30 May 2010

GO ASK ALICE - sobre a Alice de Tim Burton

Adriana Peliano


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Quando a lagarta pergunta para Alice quem ela é, a menina não sabe responder depois de ter se transformado tantas vezes naquele dia. Quando Alice vê o livro que sua irmã estava lendo, não consegue entender para que serve um livro sem figuras e nem diálogos. Com figuras, diálogos e transformações se fez a história de Alice, uma viagem que partiu da Inglaterra vitoriana, atravessando o futuro como um vórtice de novos tempos.




Alice já foi a menina dos sonhos, criança ideal revelada nas fotografias de Carroll e nos seus desenhos de inspiração pré-rafaelita (1862). Nas ilustrações clássicas de Tenniel (1865 / 71) alcançou a sua representação icônica e essas figuras se tornaram para sempre referência básica e porto seguro.



Alice Liddell por Lewis Carroll


Página do manuscrito das "Aventuras de Alice no Subterrâneo" com ilustrações de Lewis Carroll



Alice por John Tenniel

Acordou do sonho dentro de outro sonho e se tornou um pesadelo sombrio nas cores soturnas de Rackham (1907). Foram muitos pesadelos desde aquele, chegando ao delírio da serial killer de Alice McGee (2000). Os espelhos de Balthus (1933) e Nabokov (1955) revelaram a sexualidade latente de nossa heroína, em dialogo com as ambigüidades encontradas na troca de olhares entre Carroll e Alice Liddell.


Alice por Arthur Rackham


Alice American Mc Gee

Alice dans le miroir por Balthus

Alice teve fantasias oníricas com os Surrealistas e pulou corda entre os sonhos transbordantes de Salvador Dali (1969). Grace Slick na música White Rabbit (1967) da banda Jefferson Airplane cantou a viagem psicodélica da menina e nos convidou a chamar Alice entres pílulas e cogumelos e alimentar a nossa cabeça. Não conheço outra menina de 7 anos tão viajada, entre tantas figuras, filmes, canções, encenações, representações, desdobramentos e proliferações, em sua transformação constante e seus diálogos múltiplos com diversas artes.


Alice por Salvador Dali


Fui assistir ao filme do Tim Burton seguindo esse labirinto. Não busco fidelidade mas potência de criação. Alice é pura transformação e multiplicidade. E o filme começou. Apesar de infinitamente apaixonada por Alice, não consegui me divertir. O filme, no mínimo, é muito chato. Gosto da atriz que faz a Alice, como acho que tinha potencial a sua atitude independente e questionadora, com lances feministas. Gosto também do filme apresentar um contraponto sombrio em relação aos esterepótipos açucarados, resgatando uma linhagem de ilustradores, que apartir de Rackham se aventuraram no pesadelo e não apenas no entretenimento.

O cenário, o figurino e a direção de arte revelam momentos de poesia e encantamento. O mais legal é quando Alice cai no poço e de repente, num jogo de inversões inusitadas, vai parar no teto de cabeça para baixo, com um desdobramento surpreendente. Sua chegada no país das maravilhas também é lúdica e mágica. Entretanto, o filme deixa de lado o humor e a reflexão do livro, em direção às cenas de ação e batalha. Claro que um pouco para justificar os efeitos do 3D já que diálogos inteligentes não causam impacto no virtuosismo da imagem.







Entretanto, o filme quase nada tem a ver com a originalidade de Alice, além dos personagens e frases soltas do livro inseridos em outro contexto. Não cobro fidelidade. Minha Alice favorita é a do  Švankmajer (1988), louca, soturna, estranha, quase sem palavras, num livro que é pura lógica e jogo de linguagem. Poderia ser uma deturpação, mas não é, pois mergulha no inconsciente do personagem em seu rito de passagem, com seus medos, angústias do crescimento, sexualidade nascente.








Como ilustradora de Alice alicedélica e alicinada, gosto de versões que subvertam uma visão açucarada e reducionista dos livros de Alice. Nesse sentido a outra grande contribuição do cinema para o imaginário de Alice é a de Jonnathan Miller (1966). Sua Alice é melancólica, emburrada, triste, uma menina em crise, como é a Alice do livro. A experiência do país das maravilhas é essencialmente uma experiência de desconforto em relação a si mesma e um mundo sem sentido. É claro que Alice é um convite à imaginação e ao sonho, mas sem sombra de dúvida não é um sonho feliz.





No filme de Miller não existem fantasias nem personagens caricatos e infantilóides, com cara de mascote de parque de diversão. Todos os personagens são humanos e o filme é em preto e branco, dando um contraponto a colorida e festiva Alice do Disney. Os personagens humanos revelam justamente em que medida os personagens de Carroll são críticas mordazes aos valores e comportamentos da Sociedade de sua época. São também representações dos tipos humanos que pertenciam a essa sociedade. Dessa forma, tal como no filme de  Švankmajer, tudo aquilo que se distancia do livro é feito para ampliar a nossa visão da obra, ao contrario do desvio óbvio de Tim Burton, que se perde de Alice ao invés de desafiá-la.

A Alice do Tim Burton se esvazia em clichês de filme de fantasia. Podia ser Nárnia aqui, Senhor dos Anéis acolá, os personagens parecem deslocados, vindos de outras histórias e sem saber por que estão ali. Já disseram por aqui numa leitura inconseqüente que Alice se tornou uma espécie de Joana D’arc. Mas o filme é essencialmente maniqueísta, enquanto a Alice de Carroll não tem moral, e essa foi uma de suas grandes inovações em relação à literatura infantil do período vitoriano. Enquanto Carroll conseguiu subverter as regras e convenções da rígida e repressora sociedade vitoriana, Tim Burton volta às lições de moral e o confronto comportado entre o bem e o mal.







Em função disso, os personagens são caricatos e lineares. A Alice é mais adulta e independente, mas perde as angústias e os conflitos da Alice original que a tornam tão fascinante. A Alice de Carroll, ao invés de ver toda a sua aventura como parte do próprio sonho como no filme de Tim Burton, tem medo de na verdade não passar de um sonho de outra pessoa. Sua identidade está constantemente em cheque. No filme, seu perfil de heroína é muito mais linear. Creio que o conflito da Alice de Burton é bastante revelador nesse sentido: será que é a mesma Alice de antes que está retornando ao pais das maravilhas? Alice na verdade já retornou ao pais das maravilhas muitas e muitas vezes, sempre com uma nova cara. Alice é mesmo mutante e metamórfica, mas por que então insistimos em cobrar que ela seja a “nossa” Alice, ou a Alice de Lewis Carroll? Ao mesmo tempo me pergunto se já Alice muda sempre, isso significa que todas as mudanças são igualmente válidas? Qual é o limite entre se transformar e se perder? Quem sou eu no mundo? perguntou Alice. Essa ainda é a grande questão?

Expectativas só atrapalham. Mas é importante lembrar que se esperamos demais foi porque também prometeram demais. O filme poderia ser uma releitura radical da Alice vitoriana, inserida em nosso mundo em diversas crises de sentido. Alice múltipla e plural é o sujeito contemporâneo em devir louco, questionando todas as identidades fixas. Ao criar uma outra história, Tim Burton se lançou no poço. Mas ao invés de encontrar a reinvenção que podíamos esperar dele, encontrou clichês e estereótipos. Não soube ousar, e ouso dizer que quando leu, não gostou de Alice para fazer tanta questão de contar outra história que ainda tem muitas figuras, mas muito pouco dialogo com tudo que Alice conquistou em nossas mentes, corações e sonhos. Alem de não fazer pensar, nem consegue divertir. A viagem de auto-reconhecimento de Alice, se torna no filme uma viagem de alienação, o nonsense vira vazio.

Entretanto agradeço ao Tim Burton e à Disney com todo seu investimento no marketing do filme, que fortaleceram de forma nunca vista, a presença de Alice no imaginário contemporâneo. Não pelo que ele responde, mas principalmente pelo que pergunta. Da nossa insatisfação podem surgir novas possibilidades criativas e existenciais. Com o filme tivemos a chance de ler o livro de novo, pesquisar imagens com diferentes linguagens, produzir novas visões em diferentes artes, compartilhar interesses, encontrar outros amantes da obra, nos emocionar, descobrir novidades em lançamentos de versões menos conhecidas da obra e enfim mergulhar, cada um ao seu modo, nesse mundo emocionante que ainda nos desafia a novas aventuras, já que a pergunta da lagarta nunca encontrará respostas pré-fabricadas.



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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”