7 December 2009

Doralice

José Carlos Peliano


Short literary story.
"Doralice is a unique being: witch and a fairy one. It is not in Wonderland, but loves Alice, his model of girl and young woman. Thus was born, that way indefinitely, neither here nor there, unpredictable. So it remained hidden in the beauty inside along with the beast, no one knew, nor her parents and siblings." (...)





Doralice é um ser inigualável: bruxa e fada numa só. Não é do país das maravilhas, mas adora Alice, seu modelo de menina e moça. Nasceu assim, desse jeito indefinido, nem lá nem cá, imprevisível. Por isso mesmo se mantinha escondida em si mesma a bela junto com a fera, ninguém sabia, nem seus país e irmãos. Sua família de fadas e fados, todos portugueses de Trás os Montes, ou detrás deles ou trazendo-os para ficar bem alto, longe da planície. Ela descobriu isto no dia que foi fazer a 1ª comunhão e a hóstia fugiu-lhe da boca e foi parar no chão, ela tentou abocanhá-la novamente, mas não teve jeito. O jeito foi transformá-la numa aranha peçonhenta, que ela saboreou-a com prazer e gosto. Pensou: melhor ficar quieta e não contar para ninguém, assim vou sendo uma e outra quanto melhor eu me sentir. E foi vivendo assim vestida de fada e sendo bruxa também. Às vezes se via fada, outras bruxa, fazia coisas do bem quando o sangue lhe corria calmo nas veias e fazia coisas do mal quando o coração quase lhe saía pela boca. Até o dia em que encontrou Ali Cê, fado descendente das Arábias, aliás um encantamento súbito, inescapável e definitivo das arábias! Quase saído de uma lâmpada mágica. Ele um gajo divino maravilhoso, ela a fina flor da flor mais fina das redondezas. Não teve jeito, seu coração batia-lhe no peito e onde mais fosse chamando sua atenção para o inevitável: seu coração queria ir ter ao coração dele de uma vez por todas. De uma vez por todas, portanto, o encantamento desceu-lhe às faces, ao coração, ao corpo e ela teve de correr aos braços de Ali Cê e neles ficar desfrutando o enlace. Ele nem se fala, ali Ali Cê se, se entregou. Encontro fadado às fadas e fados somente. Encontro marcado por coisas de contos de fadas. Mas a bruxa dentro dela disse: Alto lá donzela e a madame aqui como fica? E fica? Doralice repentinamente se deu conta que sua conta a pagar ao romance seria enorme se ficasse fada e bruxa, ou melhor bruxa e fada. Não podia se fazer de uma e outra na mesma freqüência que fazia. O que fazer? Não podia revelar o segredo a ninguém, nem mesmo a Leo, seu camaleão de estimação. Pensou, pensou, pensou. Foi para lá, veio para cá, parou, sentou-se, levantou-se e voltou a fazer tudo de novo. Horas e horas, dias e dias, mesmo quando se via nos braços de seu encantado. Sua alma gêmea, no entanto, o seu espelho Lis, que sabia de tudo e nunca disse a ninguém tampouco a ela, esperou chegar-lhe à frente e revelou-lhe o segredo dela que era também segredo de Doralice: eu sei de tudo e sei o que você deve fazer. Decida ser fada de vez! Somente cabe a você fazer isto, para tanto você deve ter uma ajudazinha de uma dose da infusão fantástica – lascas de brotoejas, cataporas, verrugas e uma boa dose de cuspe. Ela lhe mantém fada, mas deixa a bruxa amansada em você. Assim, quando você precisar, traga a bruxa de volta, use e abuse dela e volte a ser novamente a fada encantada e cheia de amor para dar! Assim fez Doralice para viver feliz para todo o sempre ao lado de seu amado! O que não é muito diferente do que a maioria das humanas deve fazer para deixarem de freqüentar divãs de analistas, terreiros, cartomantes, rezadeiras e novenas!


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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”