8 August 2010

Pinóquio e Alice num jardim renascentista

Itamar Santos



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Collage by Adriana Peliano (Sarah Fanelli + John Tenniel)


Antes da apresentação do resumo de nosso trabalho, gostaríamos de comentar rapidamente algumas ponderações do filósofo espanhol Alfonso Lopéz Quintás, para quem: “A formação humana é realizada através do encontro com o real, em suas diversas vertentes. O encontro só é possível entre “âmbitos de realidade”, não entre objetos. Para se encontrar, em sentido rigoroso, o homem deve entrar em jogo com as realidades “ambientais” de seu meio ambiente. Entrar em implica assumir valores, possibilidades de agir com pleno sentido. Ao assumir ativamente valores e se encontrar com as realidades que os oferecem, o homem segue um processo de “êxtase”, polarmente contrário ao processo de “vertigem”.

A arte, em suas diversas atividades fomenta a experiência lúdica de participação no valioso, e faz ver como “contrastes” muitos pretensos “dilemas”, como “autonomia-heteronomia. Ao superar as cisões dilemáticas, o homem ganha uma especial abertura de espírito e compreende que chega a ser plenamente autônomo ao ser heterônomo, consegue ser totalmente livre e aceitar a direção de sua criatividade, torna-se rigorosamente concreto ao acolher o “outro”como companheiro de jogo.

A partir de sua perspectiva peculiar, a experiência estética nos abre a um conceito mais amplo e compreensivo da verdade, da racionalidade, do saber, do homem e da realidade. Com isso nos revela de modo nítido que a personalidade humana se desenvolve através da entrega extática a realidades que o oferecem campos de possibilidade de jogo, e é destruída quando o homem se deixa fascinar por realidades exaltantes que produzem vertigem.”(Quintás, Alfonso Lopéz; Estética; Vozes; 1992; p.13)




Nossas buscas
Numa elucubração sob a égide de um olhar talvez um pouco pretensioso ou até mesmo por demais imaginativo, poderíamos ser convidados a adentrar na atmosfera de sonhos, delírios, desejos e sentidos em que Alice e Pinóquio transitam com larga intimidade. Indo um pouco mais além, gostaríamos de apresentar um ao outro. E num entrelaçamento de histórias e vivências, tecer imaginariamente os fios para um diálogo reflexivo entre ambos, transpondo as formas meramente conceituais.

A verossimilhança ou não dos mundos imaginários de Alice e Pinóquio não seria, a nosso ver, a tarefa mais essencial. Porém, as buscas desses dois personagens passa a ser nossa investigação principal e nela está nossa curiosidade de comparação entre a identificação com o mundo real e o ficcional. Ao imaginarmos Alice em seu mundo nonsense encontrando Pinóquio no seu mundo de revolta, nos remetemos à idéia de ingenuidade e astúcia integradas. Seria tal idéia uma verdade absoluta das narrativas?

Ao final de nossa viagem aos mundos de Alice e Pinóquio, quem sabe poderemos responder a essa questão. Ambas narrativas apresentam contextos objectuais que praticamente protagonizam a história: “Mercê dos contextos objectuais, constitui-se um plano intermediário de certos “aspectos esquematizados” que, quando especialmente preparados determinam concretizações específicas do leitor.” (A personagem de ficção - Antonio Candido; Perspectiva; 1974; p.13).

Supomos apropriado o esclarecimento acima para que possamos embarcar nessa viagem percebendo melhor o que nos será mostrado.


Encontros e Facínios
Imaginemos Alice caminhando por um lindo e imenso jardim, com pontes, chafarizes, grutas, flores e plantas exóticas, além, é claro, de pássaros e borboletas habitando o cenário de um verdadeiro jardim renascentista. De repente, ela se depara com um grilo falante. Ele a informa que um menino está perdido naquele jardim e que busca por uma saída. O grilo pede que ela o siga em direção à criança perdida. Ela obedece ao pedido do grilo, que a leva até o menino. Ele se apresenta como Pinóquio e afirma estar perdido. Alice se espanta, percebendo que aquele menino não é bem um menino. Mas, sim, um boneco, ou seja, um boneco que fala e que pensa tal qual um ser humano.

Pinóquio não gosta muito de ser comparado a um boneco, sua vontade é de ser um humano. Alice acha por bem definí-lo como menino-boneco. Tal definição faz com que Pinóquio sinta-se um pouco mais confortável. Alice o convida a passear pelo jardim e quem sabe encontrar a saída para ambos, pois ela também está perdida. A menina questiona o longo nariz de Pinóquio e sua forma humana de agir. Ele diz que Gepeto, o seu criador, propositadamente o esculpiu com um nariz enorme.

Logo após dizer isso, Alice percebeu que o nariz do menino cresceu mais um pouco, o que a causou estranheza. E quanto a forma humana foi o resultado de uma fada azul, que apareceu durante a noite, enquanto Gepetto dormia. Ela com sua varinha mágica lhe deu essa forma, meio humana. A fada também afirmou, que para ele ser um menino de verdade teria que ser obediente, inteligente e bom.


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Collage by Adriana Peliano (Sarah Fanelli + John Tenniel)


No dia seguinte, ele relatou o acontecido ao seu criador, que decidíu enviá-lo para a escola. Só que no caminho da escola ele se perdeu, indo parar naquele jardim ( neste momento seu nariz aumentou um pouco mais). E você, o que faz aqui? Perguntou Pinóquio a Alice. Ela respondeu que há alguns minutos atrás estava sentada em uma árvore próxima do jardim com sua irmã. E que sua irmã estava lendo um livro, que ela repentinamente o tomou das mãos dela e, decepcionada, devolveu-o à irmã, pois ele não tinha figuras. “De que vale um livro sem figuras?”, ela disse. Meio entediada, saiu a caminhar e acabou dando com aquele imenso jardim e dele não estava conseguindo sair. Os dois decidiram encontrar a saída daquele lugar. Após um tempo de andanças pelo jardim, Alice e Pinóquio encontraram um coelho que corria muito e entrava numa toca. Eles seguiram o coelho e acabaram entrando em sua toca, um profundo buraco que dava para um lugar surrealista.


Era um mundo repleto de absurdos, digno de um criativo sonho, no qual figuras estranhas, como cartas de baralho que falam e andam, poções mágicas que fazem as pessoas se transformarem em gigantes ou em minúsculos seres. Eis que de repente um caminho lhes aparece, e eles começam a trilhá-lo e encontram uma raposa e um gato muito safados. Ambos dizem a Pinóquio que o lugar dele é no teatro, onde ficará bastante famoso e não na escola, como quer Gepeto. Alice tenta convencer Pinóquio a não acreditar neles. O que foi em vão porque, Pinóquio estava decidido a acatar a idéia dos dois animais. Sem ter o menor conhecimento do caráter do gato e da raposa, Pinóquio acaba seguindo os dois, deixando Alice para trás. Até que em um determinado momento eles encontram um homem numa carroça. O nome dele é Stromboli, dono de um teatro de marionetes. A raposa e o gato conversam com Stromboli longe de Pinóquio e sem que ele saiba, vendem-no para o tal homem.




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Collage by Adriana Peliano (Sarah Fanelli + Miró + John Tenniel)


Enquanto isso, Alice que esta bem longe de Pinoquio acaba encontrando a rainha de copas, que está preocupada com o roubo de tortas em seu reino. A rainha determina que um julgamento de início imediatamente para determinar, quem roubou suas tortas. E antes mesmo do final do julgamento ela ordena que cortem a cabeça de várias pessoas, inclusive a de Alice. Desesperada, Alice sai correndo do local do julgamento e vê Pinóquio passando numa carroça. Sem demora, Alice sobe na carroça enquanto Stromboli bate nos cavalos que puxam a carroça, para que eles corram mais. Chegam então a um circo e dão com o grilo falante, que revela o fato de Pinóquio ter sido vendido. Alice começa a chorar muito e suas lágrimas se transformam num rio. Quase afogando a todos, eles são levados por uma correnteza até o mar, onde uma baleia, os engole. E dentro da barriga da baleia encontram Gepeto que também foi engolido por ela. Gepeto contou à Pinóquio e à Alice, que saíra preocupado procurando por Pinóquio e acabou caindo no mar, onde foi engolido pela baleia. Pinóquio tem a idéia de fazer uma fogueira com bastante fumaça, na tentativa de fazer com que a baleia espirre. E desta maneira eles poderiam ser cuspidos para fora. Ele colocou sua idéia em prática e foi bem sucedido, todos conseguíram se ver livres da baleia.

Gepeto então pergunta a Pinóquio porque ele não foi para a escola. Pinóquio começa a mentir e seu nariz começa a crescer. A fada Azul aparece, intimando Pinóquio a parar de mentir. Se ele prometesse comportar-se, o seu nariz voltaria ao normal e ela o transformaria em ser humano. Ele prometeu que daquele dia em diante se comportaria. Alice, Gepeto e o Grilo Falante aplaudem a atitude do boneco. Alice então ouve o barulho de alguma coisa se mexendo na relva e o barulho aumenta. Neste momento, ela abre os olhos e vê um Coelho correndo. Ela pecebe que toda aquela vivência não passara de um sonho.

Na proposta de cunhar as histórias de Alice e Pinóquio, podemos perceber que muitos de seus anseios, angústias e desejos são sentimentos comuns, havendo um sólido entrelaçamento. Neste entrelaçamento de mundos, os sonhos, valores, paixões, medos, vaidades, apegos, ou seja, uma grande esfera de sentimentos e sentidos nos revelam a nossa similaridade.

Por um olhar mais conceitual nos será permitida a aproximação e o relacionamento entre os textos de Alice e Pinóquio. Iniciamos nossa investigação citando duas figuras de pensamento que fazem parte da estrutura de ambos os textos: a antítese - o bem e o mal - e a personificação (“Prosopopéia”) - “Figura de pensamento que consiste em atribuir qualidades, atitudes ou impulsos próprios do homem a seres inanimados, seres abstratos ou a animais.” (Literatura e Linguagem - Nelly Novaes Coelho - p.99). E é através dessas figuras de pensamento (antítese e personificação) que o ser humano tenta encontrar o ser ideal. O que seria o ideal neste mundo? Alice toma a tal porção e aumenta e diminuí de tamanho, mas não consegue se ajustar. Pinóquio, igualmente, não consegue também se ajustar á disciplina, daí resvalar em tantos percalços.

Permanecendo no campo conceitual, percebemos que muitas releituras podem surgir a partir de uma fonte ou remetente, como é o caso da história de Alice. Várias releituras foram feitas através de diferentes canais de linguagem (escrita, cinematográfica, teatral, computadorizada, musical). Cada canal mantendo sua correspondência entre suas formas significantes e os sistemas de significados através dos seus códigos. E nesta relação cabe a nós destinatários, com a nossa bagagem intelectual, preencher de sentidos esses códigos.



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Collage by Adriana Peliano
(Sarah Fanelli + John Tenniel)


Todo o processo, toda transformação que ocorre com Alice também se dá com Pinóquio. Talvez de uma maneira menos quantitativa e menos evidente. Tim Burton nos trouxe a última Alice com uma exultante imagem plástica na grande tela. O diálogo que o cinema faz com vários gêneros narrativos, permitindo uma transcrição ampliada da ilusão e da fantasia por vezes é bem-sucedido. Em outros momentos o exagero desestabiliza os componentes da nossa textura emocional, trazendo-nos a sensação de desordem. Poderíamos, quem sabe, concluir que a mensagem de Tim Burton seja um pouco ambígua. Segundo Umberto Eco, “Uma mensagem totalmente ambígua manifesta-se como extremamente informativa porque me dispõe a numerosas escolhas interpretativas, mas pode confinar com o ruído, isto é, pode reduzir-se a pura desordem. Uma ambigüidade produtiva é a que me desperta a atenção e me solicita para um esforço interpretativo, mas permitindo-me, em seguida, encontrar direções de decodificação, ou melhor, encontrar, naquela aparente desordem como não-obviedade, uma ordem bem mais calibrada do que a que preside às mensagens redundantes.”( A estrutura ausente, p.53, 1976).

É importante perceber que mesmo a Alice tecnológica de Tim Burton continua na sua busca. Assim como o homem na sua ânsia e busca de um modelo, do ser ajustado, aceito, realizado, recorre às suas crenças, atribuindo poderes a seres inanimados. Tudo se justifica na tentativa de obter o arquétipo ideal, trazido por uma hegemonia ainda presente. As narrativas de Alice e Pinóquio poderiam em determinado ponto até dialogar com outras narrativas, como por exemplo com “As viagens de Gulliver”, abordando um pouco da busca de uma identidade pelo colonizado, de uma hegemonia que transmuta valores humanos essenciais, que remete o ser humano aos limites de suas forças, fazendo-o vivenciar um angustiante destino. Tal sentimento de impotência e violação de valores, tem uma expressão bastante esclarecedora no fragmento a seguir: “Aqui principia um novo domínio, adquirido com um título de direito divino. Remetem-se navios na primeira oportunidade; os nativos são expulsos ou destruídos; os seu príncipes, torturados para que revelem onde está o seu ouro; concede-se plena licença para todos os atos de desumanidade e concupiscência, ao passo que a terra fumega com o sangue dos seus habitantes, e esta horda execrável de carneiros, empregados em tão pia expedição, são modernos colonizadores, enviados a converter e civilizar um povo idólatra e bárbaro.” (Viagens de Gulliver, Jonathan Swift, trad. OctavioM. Cajado-1971, p.274)

Entendemos que é conspícua a busca do homem, seja pela identidade, pelo divino, liberdade, aceitação, enfim, seja qual for a busca, ela emana movimento, inquietação. Provocando mudanças com inexoráveis insatisfações, progressos lineares, incongruentes decisões, tudo num repetitivo exercício. Exercício de tentar conhecer a si mesmo, e ai entra a arte, num de seus papeis mais fundamentais. O papel de descortinar direções. Umberto Eco em a Mensagem Estética cita: “Toda genuína representação artística é em si mesma o universo, o universo naquela forma individual, aquela forma individual como o universo. Em cada cadência de poeta, cada criatura de sua fantasia, está todo o humano destino, todas as esperanças, todas as ilusões, as dores, as alegrias, as grandezas e misérias humanas; o drama inteiro do real, que devém, cresce in perpetuo sobre si mesmo, sofrendo e gozando.” (Breviario di estética, p.134).

Por fim, após as ponderações acima, conseguiremos responder à pergunta inicial: a mensagem de Alice é somente o mundo do nonsense e a de Pinóquio o mundo da revolta? Dizer que o mundo de Alice é apenas o mundo do nonsense é reduzir de maneira significativa o sentido do texto, pois através de todo devaneio da personagem conseguimos contemplar uma vasta gama de sentimentos e sentidos. Por outro lado, dizer que o mundo de Pinóquio é apenas o da revolta seria igualmente redutor, haja vista que, a exemplo de Alice, carrega uma diversidade de sentimentos e emoções inerentes a todo ser humano.



BIBLIOGRAFIA

CANDIDO, Antonio. A Personagem de Ficção. São Paulo, Editora Perspectiva S.A., 1974
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. São Paulo, Editora Nacional, 1985.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura e Linguagem. Rio de Janeiro, Editora Vozes Ltda, 1993.
CUNHA, Maria Zilda Da. Na Tessitura dos Signos Contemporâneos. São Paulo, Editora Humanitas; Paulinas,2009.
ECO, Umberto. A Estrutura Ausente. São Paulo, Editora Perspectiva S.A., 1976.
Koch, Ingedore G.Villaça, Anna Christina Bentes, Monica M. Cavalcanti. Intertextualidade: Diálogos Possíveis. São Paulo, Editora Cortez, 2008.
Mininni, Giuseppe. Psicologia Cultural da Mídia. São Paulo, A Girafa Editora Ltda, 2008.
Quintás, Alfonso López, Estética. Rio de Janeiro, Editora Vozes Ltda, 1992.



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Collage by Adriana Peliano (Sarah Fanelli + John Tenniel)


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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”