13 December 2009

Análise filosófica da obra "Alice no país das Maravilhas"

Gabriel Faria Soares Pinto



Anna Gaskell

Considerações Iniciais
As aventuras de Alice no País das Maravilhas são fantasias oníricas e lúdicas sobre a realidade e a linguagem. Explorando a aparente ausência de sentido em sentenças gramaticalmente corretas, Lewis Carroll foi um dos pioneiros na pesquisa de uma nova ciência do discurso, por meio da simbolização. Aparentemente destinado ao público infantil, seus contos, na verdade ocultam questionamentos de toda espécie: lógicos ou semânticos, problemas psicológicos de identidade e até políticos, tudo sob capa de aventuras fantásticas.

A partir desse esclarecimento podemos dizer, embora inconscientemente em um primeiro momento, que a obra possui um caráter educacional ao passo que evoca no leitor um sentimento de confusão acerca da filosofia da existência. (Isso ocorre pelo fato de tudo na obra tomar rumos inusitados. Talvez um espelho de nossa existência). Para resposta de tais questionamentos existencialistas, e outros, cabe às instituições de ensino, enquanto educadoras, encaminhar o projeto de estudo filosófico visando à educação e ao conhecimento; formando, assim, cidadãos livres, conscientes e responsáveis.

Autor e Obra

Charles Lutwidge Dodgson, sem dúvida, mais conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, nasceu em Daresbury, Cheshire, na Inglaterra, em 27 de Janeiro de 1832. Estudou no colégio Christ Church, na Universidade de Oxford, e ali ensinou entre 1855 e 1888. Foi nomeado diácono da Igreja Episcopal Anglicana em 1961, mas considerava-se “praticamente leigo” no fim da vida. Seus interesses múltiplos incluíam a lógica, a matemática, a poesia, a narrativa ficcional e a fotografia, da qual chegou a ser considerado um dos mestres da época vitoriana (período que compreende a segunda metade do século XIX e primeira década do século XX, em que os movimentos sociais populares cederam lugar a um sistema social equilibrado grandemente, devido à estabilidade do Império Britânico, governado pela rainha Vitória (1819-1901)). Como fotógrafo destacou-se, sobretudo, nas fotos de meninas. Uma de suas modelos foi a pequena Alice Liddel, filha de um amigo, o Deão Henry George Liddel, e que se tornaria a heroína de suas duas aventuras mais famosas.

O cruzamento entre a obra ficcional de Carroll e a obra dedicada a problemas lógicos e matemáticos é que trouxe, para a crítica do século XX, um fascínio particular. Em várias publicações, artigos científicos, estórias ficcionais, todas sob a alcunha de Carroll, predomina o gosto pelos paradoxos e pelo nonsense. O conjunto desses elementos de lógica e anti-lógica é que produz o especial sabor de que se reveste a sua obra. Lewis Carroll partiu fora do combinado em 14 de Janeiro de 1898 em Guildford, Surrey.



Anna Gaskell


Capítulo Cinco: O Conselho de uma Lagarta
Acontece aqui uma pergunta crucial para a compreensão da obra. Levando em consideração o grande repertório sentencial criado por Lewis Carroll, que se utiliza de Sociologia e Filosofia para suscitar questões humanísticas, as dúvidas acerca do que ocorreu a priori começam a se esclarecer, podendo ser esclarecidas, também, futuras interrogações. Trata-se de uma pergunta de caráter existencialista. A atmosfera a qual somos apresentados refere-se a um jardim, onde uma lagarta, fumando um narguilé, se posta frente à pequena Alice como uma pensadora. Além deste fato, o pequeno animal se encontra sentado sobre um cogumelo*.

“Alice e a lagarta ficaram se entreolhando por algum tempo em silêncio.
Finalmente a lagarta tirou o cigarro da boca e perguntou, com a voz lânguida e
sonolenta:
- Quem é você?”

A primeira ação, anterior ao questionamento, foi a de simples observação. Ver e observar são atitudes totalmente paralelas, conquanto sejam realizadas pelos mesmos órgãos visuais. Ver, envolve apenas o esforço de abrir os olhos; Observar significa abrir a mente e usar o intelecto, entender, interpretar. Ao dizer: “Conhece-te a ti mesmo”, Sócrates deixava claro que o homem deve partir de suas concepções originais, para vir a ser e vir a compreender. Sendo assim, para se descobrir o ser (matéria) enquanto existência e também o mundo como morada, o homem, devia partir de uma análise cujo referencial era o próprio ser. Para isso, a observação interior se mostrava obrigatória. Não é o que vemos neste caso específico. Aqui se apresentam duas personagens que se olham reciprocamente. Mas por que tal observação?

Martin Buber, ao tratar da reciprocidade no diálogo, distingue três maneiras pelas quais o homem pode perceber o outro que vive diante de seus olhos. São elas: observar, contemplar e tomar conhecimento íntimo.

Primeiro, o observador propõe a si mesmo essa função (observar) e ordena passo a passo suas atividades, concentrando-se em gravar na sua mente o homem que observa. Segundo, o contemplador (ou observado, neste caso a lagarta), age de maneira despreocupada, pois se coloca em uma atitude que lhe permite ver o objeto (Alice) livremente. Sua ação é involuntária, portanto, não está absolutamente concentrado. A respeito do observador e do contemplador, mencionados, Buber apresenta também características semelhantes nos dois.

Eles têm a mesma posição: ensejam perceber o homem que vive diante de seus olhos. Esse homem só pode ser percebido porque é um objeto separado de suas vidas pessoais, ou seja, não fazem parte do círculo um do outro.

E, por fim, Terceiro, tomar conhecimento íntimo, é a percepção da totalidade do outro enquanto pessoa, o que é possível somente quando o homem se coloca de forma elementar em relação com o outro, quando ele se torna presença, quando “numa hora receptiva de minha vida pessoal, encontra- se um homem em quem há alguma coisa, que eu nem consigo captar de uma forma objetiva, que ‘diz algo’ a mim” (Buber, 1982: 42).

Sobre o “dizer algo a mim”, Buber começa a desemaranhar o diálogo que acontecerá após os três patamares da avaliação reflexiva – recíproca.

“- Quem é você?”

Ao falar em Existencialismo, não podemos deixar de fazer referência a duas palavras indispensáveis ao entendimento. Existência e Essência.

Quando avaliadas historicamente tem-se que Essência é anterior. De forma latina, Essentia, deriva do verbo Esse, ser. Meditando a respeito daquilo que se é, pensava-se na essência da coisa. Mais tarde surge em Latim outra designação: Existentia, palavra derivada de Existere, que significa: deixar um esconderijo. Tal qual seu significado, sua interpretação sugere um movimento para fora, ou seja, exibir-se. Traçando paralelos, por fim, temos que Essência, antes tida como o ser em si mesmo, é, agora, uma abstração máxima desse ser, em oposição a Existência, que nomeia aquilo que existe concretamente.

Durante anos, filósofos discutiram qual seria a ordem das interpretações. O maior filósofo e pensador existencialista, Jean Paul Sartre, diz ser a Essência o fator determinante nas coisas. E exemplifica: “Vejo sobre a mesa um corta-papel. Trata-se de um objeto que, para ser fabricado, o artífice teve de se inspirar previamente numa idéia, como se essa fosse uma espécie de receita, ao mesmo tempo que sua criação obedeceu a um fim utilitário, pois seria absurdo que sua fabricação tivesse sido gratuita, sem mais nem menos.”

Isso indica, portanto, que a idéia do corta-papel, ou seja, sua essência, foi pensada antes que lhe fosse concedida a existência. No caso da religião e do homem, Sartre aceita a existência de um ser transcendental (Deus) e de um ser material (homem) onde a existência precede a essência.




Anna Gaskell


Mas o que, então, significa dizer, em contrapartida as coisas e aos animais, que a existência é anterior a essência? Heidegger, o primeiro filósofo a lançar a corrente existencialista, explica que o homem primeiramente existe, descobre-se no mundo; depois, se define. (Define sua essência: bom, mau, piedoso, covarde...).

Podemos concluir, por conseguinte, que essa definição (descoberta da essência) só é possível por atos e ações que, ao longo da vida, vão sendo tomadas, e moldadas de acordo com a vontade do ser. De tal modo, esclarecidos, continuemos com a prosa de Alice e a Lagarta.

“-Quem é você?”
Não se pode dizer que esse foi um começo de conversa muito animador. Alice
Respondeu, meio encabulada:
-Não estou bem certa, senhora... Quero dizer, nesse exato momento não sei
quem sou... Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho
que já mudei muitas vezes desde então...
- O que você quer dizer com isso? – Inquiriu a Lagarta, severamente. –
Explique-se melhor!
- Acho que não posso me explicar, senhora – respondeu a menina. – Porque
eu não sou eu mesma, entende?
- Não, não entendo – replicou a Lagarta.
- Acho que não consigo ser mais clara, senhora – Alice respondeu com toda a
educação. Porque, para começar, nem eu mesma consigo entender. Esse
negócio de mudar de tamanho tantas vezes num dia só é muito confuso.”


Como esclarecido anteriormente, e a fim de dar continuidade à análise, um ser existe antes de ser definido por qualquer conceito e com o tempo vai se modelando. Assim, sua essência surge como resultado de seus atos, daquilo que faz de si mesmo, algo a se realizar. O homem será, conseqüentemente, aquilo que fizer de sua vida, de sua vontade que determinará seu destino. Quando a pequena se Alice se confronta em pensamentos dizendo: “[...] nesse exato momento não sei quem sou... Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então [...]”, ela deixa claro a inconstância de ser alguém em mutação. Tomemos as mudanças diárias da menina como um paralelo às nossas mudanças. Quando acordamos, ou nascemos, beiramos sempre o mesmo patamar de conhecimento, enquanto criança, pensando que o que se sabe é suficiente.

Quando avançamos em idade, de criança a adolescente, neste caso, deixamos parte da ingenuidade e abrimos nosso “casulo” para maiores interpretações. Ao dizer que não pode se explicar, Alice evidencia que faltam-lhe aportes filosóficos para o embasamento na questão. Levando em consideração o fato de Alice ser apenas uma criança e por isso não possuir conhecimento necessário, mesmo que inconscientemente, observamos, em contrapartida, que as questões por ela levantadas são grandes propulsoras de reflexões. Reflexões acerca do ser, acerca de mudanças do ser, e por este último, acerca das escolhas as quais o ser faz.

O fato de não saber quem é, não impede que Alice, ao longo da história, escolha seus próprios caminhos por onde trilhar. Mesmo não conseguindo entender as mudanças e o fim a que elas levam, ela escolhe. E o faz por ser livre.

Partindo da máxima que o homem, por existir e escolher seus caminhos, é pura liberdade5, devemos pensar (e concordar) que o mesmo tem de escolher aquilo que será no instante seguinte. Parafraseando Sartre, “o homem deve ser inventado todos os dias.” Caso contrário, não ocorre a criação de valores (essências) do homem enquanto ser, uma vez que tais valores são revelados pelas nossas escolhas e moldados pelo vir-a-ser (vitórias e/ou fracassos).

Vale lembrar que não há como fugir da escolha, pois mesmo a recusa em escolher é uma escolha; e que, sendo a liberdade o fundamento dos valores do homem (o que o torna totalmente livre) este passa, por conseguinte, a ser responsável por tudo aquilo que escolhe e faz.



Anna Gaskell


Por fim, a afirmação: “Esse negócio de mudar de tamanho tantas vezes num dia só é muito confuso.”, traz consigo a mesma e inexorável carga reflexiva do “Quem é você?” com apenas uma consideração a mais. Deixemos o mundo onírico do País das Maravilhas para uma breve, vitalícia, e por isso atual, contextualização.

Trata-se, apenas, de alguns reajustes. Basta substituir o “mudar de tamanho tantas vezes num só dia” por “inúmeras vicissitudes enfrentadas na jornada da existência.” Tomando “mudar de tamanho” por vicissitudes e “num só dia” por existência, em sua plenitude, obtém-se o perfeito enquadramento do homem atual.

Incluem-se nesta síntese final, todos os prós acima discutidos:

• Ser como se é (“Quem é você?”),
• Busca pela razão de ser (Diálogos),
• Escolhas e conseqüências (Experiências),
• Vir-a-ser, pelo incontestável fato de que a vida segue, mudando sempre.

Não posso, antes de finalizar, deixar de englobar, num uno conciso e coerente, os cinco filósofos-base desta análise (a fim de suscitá-la). Voltando ao passado, com Sócrates e Platão, é evidente que se faça uma analogia conclusiva com os pensamentos de Buber, Heidegger e Sartre.

No surgimento do ser, o homem não é nada (Sartre). Ao passo que ele cresce e descobre-se no mundo (Heidegger) através dos diálogos (Buber), deixa a caverna platônica da ignorância no passado (Platão), passando a entender os processos do mundo a partir de seus conhecimentos (Sócrates).


* Em referências históricas acerca do fungo, tem-se que em hieróglifos escritos há 4600 anos, foram encontrados registros de que os egípcios utilizavam os cogumelos em suas práticas religiosas e acreditavam que eles asseguravam a imortalidade. Constam desses documentos, que os faraós proclamaram-no “comida real” e ao cidadão comum era proibido até mesmo tocá-los. Em outros, também foram encontrados vestígios do seu uso por diversas civilizações.
Há relatos, por exemplo, de que os gregos atribuíam-lhes poderes mágicos e que os romanos os viam como "o alimento dos deuses". Na América Central, México e Guatemala, as civilizações pré-colombianas faziam uso de cogumelos nos seus rituais. O uso “Xamânico” ocorreu em muitas culturas, e desde os tempos remotos vem sendo propagado que ele é o
“Soma”, uma misteriosa força de vida, cultuada pela antiga religião Hindu. Persiste, também, o conhecimento tradicional dos cogumelos alucinógenos que, apesar de banidos, chegaram ao século XX. Atualmente os “Xamãs” o consomem para fazer previsões.




Anna Gaskell



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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”