a figura paterna de LC, como se disse, sempre lembrou a ele o mundo oficial, o limite, o dever, a obrigação, a ordem, a tradição, a figura materna, por outro lado, uma presença fugidia, que desapareceu relativamente cedo de sua vida, sempre lhe trouxe idéias de liberdade, de metas distantes, de independência, de idealismo, idéias que ele viveu através de sua literatura e da fotografia, nunca fisicamente. Neste particular, registra-se uma única viagem sua ao exterior, à Rússia, em 1867. Não podemos esquecer que o tema das viagens em LC se concretizou sagitarianamente por duas vias, a religiosa e a mental, esta com uma poderosa contribuição aquariana.


Já na infância LC possuía uma “reading list”. Precocemente dotado (muitos aquarianos “aceleraram” muito a sua entrada na vida; lembremo-nos, por exemplo, de Mozart), já aos sete anos, fazia parte das suas leituras um dos mais famosos livros de viagens, “A Viagem do Peregrino ("The Pilgrim´s Progress from this world to that which is to come”), de John Bunyan (1628-1688), escritor inglês, uma das maiores obras da literatura religiosa (astrologicamente, Júpiter em Aquário). Neste livro se mostra o acompanhamento do cristão por duas entidades, “Pliable” (Docilidade) e “Faithful" (Fé) no seu caminhar em direção da Cidade Celeste, em meio às mais variadas emboscadas: vozes demoníacas no vale das Sombras e da Morte, nevoeiros e sarçais na Terra Encantada, os lamaçais do Desencorajamento, a Feira das vaidades. Ainda está para ser feito, ao que me conste, um estudo de o quanto as idéias de Bunyan estão “presentes” na obra de LC. “A Viagem do Peregrino” foi considerado nos meios religiosos da Inglaterra (Bunyan, filho de sapateiro, foi ministro da Igreja batista e passou doze anos na prisão) como o “mais belo livro do mundo depois da Bíblia”.


O planeta Júpiter, regente do ascendente, é também “responsável” pelo nascimento de Lewis Carroll. Júpiter, como se sabe, tem ciclos de doze anos. Na segunda volta desse planeta à sua posição natal, o jovem Dodgson, então com 24 anos, em 1856, publicou um poema, “Solitude”, adotando pela primeira vez o pseudônimo de LC. Lewis é uma forma anglicanizada de Ludovicus, tradução latina do seu sobrenome materno Lutwidge. Carroll vem de Carolus, latim, de onde saiu o seu prenome Charles, Carlos. A inspiração materna, lunar, por trás deste segundo nascimento, é evidente.


Quanto ao nome Lewis, há mais: o nome Ludovico, uma latinização do nome do rei dos francos, Clóvis, proveniente este de “wig”, batalha, no antigo germânico, tomou o sentido, na Idade Média, de lúdico e também de vitorioso. Ludovico, Louis, Lewis, é nome que, pela sua etimologia e histórias de personagens a ele ligados, sugere espírito independente, generosidade (tornar o mundo mais feliz), capricho, ligação com o espiritual, movimento, liberdade (mas ancorada na tradição), improvisação... Charles (Carroll) vem da mitologia escandinavo-germânica, nome de um dos filhos do deus solar Heimdall, Karl (Charles, Carroll), nome que traduz uma idéia de virilidade, de independência, de criatividade, de abertura do espírito.


vitral em All Saints Church, Daresbury, Cheshire.

A presença de Júpiter, regente do ascendente, na casa dos escritos, fala também de sentimentos humanitários ou religiosos que, se não vividos, poderão ser pelo menos expressos em textos ou simplesmente verbalizados, simuladamente. Ou seja, pode-se escrever e falar sobre coisas nunca vividas ou nas quais não se acredita, até com muita propriedade e de modo muito convincente. Não esqueçamos que LC era também o reverendo Dodgson...



A “hesitação” de LC diante do mundo trouxe-lhe evidentemente alguns sérios problemas. Um deles foi o receio de ocupar postos mais elevados na carreira religiosa, pois teria que conviver bastante com o mundo “oficial”, discursar, usar muito a comunicação oral. Preferiu não se expor. Além disso, conforme anotações em seu diário, quando estava prestes a completar 28 anos (primeiro retorno de Saturno, que volta a ocupar a sua posição natal) parece ter ele passado por uma profunda crise religiosa, declarando-se “pecador” e “culpado”. Recebeu, contudo, as ordens do decanato, instância hierárquica inferior, pela qual ingressou na carreira, em fins de 1861, aos 29 anos, definindo a sua situação profissional.


A “hesitação” do reverendo Dodgson deve ter sido também a responsável, até onde se sabe, pela ausência de mulheres na sua vida sentimental. Tímido e inseguro diante delas, tornava-se completamente diferente com as meninas e nos meios onde podia soltar o seu lado aquariano. Incapaz de estabelecer relacionamentos que levassem a uniões formais e/ou a uma sexualidade aberta, adulta, de que natureza fosse, voltou-se para as meninas, com as quais se tornava muito mais livre, fluente, intrépido até. Superou este problema, pelo menos em parte, compensando-o pela literatura e pela fotografia. Mas não deixou de se caricaturizar (uma punição? Um pedido de socorro?), em “Alice”, como Dodo, a repetição gaguejante da primeira sílaba de seu sobrenome paterno, Dodgson, grafado, segundo consta, nos seus cartões de visita, como “Do-do-Dogson”. O dodo, personagem que aparece em “Alice”, é, como se sabe, um pássaro desajeitado, perseguido até a sua extinção.


Palas Athena


Ceres

Tudo leva a crer que LC explorou conscientemente este traço de sua liberdade aquariana para compensar o desconforto, o temor, a ansiedade que o seu “lado oficial”, de religioso e de professor universitário, lhe causava. Os dois asteróides, Pallas (Palas Atena) e Ceres (Deméter), posicionados na casa três ajudaram de certo Júpiter na missão social acima apontada. O quincúncio Saturno-Urano é exatamente o revelador dos problemas que LC encontrou nessa área, problemas que tanto o perturbaram, o conflito, entre o “oficial” e o “rebelde”, a sua gagueira, as suas reticências diante da vida. Esclareça-se, porém: ele foi um “rebelde” que jamais bateu de frente com a sociedade vitoriana, puritana e conservadora na superfície, mas muito “pecadora” um pouco mais abaixo, como a vida de muitos aristocratas, artistas e escritores da época o confirmam.



família Rossetti


Tennyson


Como reverendo Dodgson, LC sempre se sentiu muito pressionado pelas responsabilidades decorrentes das posições que ocupava profissionalmente como religioso e professor. A exploração do seu potencial aquariano através da fotografia (Netuno em boas relações com o MC) foi colocado, sem dúvida, a serviço de sua sexualidade (a fotografia das meninas nuas ou quase nuas), mas ele soube usar também esta habilidade para socialmente, isto é, oficialmente, se promover, progredir. LC fotografou muitos dos “notáveis” do país, aproximando-se incluive de intelectuais do sistema, como Dante Gabriel Rossetti, Tennyson, Arthur Huges e outros.

Voyeurismo (Marte, o planeta da visão, em conjunção da Lua Negra) e fetichismo (a fotografia) se unem na personalidade de LC através das relações da conjunção Vênus-Marte, em semi-sextil irritante com Netuno (fotografia), e de Plutão (sexualidade), regente da casa XII, na casa IV. O quincúncio Saturno-Plutão, que entendo existir, aponta, por outro lado, para dificuldades de convivência que LC deve ter encontrado no seu ambiente familiar com relação ao tema da sexualidade (alguma experiência infantil?). Este aspecto indica tensões, uma atmosfera repressiva, sobretudo, pelo que Plutão significa (regente da casa XII), no que diz respeito à sua sexualidade (fixação na figura materna?).



A Lua Negra, por sua vez, tem algo a nos dizer sobre o que aqui se expõe. Em Capricórnio, ela nos fala de uma sensualidade reprimida e indica um papel muito importante dos pais, do pai, no caso, na educação sexual do menino e do jovem Dodgson. Há sempre com a Lua Negra neste signo indícios de repressão da vida instintiva, de auto-disciplina, de conflito entre o desejo e a sua recusa. A Lua Negra, como se sabe, num mapa, é um ponto focal de características “infernais”, algo muitas vezes incompreensível, um ponto kármico como dizem os hindus, um lugar onde onde há que se resgatar alguma coisa sob o ponto de vista sexual. Ao formar aspecto com algum planeta (Marte, no caso), a Lua Negra indica por onde a vida sensual teria a tendência de se exprimir. A contribuição do trígono Plutão-Lua, por sua vez, além de revelar emoções sob controle, traz outras influências até certo ponto positiva para esta problemática , amenizando-a talvez, apontando para contactos e mesmo convivência com crianças, que poderão se tornar fonte de alguma forma de criatividade, de sublimação.



Lewis Carroll


A concentração de planetas num determinado quadrante, como sabemos, fornece importantes indicações sobre o rumo principal que um indivíduo tomará na vida. No caso de LC, todos os planetas do seu mapa, como se disse, com exceção de Saturno e Plutão, estão concentrados no primeiro quadrante, fato que nos remete à idéia de que ele, de alguma forma, apesar de tudo, procurou saídas para a sua dificuldade na “struggle for life”. Com efeito, estão no primeiro quadrante não só os dois luminares (Sol e Lua) como o regente do ascendente e todos os chamados planetas pessoais (Lua, Mercúrio, Vênus e Marte). Saturno, regente das casas dois e três, encontra-se na nona casa, em Virgem, com alguma diginidade (triplicidade) pelo elemento terra. Plutão, regente da casa doze, como se disse, encontra-se na quarta casa, Áries, exaltado, portanto.
Há que se considerar também que a quase totalidade dos planetas (a exceção é Saturno) está abaixo do horizonte, região das chamadas casas noturnas, o que denota uma influência preponderante da vida subjetiva sobre a vida objetiva. O semiciclo inferior está relacionado com as coisas essenciais à sobrevivência, questões familiares, sua influência, e organização prática da vida diária (segundo quadrante).




Observações como estas, ressaltemos, têm sempre um valor conjectural e dependerão, é claro, de um exame mais aprofundado do tema. Tais observações nos dizem que LC, confirmando o que expusemos inicialmente, foi naturalmente uma pessoa voltada para o seu mundo interior, alguém que procurou abrir caminhos na vida levando muito pouco em consideração o mundo exterior, seja através de alianças, de propósitos ascensionais ou de envolvimentos com grupos ou coletividades; usou-os, sim, embora não tivesse conseguido ficar totalmente imune às suas poderosas pressões. Conseguiu escapar, sem dúvida, pela excepcionalidade de sua obra, pejorativamente classificada como de literatura “nonsense” ou infantil. Segurança econômica e produção literária (na época mais considerada como um “divertissement”), mais aquela do que esta, puseram-no nas “alturas” sociais (Saturno elevado na casa IX). A Lua, regente da casa VIII, a casa da morte, pode ser considerada também como um significador de que o real reconhecimento público de LC viria só depois de sua morte.

Quanto à distribuição elementar no mapa de LC, a ênfase está em fogo e ar, com uma significativa contribuição do elemento terra, já que Saturno, em Virgem, na nona casa, retrógrado, é dispositor de Mercúrio e, juntamente com Urano, do Sol. Predominância, pois, de dois elementos positivos, ativos. A combinação fogo-ar indica atividades muito mais voltadas para especulações mentais ao nível da linguagem (casa III aquariana) do que voltadas para expressões físicas (viagens) ou fins práticos (terra). De notável, quanto aos elementos, a ausência de planetas nos signos de água, já observada, reveladora, de um modo geral, de grandes dificuldades com relação à vida emocional. Emoção só para a fotografia, talvez, uma arte pisciana (Júpiter, regente do ascendente, dispositor da Lua, e corregente da casa III). Netuno, corregente da casa III, o planeta da fotografia, na casa II, sugere dinheiro ou conquistas mundanas e financeiras por ela.



Lembremos que LC tinha a sua sétima casa em Gêmeos, o que por si só indica dificuldades para compromissos sociais mais firmes. Gêmeos fala de inconstância, falta de receptividade, superficialidade, ênfase no mental dispersivo etc. Muita conversa, nada profundo, porém, nenhum “engagement” mais consequente. LC nunca se casou, embora, supõem alguns, tenha tentado fazê-lo com alguma amiguinha, não só com Alice. O Sol em signo de ar, a Lua, Vênus, Marte e o regente do ascendente (Júpiter) em signos mutáveis reforçam o que acabamos de dizer, não inclinam a compromissos formais e duráveis. Se se unisse matrimonialmente a alguma menina teria certamente muita ascendência sobre a parceira, esta, sem dúvida, uma reflexão que lhe deve ter passado pela cabeça. Contudo, nunca se atreveu...



LC tinha o seu ascendente em Sagitário, signo de fogo, mutável. O ascendente simboliza o modo como a personalidade de alguém se exprime mais imediata e espontaneamente. É a chamada personalidade visível. Representa a imagem que é projetada, aquilo que outros captam mais espontaneamente de uma pessoa. Não é, contudo, um retrato fiel de uma personalidade pois pode encobrir, abafar ou entrar em choque (o mais comum) com orientações mais profundas, do eu solar.

Sagitário no ascendente pode inclinar alguém a buscas distantes, falando-nos o signo de vida espiritual (vida religiosa, no caso de LC), desenvolvimento mental, viagens físicas, exploração, educação formal, ensino superior (deu aulas na universidade de Oxford), tudo muitas vezes impregnado de alguma forma de idealismo. Fisicamente, no ascendente, o signo pode alongar o corpo (longilíneo) ou levar à corpulência (o que não é o caso aqui). LC era alto, delgado, conforme depoimentos, com cerca de 1,80 m. de altura ou um pouco mais.



Quanto às patologias, o signo costuma predispor a problemas na região sacro-lombar, no coxo-femural, no fígado e na circulação (química do sangue). A Lua, muito poderosa no mapa de LC, no ascendente, fixa os problemas de saúde em males digestivos e/ou pulmonares, estes últimos muito acentuados no mapa, provavelmente herdados (via materna). A Lua, funcionando como “hyleg”, em conjunção com ascendente, aumenta os problemas emocionais, somatizações, sugerindo-nos tanto um grande desejo de contacto mais íntimo com as pessoas e, ao mesmo tempo, um grande temor de que tal acontecesse devido às obrigações decorrentes. A Lua, como vimos, faz parte da chamada “hesitação” de LC, um componente importante. Muitas contradições, muita vulnerabilidade a pressões externas, imaginadas ou reais, necessidade de contactos, expectativas, de um lado, e, de outro, barreiras levantadas inexplicavelmente, desconfiança, temores, uma sensibilidade exagerada. Há uma tendência à idealização da vida quotidiana, da vida familiar, à indolência e a caprichos, tudo muito bem encoberto por uma aura religiosa.


Como regente da casa oito, no ascendente, a Lua revela também uma poderosa influência feminina, materna, sobre a personalidade de LC, além de indicar fortes traços de uma sexualidade vinculada à infância, nela fixada, e à mãe. Parece-me inegável a influência lunar sobre a sua famosa atração por meninas nuas ou seminuas, tema que seus biógrafos sempre tentaram descaracterizar como pedofilia, algo nunca assumido de fato por ele, mas que o tornou certamente um ser dividido entre a tentação e a culpa.


A Lua, no mapa de LC, é o seu astro vital (hyleg, como o denomina a astrologia árabe, é o astro que se situa numa carta astrológica na proximidade do grau ascendente); foi a Lua por sua ação o principal fator responsável pela sua morte, em 1898, aos 66 anos. Com efeito, LC morreu a 14 de janeiro desse ano, no inverno portanto, vitimado por uma pneumonia (uma gripe inicialmente), em “Chestnuts”, nome dado à casa de uma de suas irmãs, em Guildford, onde está enterrado. Nesse dia, por trânsito, a Lua, o astro da morte e “hyleg”, e o planeta Júpiter, regente do ascendente, este exercendo funções anaréticas (planeta que ataca o hyleg), estavam conjuntos no Meio do Céu, na constelação de Libra, no mapa de LC.

A Lua, no corpo físico, além de problemas digestivos que pode causar, tem muito a ver com males pulmonares, bronquites, asma etc. LC, como se sabe, aos 17 anos, teve uma coqueluche, responsável por crônicos problemas nessa área corporal, causadores da sua surdez parcial. Saturno é, como se sabe, astrologicamente, o significador da surdez. Ao chegar à idade acima mencionada, um ataque (quadratura) de Saturno, por trânsito, em Peixes, à Lua, deixou LC parcialmente surdo.



Vênus e Marte por Boticelli

Dentro da primeira casa, encontramos ainda Vênus e Marte, conjuntos, aos quais já me referi. O primeiro é regente das casas VI (LC trabalhava como um “touro), X e XI; o segundo, das casas IV e V. Nesta conjunção, no elemento fogo, Vênus perde um pouco de sua umidade, tornando-se um pouco mais “egoísta”, mais “quente”, pela predominância do seco e pelo contacto com Marte. Estes planetas atuando juntos associam aqui desejo e satisfação, ou seja, instalando-se o desejo há que satisfazê-lo, até indiscriminadamente se for o caso, pois muita ansiedade e até sofrimento podem se manifestar se tal não ocorrer. Daí, frases como “Um dia para não esquecer”, usadas por LC para celebrar os encontros (desejos realizados, “pecados”?) com as suas amiguinhas. Daí, também as anotações suprimidas ou encontradas no seu diário através das quais se sabe que pedia a Deus que o ajudasse a servi-lo melhor. Evidentemente, o que temos aqui, muito atuante, é a censura sagitariana, já que o signo do centauro tem a ver com propostas superiores dessa natureza, como uma espécie de superego freudiano. Lembro que o planeta Júpiter revela num mapa, pela sua posição e aspectos, como somos ou não éticos. No tema de LC, ele ataca a própria casa que rege (Asc) e a Lua nela situada. Muitos conflitos, pois, quando pensamos nestas questões de censura ético-religiosa.


A quadratura Lua-Júpiter aponta para descontroles emocionais, auto-indulgência e mesmo imaturidade, que a sua dominante terra procurava conter. Daí, as constantes oscilações psíquicas entre períodos de grande entusiasmo e de profunda apatia. Ao atacar o ascendente, que rege, Júpiter acentua os problemas ligados à auto-complacência de LC, à sua imoderação emocional, tendências de dificílima contenção, que o tornaram um verdadeiro glutão emocional em eterna luta contras as pressões e os constrangimentos que vinham do elemento terra de seu mapa, do trígono Mercúrio-Saturno, responsável pelo seu lado “lógico”. Este trígono proporciou a LC um intelecto bem desenvolvido, organização mental, capacidade lógica, grande poder de retenção, a sua dominante terra, sempre em diálogo com a sua dominante ar, aquariana. Um diálogo que ele explorava magistralmente, mas que não conseguia incorporar à sua vida.

Pela conjunção Sol-Urano, LC é um aquariano, signo de ar, o que explica o seu grande interesse por “gadgets”, sua paixão por variados jogos, a inventividade dos seus textos, o gosto pelo jogo de palavras (aquilo que alguns chamam de seu lado “joyceano”, nunca analisado devidamente) e, também, a sua gagueira. A casa III, como se disse, é a casa da inteligência inata e da comunicação em geral. Aquário, de certo modo, põe a pessoa adiante de seu tempo. Urano, na casa, reforça as características do signo em termos comunicacionais.

Na casa III econtramos também informações sobre os relacionamentos de natureza informal, às vezes acidentais, cercados de muita imprevisibilidade, rompimentos etc. LC valeu-se muito das peculiaridades desta casa de seu mapa, usando-as para “seduzir” através de brincadeiras as pessoas com as quais se relacionava, as amiguinhas principalmente, construindo marionetes e bichinhos, modelados em pano, formulando enigmas, executando passes de mágica etc. A cauda do dragão, o nó lunar sul, junto de Urano, pode revelar aqui um certo desperdício de energia mental (a sua produção aquariana). O seu lado “sério”, de “reverendo”, está bem apoiado pelo trígono Mercúrio-Saturno, trígono que o segurou dentro de um sistema social até o final da vida.



Lewis Carroll

Foi o diálogo das duas notáveis dominantes do tema, ar (aquariana) e terra (virgo-capricorniana), que sem dúvida levou Dodgson desde cedo a se interessar pelos problemas de matemática e de lógica, que criava, muitos inclusive ocultos nos seus textos. Os jogos que testavam a razão, o prazer que tinha em forçar as leis da lógica aristotélica, os limites da linguagem simbólica, suas “brincadeiras” com os silogismos, todos estes ataques, enfim, se constituiram no meio (genial) que ele encontrou para dar vazão à sua rebeldia aquariana contra as estruturas do sistema (terra) no qual vivia e do qual dependia.



Quanto às estrelas fixas no mapa de LC, observo inicialmente que a conjunção Vênus-Marte, muito próxima da Lua Negra, está posicionada no final de Sagitário, uma região de nebulosas, ocupada por Acumen e Aculeus. Nebulosas, como se sabe, em astrologia, sempre apareceram ligadas a deficiências visuais, quando não à cegueira. Obviamente, esta referência tem que ser entendida metaforicamente, podendo então sugerir tais nebulosas desorientação, dificuldades com o uso da energia vital, sexual, alguma forma de incapacidade física, obliteração mental, indiferença espiritual, conforme a casa do mapa em que se encontrem e os planetas com os quais se relacionem.

Acumen e Aculeus constituiam, na antiguidade, o chamado ferrão de Escorpião, semelhantes as suas influências, segundo Ptolomeu, à ação conjunta de Marte e da Lua. Estas nebulosas contribuiram certamente para dificultar o desempenho de Marte na vida de LC, quanto às suas iniciativas, a atitudes mais abertas diante da vida e à sua sexualidade. A única saída para a difusa carga de vitalidade afetiva que a conjunção Vênus-Marte proporcionava estava no aspecto de sextil por ela formado com Júpiter (regente de seu ascendente), saída que LC aproveitou literariamente.

O planeta Mercúrio no mapa de LC recebe poderosa influência de Wega (Al Waki, para os árabes), estrela da constelação da Lyra. Esta constelação, conhecida pelos antigos gregos como a Lira de Orfeu, sempre esteve ligada a expressões artísticas. Mercúrio por seu lado descreve, dentre outras coisas, a inteligência e as funções de relação. As influências de Wega têm a natureza de Vênus e de Mercúrio. Sempre considerada uma estrela de natureza carismática, Wega é propícia, concedendo “algo mais” através do planeta que toca, algo muito semelhante ao que os deuses gregos, no mito, davam o nome de “kydos”, um favorecimento que distribuíam àqueles que queriam glorificar.





Cid Marcus Vasques

São Paulo, março de 2010

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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”