31 March 2010

ALICE FAZ, AQUI SE CANTA: UM ASSUNTO REALMENTE ALICI... ANTE – PARTE 1



Ayrton Mugnaini Jr.


Nada como redescobrir um assunto interessante e perceber que esse assunto torna-se cada vez mais interessante. Pois bem, vamos a um destes assuntos. O que Ginger Rogers, Cary Grant, Roberto Carlos, John Lennon, Raul Seixas, Grace Slick, Susana Vieira, Tom Waits, Captain Beefheart, Elton John, Irving Berlin, Betty Boop, Sammy Davis Jr. e Danny Elfman têm em comum? Ora, muito simples: todos participaram de obras e/ou compuseram canções inspiradas em Alice, a famosa personagem do escritor e matemático inglês Lewis Carroll e que vem tendo surtos de popularidade já desde antes da adaptação em desenho animado de seu livro Alice’s Adventures In Wonderland (que se tornou mais conhecido simplesmente como Alice In Wonderland) pelo estúdio de Walt Disney em 1951 – conheci este desenho em 1970 e recentemente me surpreendi ao saber que era tão antigo; parece bem mais recente, fiel à atemporalidade da obra de Lewis Carroll, que talvez forma a grande trinca de romancistas infanto-juvenis anglo-saxões da virada dos séculos 19 para 20 ao lado do escocês J. M. Barrie de Peter Pan e do estadunidense L. Frank Baum de O Mágico de Oz.



Alice no País das Maravilhas (Walt Disney, 1951)


Peter Pan (Walt Disney, 1953)


O Mágico de Oz (direção Victor Fleming, 1939)

Só uma relação de blogs e páginas na internet dedicadas a Alice e Lewis Carroll já seria um grande assunto; para começar, temos uma prata da casa, o blog brasílico Alicenations.

E como hoje é meu desaniversário, vou comemorar com uma ligeira coletânea de gravações as mais diversas, dentre as menos óbvias, inspiradas em Alice. (Sim, se você quiser pode imaginar os linques dizendo “Beba-me”.)



A gravação mais antiga que tenho em mãos até o momento é “Alice, I’m in Wonderland”, de autor desconhecido e cantada por Vernon Dalhart num cilindro de Edison em 1918.

Vernon Dalhart – Alice, I’m in Wonderland


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Fonógrafo de Edison

Garota tão anticonvencional à sua moda e atemporal quanto Alice, a sensacional personagem de animação Betty Boop comparece com o desenho Betty in Blunderland, de 1934. Nele Betty (sim, a voz é da dubladora Mae Questel) interpreta duas canções (cujos autores ainda não descobri), “Rabbit Foot” e “How Do You Do” (esta última baseada em “Everyone Says I Love You” de Betty Kalmar e Harry Ruby e que, como canções de filme não têm idade, muitos devem conhecer de filmes dos Irmãos Marx e Woody Allen).

Betty Boop – Rabbit Foot/How Do You Do

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E aqui vão dois ancestrais diretos da versão Disney. Primeiro, o musical 'Alice in Wonderland', que estreou na Broadway em 1947, escrito por Eva Le Gallienne e Florida Friebus com música de Richard Addinsell, e que ganhou um belo álbum de discos 78 RPM com o elenco original, incluindo a própria Le Galliene como a Rainha Branca e Bambi Linn no papel de Alice. Vamos ouvir a canção da cena com o Grifo e a Falsa Tartaruga.

The Gryphon and the Mock Turtle - Will You Walk a Little Faster


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Agora é a vez do outro ancestral, ou melhor, concorrente - ou ainda, como foi dito, um filme que acabou brincando de Tweedledee e Tweedledum com o desenho de Disney: 'Alice In Wonderland/Alice Aux Pays Des Merveilles', co-produção franco-inglesa com atores humanos e marionetes produzida e co-dirigida por Lou Bunin em 1949, mas cujo lançamento nos EUA se atrasou devido a dois probleminhas: a intervenção da Disney, que estava produzindo seu desenho animado sobre o mesmo tema e não desejava concorrência, e a intolerância dos ingleses, que interpretaram sua versão da Rainha de Copas como uma caricatura não muito respeitosa da Rainha Vitória. No fim, o atraso fez com que o lançamento deste filme coincidisse com o do desenho disneyano!

Vamos ouvir uma das canções compostas por Sol Kaplan para o filme de Bunin; não consegui ainda descobrir o título, mas quem com certeza também gostou deste tema foi o grupo inglês Badfinger, julgando por um trecho da melodia da canção “Looking For A Boy”, que gravaram quando ainda se chamavam The Iveys.

A song from Lou Bunin’s Alice In Wonderland

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Alice de Lou Bunin (1949)

Alice é assunto tão cativante que muitos têm voltado a ele mais de uma vez - até mesmo sem querer. O ator inglês Peter Sellers interpretou o Rei num especial de televisão da BBC em 1966 e a Lebre Marchante num filme (Alice's Adventures In Wonderland) de 1973. "Space Truckin'", da banda Deep Purple, fala sobre dançar com "Borealice", sem dúvida um trocadilho com Alice e "aurora borealis", e dois integrantes do Purple, Ian Paice e Jon Lord, lançaram um disco intitulado Malice In Wonderland. No desenho de Betty Boop que mencionamos há uma aparição relâmpago de um personagem inspirado no humorista Ed Wynn, que quase vinte anos depois faria a voz do Chapeleiro Louco no desenho da Disney. Por sua vez, Disney acaba de retornar ao País das Maravilhas com este novo filme dirigido por Tim Burton (sem falar num desenho curto de 1936 estrelando Mickey, Thru The Mirror), e a Rainha Louca do desenho animado disneyano me sugeriu uma versão feminina de Fred Flintstone – que foi criado mais tarde e aparece no desenho New Alice In Wonderland (What’s A Nice Kid Like You Doing In A Place Like This?) da Hanna-Barbera, lançado em 1966.



Alice de Jonnathan Miller (1966)

Neste desenho temos Sammy Davis Jr. fazendo a voz do Cheshire Cat (o “Gato Risonho” da versão dublada que vi duas vezes em 1969-71 e gostaria de rever) na canção “What’s A Nice Kid Like You Doing In A Place Like This?”, composta por Charles Strouse e Lee Adams. Pois bem, em 1985 Davis Jr. voltou ao País das Maravilhas fazendo o papel da Lagarta numa versão de Alice In Wonderland (também conhecida como Alice Through The Looking Glass) especial para a televisão, dirigida por Harry Harris e com música de Stephen Deutsch e Morton Stevens. (Este especial está disponível em DVD, mas o desenho da Hanna-Barbera ainda não foi relançado em formato algum, assim como sua trilha sonora, lançada na época em LP – mas com Scatman Crothers cantando no lugar de Davis Jr., que não foi liberado por sua gravadora, a Reprise.)

Sammy Davis Jr. - What’s a nice kid like you is doing in a place like this

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Sammy Davis Jr. – Caterpillar

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Scatman Crothers – What’s A Nice Kid Like You Doing In A Place Like This

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É fato dos mais consumados que Alice no País das Maravilhas é psicodélico e totalmente no espírito rock and roll desde muto antes de estes rótulos surgirem ou dos criadores dos estilos terem nascido. Não faltam, nem poderiam faltar, obras de pop-rock psicodélico inspiradas em Alice. Pois bem, poucos se lembram do pioneirismo de Neil Sedaka, um dos melhores compositores da primeira geração do pop-rock, inclusive grande influência como melodista, pianista e cantor sobre Elton John, que até o trouxe para sua gravadora nos anos 1970. Elton compôs duas canções chamadas “Mona Lisas and Mad Hatters”? Pois bem, muito antes, em 1963, Sedaka fez sucesso com “Alice In Wonderland”, com letra de Howard Greenfield.





Neil Sedaka – Alice In Wonderland

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Mais recente e de mais longe é o grupo pop japonês Velvet Eden, que em 2002 gravou “Fushigi No Kuni No Arisu” (literalmente, “Alice Do País Das Maravilhas”).

Velvet Eden - Fushigi No Kuni No Arisu

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E a atriz Suzana Vieira comparece como narradora da história neste disco também de 2002, tomado emprestado ao blog Cantos e Encantos:

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(Ah, sim: numa constatação bem bloguística, fiquei sabendo do verdadeiro nome de Lewis Carroll por volta de 1971, num livro sobre curiosidades da matemática escrito por Júlio César de Mello e Souza, por sinal outro matemático que fez boa literatura sob pseudônimo, no caso Malba Tahan. E vocês devem ter percebido que evitei ao máximo falar muito do mais recente filme sobre Alice, dirigido por Tim Burton; ainda não assisti a ele, mas o que vi de divulgação não me animou muito, sugerindo mais um “cinemão” de Hollywood no mau sentido, e Johnny Depp me parece estar homenageando o Coringa de Heath Ledger.)

Ayrton Mugnaini Jr.
Jornalista, compositor, tradutor, pesquisador de música popular, escritor, humorista e futuro pizzaiolo. Colaborador de publicações como Dynamite, Cães & Cia., Superinteressante, Mundo Estranho, Poeira Zine, 20/20 Brasil e virtuais como Senhor F, Burburinho, Yahoo Brasil e Garage Hangover. Autor de livros sobre Adoniran Barbosa, Rita Lee, Chiquinha Gonzaga, Raul Seixas, o grupo Queen e outros, além da primeira enciclopédia sobre música sertaneja. Tradutor oficial aprovado pela Junta Comercial do Estado de São Paulo. Curador do Arquivo do Rock Brasileiro, criado pela Associação Cultural Dynamite. Integrante do grupo Tosqueira Ou Não Queira (TONQ) e d'A Banda,liderada pelo tecladista Tato Fischer. Ex-integrante do Língua de Trapo (o original dos anos 1980) e de Kid Vinil & Magazine (segunda formação). Membro do Clube Caiubi de Compositores, da União Brasileira dos Escritores e da Associação Brasileira de Críticos de Artes. Adepto do DIY (Do It Yourself), sem cair no extremo do HIYANE (Hear It Yourself And Nobody Else).
Seleção de imagens: Adriana Peliano


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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”