3 September 2009

Alice e Macunaíma

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Myriam Ávila

Alice through Macunaíma's looking glass.

(...) Macunaíma goes out in search of the foreign man. He desires a white woman, “Mani, daughter of cassava” and would not oppose to find the English girl, Alice.
As we look to the outsiders, it is our own image we see as outsiders that we are, topic mentioned in Macunaíma as well as in Através do Espelho. (...)


Capítulo III – O ESTRANGEIRO

Foreign adj. (...) 4. Situated in an abnormal or improper place. 5. Outside of a scope, range or essential nature; alien (...) 6. Not germane; extraneous; irrelevant.”
(The American Heritage)


Estranho, adj., Estrangeiro; externo; que é de fora; descomunal; admirável; esquisito; misterioso; alheio; esquivo.”
(Peq. Dic. Brasileiro)



“...Mas então, qual seria a Latitude ou Longitude em que estou?” pergunta Alice em seu percurso vertical para o País das Maravilhas. Fica claro, pelo que se segue, que ela permanecera na Inglaterra. A geografia do País das Maravilhas e a História do País do Espelho são a geografia e a História da Inglaterra. As referências culturais de Alice são reconhecidas pelos habitantes desses dois reinos, entre os quais há um Cheshire cat, um gato inglês. No País do Espelho há indícios identificatórios como as “atitudes anglo-saxônicas” do mensageiro do rei e o combate entre o Leão inglês e o Unicórnio escocês, além de jogos de palavras inseparáveis da língua inglesa. Há um esforço de delimitação do território lingüístico através das menções à França como área adjacente: a Rainha Vermelha pede que Alice diga “como é fiddle-de-dee em francês” e a aconselha a falar esta língua quando não conseguir se lembrar do nome inglês de alguma coisa.

Portanto, as duas terras visitadas por Alice são meras transposições em escala de seu próprio país, e esse país adquire sua individualidade ao limitar-se com a França. Ao colocar a França como “o outro”, a Inglaterra se torna “eu”. A “Quadrilha da Lagosta” (W, cap. X) menciona a questão:

“Que tem de mais que seja longe?” – diz a amiga com enfado.
“Há outra praia, você sabe? Outra praia do outro lado.
Quanto mais longe da Inglaterra, mais perto se chega da França.
Não tenha medo, meu querido, venha juntar-se à nossa dança.” (W, cap. X)


O mar é a faixa divisória, o vácuo que evita o contato íntimo com o exterior; tudo o que lhe fica além está encerrado naquela típica palavra inglesa, overseas. “Upon the other side”, a França representa a materialidade externa que define por oposição a materialidade da Inglaterra. Assim, os franceses são os “estrangeiros” por excelência, o “outro” que dá ao enunciador a medida de sua própria existência e que, por esta razão, não pode ser ignorado. Em Alice, o estrangeiro é mencionado o mínimo possível, apenas o suficiente para reforçar a existência de uma pátria, mas seu papel se restringe a isso. Sintomaticamente, o caramujo da “Quadrilha” está receoso diante da idéia de ser jogado ao mar em direção à França: é preferível que o Estrangeiro, o desconhecido, o outro, mesmo não sendo um inimigo, seja mantido à distância.

Um interessante comentário sobre o papel do Estrangeiro em Alice pode ser depreendido do episódio do Camundongo (W, caps. II e III). Ao encontrar o camundongo, Alice lhe faz uma pergunta e, como ele demora a responder, pressupõe imediatamente que ele não fala inglês: “Deve ser um camundongo francês, trazido por Guilherme, o Conquistador” (= se ele não é britânico, deve ser francês). E de fato, quando o camundongo começa a contar “the driest thing he knows”, trata-se justamente da história da submissão dos ingleses a Guilherme. Entre a passagem histórica lida pelo camundongo e a cena em que ela é inserida, nas aventuras de Alice, há um sugestivo paralelismo: os ingleses precisavam de líderes, e por isso ofereceram a coroa a Guilherme; as aves e animais, e também Alice, precisavam se secar, por isso se submeteram à liderança do Camundongo, que prometera secá-los. A leitura do trecho da História da Inglaterra é interrompido após as palavras “a insolência de seus normandos”, a história pessoal do Camundongo é interrompida de forma insolente. Esses paralelos apontam para a descendência normanda do Camundongo e, portanto, para sua posição como representante da contribuição estrangeira para a língua e a cultura inglesas.

O caso que ele conta, e que aparece em forma de cauda, é sobre um conquistador e um conquistado, cão e camundongo:

Tradução de Augusto de Campos.


Aplicado à conquista normanda, entretanto, o episódio não se adequa, pois o próprio texto citado pelo camundongo afirma que os ingleses se submeteram a Guilherme voluntariamente, e não pela força. A situação descrita no poema-cauda se encaixa, por outro lado, com a atitude imperialista da Grã-Bretanha, vista da perspectiva de um irlandês ou de um indiano, por exemplo. É claro que não estou sugerindo que o poema de Carroll propõe essa leitura, mas o fato de que ele coloca a disputa entre cão e camundongo no contexto social de um julgamento, logo em seguida a alusões sobre conquista, permite que o leitor veja no poema a descrição de um enfrentamento entre colonizador e colonizado. E em uma representação desse tipo, caberia evidentemente à Inglaterra o papel do cão. Como a Inglaterra e a França se enfrentaram sempre em termos de igualdade – uma jamais foi colônia da outra – insinua-se aqui um novo tipo de estrangeiro, um nível mais profundo de alteridade, ou uma nova dimensão da habilidade de reconhecer o Outro.

Em geral, evidencia-se nos livros de Alice uma atitude de retraimento com relação a estrangeiros. O totalmente estrangeiro não aparece neles. As únicas referências a semi-estrangeiros, além do Camundongo, que, apesar da ascendência normanda, já foi assimilado, são as menções a hipotéticos neo-zelandeses ou australianos que Alice poderia encontrar ao afundar terra adentro na toca do coelho. Tais pessoas, que a menina significativamente denomina “antipáticos” (querendo dizer “antípodas”), são anglófonos, embora andem “de cabeça para baixo” (W, cap.I). A certeza de que, mesmo atravessando verticalmente o globo terrestre, se encontrarão súditos anglófonos do Reino Unido é tão reconfortante que fatalmente fortalecerá uma tendência ao auto-centramento, com conseqüente indiferença para com os que não compartilham do mesmo background cultural.

A presente investigação sobre a atitude do texto com relação ao que está fora de seu universo cultural não é ociosa. O que se procura é testar a possibilidade de aproximar Alice e Macunaíma, duas personagens que, à primeira vista, têm pouco em comum. Tal aproximação só poderá ser feita através do “desdobramento” de cada um deles em direção ao outro. Examinando sua atitude diante das línguas, dos padrões culturais por elas veiculados e a reação de cada grupo de padrões ao que lhe é estrangeiro, é possível aprender a desdobrá-las. Para que Alice e Macunaíma se encontrem, é preciso descobrir fendas na anatomia de seus textos, através das quais se leve a cabo um processo hermenêutico.


Esse procedimento se inspira no livro A conquista da América, de Tzvetan Todorov, no qual a emblemática história da conquista do México pelos espanhóis mostra a necessidade de descobrir o outro para se descobrir a si mesmo. O que, para os fins do presente estudo, chamamos de Estrangeiro (o Outro, para Todorov), é o espelho, aquilo que, devolvendo-nos nossa imagem invertida, primeiro nos ensina a diferença.

Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu estou aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim. Ou então como um grupo social concreto ao qual nós não pertencemos. (....) desconhecidos, estrangeiros cuja língua e costumes não compreendo, tão estrangeiros que chego a hesitar em reconhecer que pertencemos a uma mesma espécie. (Todorov, Conquista, 3).

O avanço na direção do Estrangeiro, que Todorov divide em quatro estágios: descobrir, conquistar, conhecer e amar, é empreendido via linguagem, no sentido lato, não apenas através de palavras, mas também de signos, símbolos, etc. Foi a habilidade de lidar com o sistema de signos do nativo, e portanto, com seus sistema de pensamento, que concedeu a vitória aos espanhóis no México. “A conquista da informação leva à conquista do reino”(Todorov, 101) e “a linguagem sempre foi o parceiro do Império”(102).

A linguagem de uma nação colonialista tem significados diferentes para os habitantes de seu país de origem, onde não é questionada, e para os nativos da colônia, mesmo se os últimos a adquirem como primeira língua. Para os habitantes de uma nação dependente que conservam a memória de sua cultura nativa, a língua do Império, embora dominante, será sempre, em certa medida, uma língua de empréstimo. (E falar uma língua de empréstimo é falar pela boca de outro). Essa sensação de estranhamento com relação à língua que se fala pode ser detectada na literatura dos países dependentes.

A relação de uma nação dominante com sua língua não possui essa tensão e ambigüidade. O prazer com a plasticidade de sua língua é evidente nos ingleses, e se manifesta no seu amor pelo nonsense e pelos trocadilhos. Diferentemente de outras línguas, o inglês nunca foi colocado em uma camisa de força normativa , permanecendo livre para atingir um alto grau de plasticidade. Naturalmente, a literatura se beneficiou dessa liberdade:

Os ingleses amam a justiça mas odeiam as leis, e é essa aversão às leis que faz grande parte da literatura inglesa parecer “louca”. Um escritor francês obedece às leis da Academia que governam o emprego da língua francesa, mas um escritor tipicamente inglês como Shakespeare está sempre pronto a fazer a língua realizar coisas “loucas”, a inventar palavras novas ou usar metáforas de tirar o fôlego por sua ousadia. A conseqüência é que grande parte da literatura inglesa é “desconchavada”. Shakespeare quebra todas as normas dramáticas, os romances de Dickens se desenrolam aparentemente sem pé nem cabeça, não como uma obra de arte controlada e organizada, mas antes como um a correnteza desenfreada de um rio. Os franceses e italianos sempre gostaram de formas poéticas – o soneto, o rondó, o verso com número fixo de sílabas – mas os ingleses geralmente preferiam inventar suas próprias formas e, mais tarde, usar quantas sílabas por verso quisessem. Em suma, a literatura inglesa tem uma liberdade, um gosto pela experimentação, uma aversão às regras sem paralelo em qualquer outra literatura. (Burgess Wilson, 15)

O desprezo pelas regras pode levar a duas posturas. Uma provém de um raciocínio de efeito conformista: por que nos voltarmos contra nossas tradições literárias se essas nunca obedeceram a classificações? Não faz sentido a subversão onde nenhuma lei chegou a se instituir. A segunda toma a ausência de leis fixas como um convite à transgressão, já que aí os riscos para o transgressor são minimizados. Entre as duas pode-se chegar a um meio termo através de uma “transgressão controlada”, alguns prudentes passos aquém da subversão.

Nos livros de Alice, a necessidade de transgressão é sempre mantida sob controle em todos os níveis. No que se refere à linguagem, os limites são claramente delineados: as palavras “malucas” pertencem a um mundo “maluco”, o nonsense é um jogo que se pode abandonar quando começa a se tornar perigoso. Nomes podem se perder, mas só no interior de um pequeno bosque; saindo dele, estamos salvos. Mesmo no mundo invertido do espelho, apenas Humpty Dumpty imagina que pode forçar as palavras a significar o que ele achar melhor e, de qualquer modo, ele é uma personagem fadada a cair do muro e cujos cacos jamais poderão ser reunidos de novo. A loucura não invade a realidade. Além disso, mesmo nos sonhos de Alice, o nonsense e a invenção de palavras não são dirigidos contra o “inglês da Rainha” (o que acontecerá com Joyce).


As transgressões lingüísticas em Macunaíma são de outra ordem. Elas almejam a subversão, são uma demonstração de desdém pela tradição literária. As origens dessa atitude podem ser remetidas à relação dos brasileiros com sua língua herdada. O “bom falar lusitano”, na Carta às Icamiabas, é uma linguagem ainda nostálgica de suas origens, ainda estrangeira na pátria adotiva. Contra ela, Mário de Andrade constrói uma “fala impura”, um português mestiço. O português castiço é a representação verbal do povo que veio destruir a vida paradisíaca do nativo, do colonizador que trouxe o pecado ao sul do Equador: “cf cf cf cf Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil já tinha descoberto a felicidade”, escreve Oswald de Andrade no Manifesto antropófago. A rejeição do português de Portugal é a rejeição dos resquícios de colonização e tende a abranger a rejeição da cultura européia. “Contra Goethe, a mãe dos Gracos e a corte de Dom João VI”, grita Oswald em um único fôlego. A recusa da língua “madrasta”, sem outra que a possa substituir, equipara-se a uma recusa da linguagem como sistema verbal e sintático, além da recusa da cultura que ela veicula. Em seu manifesto, Oswald se volta contra as “idéias e outras formas de paralisia”, que pretende substituir por signos, instrumentos e estrelas cf.

A busca dos modernistas brasileiros por uma linguagem nacional, epitomizada em Macunaíma, não parte exclusivamente da revolta contra os padrões lingüísticos estrangeiros. É preciso considerar que já existiam duas línguas no Brasil: “o brasileiro falado e o português escrito” (M, cap.X).


Mas cair-nos-iam as faces, si ocultáramos no silêncio, uma curiosidade original deste povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa que falam numa língua e escrevem noutra. Assim chegado a estas plagas hospitalares, nos demos ao trabalho de bem nos inteirarmos da etnologia da terra, e dentre muita surpresa e assombro que se nos deparou, por certo não foi das menores tal originalidade lingüística. Nas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na vernaculidade,mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar. (...) Mas si de tal desprezível língua se utilizam na conversação os naturais desta terra, logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma que, com imperecível galhardia, se intitula: língua de Camões! (M, cap. IX)

Essa “dupla personalidade” tinha também a desvantagem de ser um empecilho ao progresso, já que a linguagem escrita não tinha flexibilidade para acompanhar o ritmo crescente do desenvolvimento tecnológico nas primeiras décadas do século XX. O português não era apenas uma língua importada, mas, além disso, estava se tornando estagnada. Conscientes de que, (como Pound escreveria alguns anos depois) “os bons escritores são aqueles que mantém a linguagem eficiente” e de que “quando a literatura de uma nação declina, a nação se atrofia e decai”, os modernistas se dispuseram a combater essa situação. No entanto, a revolta contra os cânones gramaticais e literários, freqüentemente acompanhada da revolta contra a colonização cultural (Oswald de Andrade queria produzir poesia para exportação), apresenta um impulso ambíguo: ao rejeitar o português caduco, os modernistas não deixavam de ansiar por parâmetros culturais estrangeiros, desde que vindos de países mais “adiantados”, como a Inglaterra, a França e os Estados Unidos . A cultura da metrópole não perdera o seu charme.

Em Macunaíma, a atração de uma cultura “civilizada” sobre o imaginário de um povo colonizado e subdesenvolvido emerge explicitamente em duas passagens, produzindo um diálogo metalingüístico com o tema nacionalista do livro, que se revela então em sua duplicidade. Como o tema do livro são as aventuras do “herói do nosso povo”, uma rapsódia tramada a partir de elementos da cultura popular, é extremamente irônico que o herói aspire por outra civilização, onde o seu título de nobreza, “Imperador da Mata Virgem”, não teria qualquer valor.

Na primeira das passagens mencionadas, os irmãos de Macunaíma estão tentando obter para ele uma bolsa do governo na Europa. Não conseguem, pois já há “mil vezes mil” pintores esperando para serem mandados para a Europa. Macunaíma, depois de um ataque de raiva, submete-se ao destino: “Paciência, manos! não vou na Europa não. Sou Americano e meu lugar é na América. A civilização européia de-certo esculhamba a inteirêza do nosso caracter.” (M, cap. XII). A impressão de que “as uvas estão verdes” é reforçada pela retomada do tema no próximo capíticulo, no qual Macunaíma entra em transe e vê, numa fonte, um transatlântico de partida para a Europa. Enquanto berra por uma escada para subir a bordo, a visão se dissolve, deixando em seu rastro uma nuvem de mosquitos. Fôra um encanto da Mãe d’Água para tentar o herói.


A atitude ambígua de Macunaíma diante do estrangeiro pode ser observada em diversos outros episódios. No capítulo XI (A Velha Ceuici) ele é perseguido por policiais que, apesar de trabalharem no Brasil, não sabem falar nem entendem português e têm aspecto de nórdicos:

De repente viu na frente um homem alto e mui lindo. E o homem era um grilo. Macunaíma teve ódio de tanta boniteza e chimpou uma bruta duma bolacha nas fuças do grilo. O grilo berroi, e enquanto falava uma frase em língua estrangeira agarrou o herói pelo cangote. (M, cap. XI)

A raiva que Macunaíma sente desses estrangeiros que, como se o desaforo de sua beleza não fosse suficiente, ou mesmo sancionados justamente por essa beleza, querem mandar no país dos outros, contrasta com seu comportamento hipócrita e pedinchão diante dos ingleses.

Em Macunaíma os ingleses têm a função de estrangeiro referencial, embora, à primeira vista, esse papel pareça pertencer a Wenceslau Pietro Pietra . Eles aparecem em dois trechos, primeiro de forma coltiva – os Ingleses – depois como o Inglês. Na primeira ocasião, é Macunaíma que vai à casa deles para arranjar um revólver – os ingleses cultivam pés-de-revólver. O episódio deriva de uma das lendas indígenas coletadas por Koch-Grünberg (lenda nº 50). Os índios acreditavam (ou melhor, representavam assim a realidade) que os ingleses cultivavam toda espécie de mercadorias em suas terras na Guiana, já que estavam sempre tão bem providos de tudo. O mesmo se dá em Macunaíma, onde têm meios de fornecer um Smith-Wesson ao herói, além de munição e uísque, cada mercadoria colhida de sua própria árvore. Nessa passagem, a ênfase recai sobre os bens obtidos, não sobre os donos e doadores, que são apresentados como pessoas neutras que não é preciso forçar a se desfazerem dos objetos, nem pedem qualquer pagamento por eles. Nenhuma dificuldade de comunicação é mencionada, mas Macunaíma, ao chegar em casa, se gaba de ter falado inglês para obter o revólver. O leitor, entretanto, já fora avisado anteriormente de que Macunaíma não sabia dizer nada, “nem sweetheart”, naquela língua.

Seu segundo encontro com um inglês é bastante diferente. O herói encontra o “bife” pescando “com um anzol de verdade”. Macunaíma está com fome mas não pode pescar porque não tem anzol. Ele se transforma então em peixe para tomar o anzol do inglês. Após três tentativas frustradas ele finalmente o consegue. Enquanto se afastam, Macunaíma e Maanape ouvem “seu Yes” dizer para Uruguaio: – Que posso fazer agora! Não possuo mais anzol que a piranha engoliu. Vou pra vossa terra, conhecido. Aí Macunaíma, “só de caçoada” o transforma na máquina Banco de Londres. Insinua-se nesse episódio uma crítica do imperialismo inglês. Transformado em Banco de Londres, o lucro do inglês é institucionalizado.


Na Carta para as Icamiabas, Macunaíma expressa a opinião de que o Brasil logo voltará a ser colônia, desta vez sob a Inglaterra ou os Estados Unidos. A dependência econômica e cultural parece ser o destino irreversível do país. Há indícios de que mesmo o Imperador da Mata Virgem, potencial defensor da cultura popular brasileira, se deixa envolver pelo charme da sociedade européia. Vai esquecendo o significado de frases que ouvia quando criança (M, cap. XI). Que será de suas raízes?

Se ele tivesse permanecido na mata, teria se conservado puro e preservado a memória da língua de seu povo. Mas, pode-se sonhar com pureza cultural em um país nascido da miscigenação? Porquer exaltar a miscigenação ocorrida nos séculos passados, da qual Macunaíma e seus irmãos são a imagem, e negar aquela que se processa no presente? O herói, preguiçoso mas esperto, escolhe ir atrás do estrangeiro, olhar para o futuro, preparando-se para a aldeia global de McLuhan. Escolhe São Paulo, sonha com a Europa e está consciente da presença crescente dos americanos. Quando ele finalmente deixa São Paulo, tendo recuperado a muiraquitã, leva consigo seus pertences mais queridos: a garrucha Smith-Wesson, um relógio Pathek e um casal de galinha Legorne. Todos eles de origem estrangeira. “Só me interessa o que não é meu”, escreve Oswald de Andrade em 1928, o mesmo ano da publicação de Macunaíma. Mas o que não é seu só lhe interessa como matéria prima, não como “caixa preta” que já vem com as instruções de uso. “Contra todos os importadores de consciência enlatada”, continua Oswald. Sintonizado com o espírito antropofágico, Macunaíma subverte o uso dos seus souvenirs: a garrucha e o relógio ele transforma em brincos e as galinhas, conserva em uma gaiola, como bichos de estimação.

De todo modo, se apenas para subverter, Macunaíma vai em busca do estrangeiro. Deseja a moça branca, “Mani, filha da mandioca” e não se oporia a encontrar a menina inglesa, Alice.


Ao se olharem os olhos do estrangeiro, é nossa própria imagem como estrangeiros que vemos. O tema é mencionado tanto em Macunaíma como em Através do espelho. No primeiro, apenas em um diálogo curto, como se não valesse a pena se demorar na questão. João Ramalho, personagem histórica, pergunta, ao ver Macunaíma:
– Quem és tu, nobre estrangeiro?
– Não sou estranho não, conhecido. Sou Macunaíma o herói e vim parar de novo na terra dos meus. (M, cap. XVI)


Macunaíma, o herói, é desconhecido em sua própria terra. A ironia da situação fica apenas sugerida no texto. Macunaíma toma o epíteto como mero engano, corrige João Ramalho e nem pensa mais no assunto. Ele se sente em casa demais para ficar inquieto com o caso. Nunca lhe ocorre que pode haver pontos de vista divergentes sobre ele.

Em Através do Espelho há uma situação similar, quando Alice e o Unicórnio são apresentados um ao outro:

(...) ele ia continuar cf, quando bateu os olhos em Alice: virou-se instantaneamente e ficou durante algum tempo olhando para ela como uma ar de profundo desgosto.
“O – que- é – isto?” disse afinal.
“Isto é uma criança.”respondeu Haigha ansiosamente, indo para a frente de Alice para apresentá-la e esticando as duas mãos na direção dela em uma atitude anglo-saxônica. “Nós a descobrimos hoje mesmo. É de tamanho natural e duas vezes mais cf cf cf!”
“Sempre pensei que elas eram monstros de fábula!” disse o Unicórnio. “Está viva?”.
“Ela fala”, disse Haigha solenemente.
O Unicórnio olhou sonhadoramente para Alice disse “Fala, criança!”. Alice não pode deixar de esboçar um sorriso enquanto respondia: “Sabe de uma coisa, eu também sempre pensei que os unicórnios fossem monstros de fábula. Nunca tinha visto um vivo antes!”
“Bem, agora que nós já nos vimos,” disse o Unicórnio, “se você quiser acreditar em mim, vou acreditar em você também. Combinado?”
“Sim, se você quiser”, disse Alice. (LG, cap. VIII).


Aqui não há tentativa de unificar as visões explicando o engano. Não se trata mesmo de engano, mas de uma inversão do país do espelho: as duas personagens pertencem a mundos diferentes. Deste lado do espelho é possível dizer que Alice pertence ao mundo “real”e o Unicórnio ao mundo da fábula. Mas Alice, embora vinda do mundo real, é, dentro do livro, tão “être de papier” quanto o próprio Unicórnio. Como ficção a partir de outra ficção, pode-se considerar que o Unicórnio se situa em um nível ficcional mais profundo do que Alice, que é uma ficção a partir de um modelo real. Ele teria mais o caráter de cópia, no sentido platônico, do que ela. Ambos, entretanto, estão presos à superfície plana do livro, embora Alice pense que pode sair da história e voltar para a vida real de novo. Já que eles têm o mesmo estatuto com relação a suas existências de papel e tinta, faz tanto sentido dizer: “o Unicórnio é um monstro de fábula” como “Alice é um monstro de fábula”.


É significativo que Alice, que pensa ser uma pessoa “real”, embora as outras personagens tentem abrir os seus olhos a esse respeito , submete-se a ser chamada de monstro fabuloso e comparada com o Unicórnio. Ou seja: ela compreende que o Unicórnio precisa rotulá-la para depois “traduzi-la” para o seu mundo e essa compreensão permite que ela se coloque no lugar dele, passando a ver-se como algo inusitado, como estrangeira.

Se há uma porta através da qual Macunaíma poderia entrar nos livros de Alice, ela se encontra nessa passagem. O diálogo entre Alice e o Unicórnio poderia ter lugar entre Alice e Macunaíma. Em alguns aspectos eles são totalmente diferentes. Mas há na “dreamchild” de Carroll um desejo pelo que não é como ela, pela “nightmare child”. Macunaíma, nascido negro, filho do medo da noite – Alice, concebida nas “white nights” (noites insones) de Carroll. Seu anseio pela menina branca é mais explícito, mas pode-se entrever um ar convidativo também nela:

Você pode ver só um pedacinho da entrada da Casa do Espelho, se deixar a porta da nossa sala aberta: e é muito parecida com a entrada da nossa até onde se pode ver, mas, sabe, pode ser completamente diferente dali para adiante. Oh! Kitty, que delícia seria se pudéssemos entrar na Casa do Espelho! Tenho certeza de que há, oh! tantas coisas lindas nela! Vamos fingir que existe um meio de entrar, de algum jeito, Kitty. Vamos fingir que o espelho foi ficando mole como gaze para que a gente possa passar por ele.

E Macunaíma enxergou lá no fundo uma cunhã lindíssima, alvinha e padeceu de mais vontade. E a cunhã lindíssima era a Uiara. Vinha chegando assim como quem não quer, com muitas danças, piscava pro herói,parecia que dizia – “Cai fora, seu nhonhô moço!”e fastava com muitas danças assim como quem não quer. Deu uma vontade no herói tão imensa que alargou o corpo dele e a boca humideceu: – Mani!...

Notas:
Esse comentário extrapola o âmbito de meu estudo, mas, como ilustração, gostaria de citar aqui os comentários de jack Ludwig sobre a obra de James Joyce. De acordo com esse crítico, as inovações de Joyce se devem ao isolamento que ele sentia como irlandês escrevendo em uma língua que considerava emprestada, o inglês. Desta forma, ele lutou para criar uma nova língua que pudesse chamar de sua. (cf. Ludwig, Jack, Recent American Novelists. Unviersity of Minnesota Pamphlets on American Writers, University of Minnesota Press, Minneapolis, 1962).
2 “... A Inglaterra e os Estados Unidos sempre se recurasam a constituir academias patrocinadas pelo governo com poder de regular as palavras dos cidadãos.”(Bishop, XXII).
3 Mário de Andrade escreve em uma carta para Tarsila: “cf cf cf
4 “Conquanto não exista um antagonismo declarado entre Macunaíma e o Gigante, pois este dorme em rede, casa com um Caapora nacional, tem duas filhas brasileiras, a verdade é que Piaimã simboliza o estrangeiro.”(PROENÇA, 28). Entretanto, Mário de Andrade declara que não tinha intenção de sintetizar o brasileiro em Macunaíma nem o estrangeiro no gigante Piaimã (cf. Campos, Morfologia, 157).
5 O Gato do Cheshire insiste em que ela é tão louca quanto os demais habitantes do País das Maravilhas (W, cap.VI). Conferir também o diálogo entre Alice e os gêmeos Tweedle: “Você sabe muito bem que você não é real”/ “Eu sou real!”disse Alice, e começou a chorar./ “Chorar não vai fazer você se tornar nem um pouquinho mais real,” comentou Tweedledee: “Não há motivo para choro”/ “Se eu não fosse real,”disse Alice – meio rindo em meio às lágrimas, pois a conversa era deveras ridícula – “Eu não poderia chorar.”/ “Espero que você não pense que essas lágrimas são reais?”interrompeu Tweedledum em tom desdenhoso” (LG, cap.VII).


Trecho do texto:
ÁVILA, Myriam. Alice through Macunaíma's looking glass.
(Dissertação de Mestrado em Literatura de Expressão Inglesa).
Belo Horizonte, Faculdade de Letras/UFMG, 1986.

Ilustrações: colagens de Adriana Peliano sobre ilustrações de Tenniel e imagens de Arlindo Daibert para Macunaíma, entre outras referências.

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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”