31 August 2009

Sobre a traduzibilidade de Alice no país das maravilhas

Zênia de Faria

Translation and intertextuality: the translator in Wonderland

In the case of Alice [...] we need to know a great many things that are not part of the text if we wish to capture its full wit and flavour.
Martin Gardner


O poeta exprime [...] o inexprimível, o pintor reproduz o irreproduzível, [...]. Não é, pois, surpreendente que o tradutor se empenhe em traduzir o intraduzível.
Paulo Rónai


Alice atravessa o Espelho. John Tenniel (Inglaterra, 1872)

This article offers some insights on the difficult task the translator faces when translating the popular poems and songs, proverbs and puns found in Lewis Carroll’s Alice´s Adventures in Wonderland, which are actually parodies of texts from England’s cultural heritage. On the one hand such parodies are responsible for the high degree of intertextuality in this text of Carroll’s. On the other hand they are fundamental elements for the structuring of the meaning of the narrative, particularly that with respect to the relationship between language and Alice’s identity. These parodies are in principle only poetically translatable through creative transposition. In the process, they inevitably lose the marks that indicated their genetic relation with their generating texts — their intertexts —, a relation which is fundamental for understanding the sense of Alice’s and other characters’s recitations in the book. Facing this observation, the translator finds himself before a paradox and a deadlock. The paradox being that, while capable of translating the text, the translator is incapable of capturing its intertextuality. The deadlock is that the marks of intertextuality present in the text are only recoverable through the correlation existing between the intertexture of the text in the source language and the intertexture of the generating texts within the same language.

Alice atravessa o Espelho. John Tenniel (Inglaterra, 1872)

Para o tradutor, assim como para Alice, é uma aventura entrar no País das Maravilhas. Para Alice, aparentemente, a aventura consiste em suas experiências, tais como suas mudanças intermitentes de tamanho, seus encontros com os animais e objetos humanizados com que ela se depara em sua trajetória. Para o tradutor, a aventura começa, quando ele constata que o que estrutura as experiências de Alice – aliás, o texto de Lewis Carroll como um todo – é a aventura da linguagem.

Quando dizemos aventura da linguagem, referimo-nos à linguagem, não apenas como sistema linguístico necessário à concretização da narrativa, mas como causa e consequência dos inúmeros poemas e diálogos que compõem o texto. Na verdade, o que se verifica nesses diálogos é uma sucessão de discursos sobre o discurso, um questionamento constante da linguagem, através de trocadilhos ou de outros jogos de palavras, de poemas, de expressões populares ou proverbiais.

É certo que o texto de Carroll, pela peculiaridade de sua estrutura linguística, pelos aspectos que acabamos de mencionar, pode ser colocado entre os textos considerados “intraduzíveis”, ou citando Haroldo de Campos, entre os textos “criativos”. Parece reforçar essa idéia o seguinte comentário de Martin Gardner: “muitos personagens de Alice são o resultado direto de trocadilhos e de outros jogos de palavras, e teriam tomado uma forma muito diferente se Carroll tivesse escrito, digamos, em francês” (1975, p.8-9).

J. C. Catford (1980, p.104), analisando “os limites da possibilidade de tradução”, considera que: “a tradução fracassa – ou ocorre a inviabilidade de tradução – quando é impossível colocar no significado contextual do texto da LM os traços funcionalmente relevantes da situação”.

De acordo com Catford, os casos de tradução inviável situam-se em duas categorias: “Aqueles em que a dificuldade é lingüística e aqueles em que é cultural” (grifo do autor). Segundo esse mesmo autor: “a impossibilidade lingüística de tradução ocorre tipicamente em casos em que uma ambigüidade peculiar ao texto da LF é um traço funcionalmente relevante; por exemplo, nos trocadilhos da LF” (grifo do autor).

Alice atravessa o Espelho. Salmo Dansa (Brasil, 2008)

Talvez tenham sido os referidos aspectos do texto de Carroll que tenham levado Monteiro Lobato – primeiro tradutor, no Brasil, de Alice no País das Maravilhas —, a considerar esse livro “uma obra intraduzível” (1973, p.6). Talvez tenham sido esses mesmos aspectos os responsáveis pelo fato de a maioria das traduções dessa obra, feitas no Brasil, serem apresentadas como “adaptações”.

Como propõe Haroldo de Campos (1976, p.24) “a tese da impossibilidade em princípio da tradução de textos criativos [...] engendra o corolário da possibilidade, também em princípio da recriação desses textos”. Para o mesmo teórico, a “tradução de textos criativos será sempre recriação, ou criação paralela, autônoma porém recíproca”(1976, p 24). Partindo-se, pois, do princípio de que a única solução para a tradução de textos considerados “intraduzíveis” é a recriação ou a criação paralela, as dificuldades encontradas no texto de Carroll podem ser superadas por um bom “tradutor-criador” e, tanto os trocadilhos como outros jogos de palavras, os provérbios ou outras dificuldades linguísticas semelhantes são, então, passíveis de tradução. Mesmo no caso dos poemas, as estruturas métricas ou fônicas não constituiriam obstáculos intransponíveis, de vez que, nesse caso, podem ser modificadas. Adotando-se, pois, a postura da criação paralela, o “intraduzível” em Lewis Carroll passa a ser traduzível.

Isso aconteceria, de fato, se superadas as dificuldades acima apontadas, o tradutor não se encontrasse diante de outras dificuldades que, no caso específico das Aventuras de Alice no País das Maravilhas, são bastante interligadas, ou seja, o problema do contexto cultural e o fato do texto dessa obra apresentar um alto grau de intertextualidade. Não podemos nos esquecer de que o referido livro foi escrito no Inglaterra, na época de Carroll, isto é, em um tempo histórico e em espaço cultural bem específicos. Citando Donald J. Gray (1971, p. VII), ambas as histórias [ele se refere às Aventuras de Alice no País das Maravilhas e a Alice através do espelho] retêm alguns dos aspectos particulares ao mundo das crianças para as quais essas histórias foram inventadas, desde o nome do gato das meninas Lidell, até a inclusão de canções, jogos, passagens de livros escolares, hinos e homilias, nomes de certas comidas, bebidas e, até mesmo restrições feitas às crianças de meados do século XIX, ou ansiedades comuns a elas.

Tais aspectos têm uma importância fundamental, tanto no que diz respeito à estruturação do texto de Carroll, como no que se refere ao processo de tradução. Na verdade, alguns dos elementos mencionados por Gray – tais como passagens de livros escolares, hinos, canções — funcionam como operadores de intertextualidade que, associados aos demais aspectos culturais, também lembrados por Gray, funcionarão como impasses para o tradutor.

Que As Aventuras de Alice no País das Maravilhas apresenta um alto teor de intertextualidade, é incontestável. Não apenas uma intertextualidade no sentido amplo que propõe Kristeva, mas no sentido restrito que propõe G. Genette (1982, p.8), ou seja, aquele texto que se concretiza “por uma relação de copresença entre dois ou mais textos, pela presença efetiva de um texto no outro”. No texto de Alice no País das Maravilhas, a maior parte dos poemas, canções e expressões proverbiais são paródias de poemas, canções populares e de expressões proverbiais bastante conhecidas dos leitores contemporâneos de Carroll. Aliás, Martin Gardner, em sua edição comentada de Alice, transcreve praticamente todos os textos que Carroll utilizou como textos geradores de sua obra. A justificativa que Gardner apresenta para inserir esses originais em sua edição é que, “muito do espírito da paródia pode se perder, se o leitor não sabe o que está sendo caricaturado” (1975, p.38) .

Alice atravessa o Espelho. Salmo Dansa (Brasil, 2008)

Vejamos, agora, algumas das dificuldades que o problema da intertextualidade e o problema do contexto cultural apresentam para o tradutor. Para a grande maioria dos teóricos da tradução, os aspectos mais importantes no processo de tradução são a equivalência de sentido, ou seja, a equivalência semântica dos enunciados e a correspondência formal. A tradução tem sido vista por certos teóricos contemporâneos como uma forma de intertextualidade, podendo o texto traduzido aproximar-se, por exemplo, da paráfrase ou de outra forma de imitação, dependendo do grau de equivalência semântica e de correspondência formal entre o texto da língua-fonte e o texto da língua-meta. Se a tradução é uma forma de intertextualidade, traduzir uma intertextualidade seria uma intertextualidade elevada à sua potência máxima. Porém, o que ocorre nesse tipo de tradução é que, entre o texto da língua-meta — produto da tradução — e os textos que geraram o texto traduzido, estabelece-se uma distância cada vez maior, diluindo-se, nesse percurso, as marcas efetivas de intertextualidade presentes no texto concreto do autor da língua-fonte. É o que acontece com a tradução do texto de Carroll.

De fato, no que diz respeito à tradução dos poemas que se encontram em Alice, o tradutor tenta manter a equivalência semântica, mesmo alterando certos aspectos formais dos poemas. No entanto, às vezes, nem mesmo a equivalência semântica pode ser mantida.

A intertextualidade, porém, além do aspecto semântico e formal, mas também através deles, conserva em si uma memória do passado. No processo de tradução, essa memória pode desaparecer, dependendo do tipo do processo de tradução adotado. Em geral, os poemas de Alice – mesmo se traduzidos com maestria – uma vez recriados, não contêm, para os leitores da cultura da língua-meta, nenhuma memória do passado. No texto de Carroll, essa memória do passado é importante, uma vez que, por exemplo, é, através dela, que Alice, devido às suas sucessivas mudanças de tamanho, tenta reencontrar ou definir sua identidade perdida ao entrar no País das Maravilhas.

Na verdade, a tentativa de busca de identidade de Alice é responsável pela existência de diversos poemas no texto de Carroll. Tal fato é facilmente verificável, se examinarmos alguns dos comentários do narrador, de Alice ou dos outros personagens, quando Alice recita certos poemas. Por exemplo, no Capítulo II, preocupada em definir sua identidade, Alice resolve recitar “How doth the little crocodile” como teste definitivo para saber se ela era ela mesma ou se ela era Mabel, sua amiga. O narrador adverte o leitor com o seguinte comentário a respeito da recitação de Alice: “Nem as palavras pareciam ser as mesmas” (CARROLL/SEVCENKO,1985, p.19) . A própria Alice diz quando termina de recitar o poema: “Eu tenho certeza de que essas não são as palavras certas” (CARROLL/SEVCENKO, p.19).Quando Alice encontra a lagarta, diz-lhe: “eu não consigo lembrar as coisas como antes “[...] tentei recitar ‘How doth the little busy bee’, mas saiu tudo diferente”(CARROLL/SEVCENKO, p.43) . Ora, aqui, ela faz referência não a “How doth the little crocodile” — o poema que ela havia recitado anteriormente, onde “nem as palavras pareciam ser as mesmas” — mas ao título do poema do qual ela se lembraria se tivesse certeza de ser ela mesma e não outra pessoa. Na verdade, “How doth the little busy bee” é o 1º verso do poema de autoria de Isaac Watts, parodiado por Carroll, em Alice no País das Maravilhas [...](apud GARDEN, P.38, n.4). Também o poema “You are old father William” é recitado por Alice, com a mesma finalidade, isto é, tentar se lembrar das coisas que ela sabia antes. Quando Alice termina de recitar esse poema, mantém com a lagarta o seguinte diálogo:

— Você não recitou certo — disse a Lagarta.
— Acho que eu não recitei completamente certo — disse Alice um pouco acanhada. — Acho que eu mudei algumas palavras.
— Está errado do começo ao fim — disse a Lagarta com muita certeza.

(Carroll/Sevcenko, p.44-45; grifo de Carroll)


Comentários como esses são feitos praticamente com relação a todos os poemas que Alice recita, querendo se lembrar das palavras certas, numa tentativa de reencontrar sua identidade. No nosso entender, o que o texto de Carroll propõe, de fato, através dessas recitações de Alice, é a busca da identidade pela linguagem.

Diante desses comentários dos personagens sobre as modificações constatadas nos poemas recitados por Alice, nós, leitores da tradução, nos perguntamos: por que razão as palavras não estão certas? O que está errado ou alterado nos poemas que Alice recita? A noção de certo, errado, alterado, só pode ser definida com relação a um quadro de referência preciso. No caso do texto de Alice no País das Maravilhas, esse quadro de referência é uma realidade cultural específica, ou seja, canções e poemas populares cantados e recitados pelas crianças da época de Carroll, e que ele parodia. É a existência e conhecimento efetivos de uma forma anterior, concreta, correta dos poemas que Alice recita, que permite aos diferentes personagens concluírem sobre as diferenças, as alterações, as modificações observadas nos poemas por ela recitados, e que se encontram efetivamente no texto de Carroll.

A insistência dos comentários sobre a diferença dos textos que Alice recita, com relação a um texto anterior, leva-nos a pensar que — mesmo tendo subvertido o texto anterior pela paródia — o autor não quer que esse texto anterior seja ignorado, não quer que as marcas do passado, de suas raízes culturais, sejam esquecidas. O texto de Carroll conserva as marcas desse passado, remete a uma realidade cultural anterior. De fato, em suas paródias, Carroll conserva, às vezes, o verso inteiro do poema anterior, modificando apenas uma ou outra palavra; ou ele conserva uma parte de cada verso, modificando a outra parte. Geralmente, Carroll, ao parodiar, conserva, às vezes, o mesmo ritmo, a mesma estrutura métrica e certas rimas dos poemas originais e, frequentemente, os inícios dos versos ou os versos inaugurais dos poemas de Alice são os mesmos que os dos textos parodiados, como se pode ver nos seguintes excertos de certos poemas :

Poema Original

How doth the little busy bee
Improve each shining hour,
[...].

How skillfully she builds her cell!
How neat she spreads the wax!
[...].

(Isaac Watts, 1674-1778)
( p..38-39, n.4)


Paródia de Carroll

How doth the little crocodile
Improve his shining tail,
[...].

How cheerfully he seems to grin,
How neatly spreads his claws,
[...].
(p.38)


Poema Original

“You are old , father William”, the young man cried,
“The few locks which left you are grey;
[...].
(Robert Southey,1774-1843) (p. 69, n.2)


Paródia de Carroll

“You are old father William”, the youg man said,
“And your hair has become very white;
[...].

(p. 70 )


Se os poemas do autor de Alice remetem a uma realidade anterior, os mesmos poemas recriados em outra língua não remetem a nenhuma realidade cultural: nem à da cultura inglesa, porque, modificados no processo de recriação, perdem as marcas que os ligavam a seus textos geradores; nem à realidade cultural de qualquer outro país em cuja língua tenham sido traduzidos, porque os poemas não mantêm nenhuma relação com o patrimônio cultural do país da língua-meta. É por isso que comentários como os do Grifo: “Está muito diferente do que eu costumava cantar quando era criança”(CARROLL/SEVCENKO, p.102) ou outros similares que citamos, não fazem nenhum sentido para o leitor do texto traduzido em outra língua. Aliás, se traduzidos, esses comentários acabam sendo compreendidos como mais alguns entre tantos outros dos “nonsenses” que caracterizam o texto de Alice. O fato de alguns de nossos tradutores-adaptadores eliminarem certos desses comentários não seria esclarecedor?

Alice atravessa o Espelho. João Fahrion (Brasil, 1934)

O problema de as marcas da intertextualidade se diluírem no processo de tradução ocorre, também, com alguns provérbios e expressões populares. Examinemos a famosa frase proverbial dita pela Duquesa: “Take care of the sense and the sounds will take care of themselves” (GARDNER,1975, p.121) . Essa frase, aparentemente, não apresenta maiores problemas para um tradutor de língua portuguesa. No entanto, traduzida, ela perde seu ponto de referência intertextual, pois trata-se de fato, da paródia do provérbio inglês: “Take care of the pence and the pounds will take care of themselnves” , conforme observa Gardner (1975, p121, n.4). Dificilmente, uma tradução, em língua portuguesa, conseguiria manter a equivalência semântica e a correspondência formal e, ao mesmo tempo, ser calcada em alguma expressão proverbial equivalente em língua portuguesa. Se, na recriação, eliminarmos a equivalência semântica, corremos o risco de estar eliminando uma chave importante do questionamento de Carroll sobre a linguagem, apoiado na oposição ou correlação “sense/sound”; se, por outro lado, mantivermos a equivalência semântica, mas anularmos os traços do provérbio — gerador da frase da Duquesa —, estaremos também eliminando, tanto uma referência cultural, como também uma parte do lúdico. Este último aspecto — uma constante do texto de Alice — é explorado pelo autor de várias maneiras, mas particularmente no tocante à linguagem, não só pelo tratamento que o autor dá à linguagem, mas também pelo que esse brincar com a linguagem, descobrindo suas potencialidades, reflete do mundo infantil, que é o mundo criado por Carroll. Com efeito, sobrepor a uma estrutura existente um outro léxico de sonoridade semelhante – que é o caso da frase supra-citada – é apenas um dentre os vários exemplos de exploração lúdica da linguagem nos textos de nosso autor.

O mesmo acontece, se examinarmos outros aspectos do texto de Alice no País das Maravilhas. Tudo leva a crer, por exemplo, que os personagens March Hare e Hatter — considerados loucos pelo Cheshire Cat, no capítulo VI, e que aparecem no capítulo VII, cujo título é “Um chá maluco” — foram criados a partir das expressões populares comuns na época de Carroll: “mad as a hatter” e “mad as a March hare” (GARDNER, p.90, n.7). A tradução pura e simples dos nomes desses personagens faz desaparecer o ponto de ligação com as citadas expressões populares, logo, faz desaparecer tanto uma marca cultural, quanto uma marca de intertextualidade.

Diante dos problemas mencionados, o tradutor de Alice no País das Maravilhas vê-se diante de um paradoxo e de um impasse. Vê-se diante de um paradoxo, se ele opta pela fidelidade da tradução; vê-se diante de um impasse, se ele opta pela transposição criativa.

O primeiro tipo de tradutor vê-se diante de um paradoxo, porque ele traduz o texto, mas não traduz a intertextualidade. Em outras palavras, sua reescritura, nesse caso, não remete a um intertexto, porque ao transpor o texto para a língua meta, ele apaga as marcas que ligavam tal texto ao intertexto. Assim, a reescritura desse tradutor não remetendo, de alguma forma a um intertexto — sobretudo aquele que parece mais evidente no texto do autor que está sendo traduzido — não se pode falar de intertextualidade do texto resultante desse tipo de tradução.

O segundo tipo de tradutor é, por exemplo, aquele que é adepto da recriação através da adaptação dos aspectos culturais da língua fonte aos aspectos culturais da língua meta. Esse tipo de tradutor, no caso de traduções de intertextualidades, tais como os casos referidos neste trabalho, — poemas e canções populares, provérbios e trocadilhos — que são de fato paródias, introduziriam em suas reescrituras não as marcas do passado cultural da língua-fonte, mas as marcas do passado do contexto cultural da língua-meta. Se a paródia já é uma recriação, uma reescrita, a tradução de uma paródia seria uma recriação de uma recriação. Assim, traduzir a intertextualidade seria afastar-se tanto do texto original, que o texto traduzido não seria mais uma tradução-criativa, seria uma forma de intertextualidade mais radical, isto é, uma imitação ou, mais precisamente, um plágio . Assim, o que resultaria do esforço do tradutor para traduzir Alice, seria apenas uma idéia aproximativa desse texto de Carroll. Aliás, é o que acontece, com relação a várias traduções do livro ou de partes do livro em questão. Prova disso é que alguns tradutores indicam suas traduções como “adaptações”, como já comentamos, ou ainda, que algumas passagens são simplesmente omitidas, porque, traduzidas, ficariam sem sentido no texto.

No caso de Alice, para os tradutores que não aceitam essa adaptação ao contexto cultural da língua-meta, traduzir a intertextualidade significaria, simplesmente, não traduzir esse texto de Carroll. Porque, em Alice no País das Maravilhas, as marcas de intertextualidade, na maioria das vezes, só são perceptíveis através da correlação da tessitura do texto da língua-fonte com a tessitura dos intertextos, isto é dos textos geradores escritos na mesma língua-fonte.

Tentar resolver o impasse, tentar eliminar o paradoxo – eis aí mais um possível episódio da aventura do tradutor no País das Maravilhas.

Alice atravessa o Espelho Oswaldo Storni (Brasil, 1966)

Notas

∗ Uma primeira versão deste artigo foi publicado nos Anais dos 1º e 2º Simpósios de Literatura Comparada. Belo-Horizonte:UFMG,1987, v.2, p.788-795. No entanto consideramos apenas a versão publicada no presente site válida.
“[...] many characters and episodes in Alice are a direct result of puns and others linguistics jokes, and would have taken quite different forms if Carroll had been writing, say, in French”. Todas as traduções das citações foram feitas pela autora deste trabalho, salvo observação em contrário.
2 Alice’s Adventures in Wonderland; Through the Looking- Glass.
4 CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Tradução e adaptação em português de Nicolau Sevcenko, com alguns dos poemas traduzidos por Geir Campos. Para as citações do texto de Alice, em português, nos referiremos a esta edição, salvo observação em contrário.
5 Idem, p. 43. Mantivemos os títulos dos poemas em inglês porque Nicolau Sevcenko traduziu ambos os títulos supracitados de maneira idêntica: “Diverte-se o fofo crocodilo”.
6 Todos os poemas transcritos no quadro acima foram extraídos de GARDNER, 1975. As indicações das páginas referem-se às páginas dessa obra.
7 Tradução cf. SEVCENKO, p. 86: “Cuida do sentido e os sons das palavras cuidarão de si mesmos”.
8 Nós traduzimos: Cuide dos centavos e as Libras cuidarão de si mesmas.
9 A Mad Tea Party.
10 Nós taduzimos: “louco como um chapeleiro” e “louco como uma lebre de março”.
11 Ver esse respeito, nosso artigo: “As fronteiras imprecisas da transposição criativa”, cf. referências (FARIA, 2000).

Alice atravessa o Espelho. Paulo Amaral (Brasil, sem data)

Referências

CAMPOS, Haroldo. Da tradução como criação e como crítica. In:______. Metalinguagem. São Paulo: Cultrix, 1976, p. 21-38
CATFORD, J.C.
Uma teoria lingüística da tradução.São Paulo: Cultrix, 1980.
CARROLL, Lewis.
Alice no País das Maravilhas.Tradução e adaptação de Nicolas Sevcenko,
Com alguns poemas traduzidos por Geir Campos. São Paulo: Scipione, 1985.
FARIA, Zênia de.
As fronteiras imprecisas da transposição criativa.In: COSSON, Rildo (Org.). O presente e o futuro das Letras.Pelotas: Editora da UFPEL/Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPEL, 2000, v.1, p.122-137.
GARDNER, Martin.
The Annotated Alice. Alice’s Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass by Lewis Carroll.Harmondsworth: Penguin Books, 1975.
GENETTE, Gerard.
Palimpsestes:la littérature au second dégré. Paris: Seuil, 1982.
GRAY, Donald J.
Introduction. In: Carroll, Lewis. Alice in Wonderland. New York: W.W.&Company, 1971.
LOBATO, Monteiro.
Prefácio. In: CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. São Paulo: Brasiliense, 1973.

Alice atravessa o Espelho. Lila Figueiredo (Brasil, 1972)

Zênia de Faria é Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Atualmente é professora da Graduação e da Pós-Graduação na UFG, onde leciona Teoria Literária, Literatura Comparada e Literatura Francesa.

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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”