2 September 2009

O Jaguadarte por Augusto de Campos - a tradução do incrível





Tatiana Franca Rodrigues



Ela (a literatura) é também obstinadamente: 
irrealista; ela acredita sensato o desejo do impossível. Roland Barthes

I .


Na sua Aula Roland Barthes define literatura como “revolução permanente da linguagem” esse, junto ao conceito de “inventividade textual”, cunhado pelo professor Evando Nascimento, nortearão nossas reflexões acerca do ato tradutório. Antes de pensá-lo como um trabalho metalingüístico, vamos à etimologia da palavra, segundo Leyla Perrone-Moisés1, Tradução: conduzir, levar mais além.


A literatura, no afã de perseguir o impossível da linguagem, aquele que não se permite dominar (1), faz com que os signos entrem em movimento constante, gerando mutações férteis de sentidos. Assim, o saber/sabor de cada uma delas se altera, na medida em que, “nas ruas do sono”, perseguimo-las, tateando em terreno insólito, criando e recriando sentidos.


De acordo com Jakobson, “a poesia, por definição, é intraduzível. Só é possível a transposição criativa” , por isso, abordaremos nesse texto a tradução segundo a perspectiva de Haroldo de Campos, “a tradução como uma forma privilegiada de leitura da tradição” (CAMPOS in OLIVEIRA: 2003, pág. 94), pois pode conduzir, levar para “mais além”( quiçá a terceira margem do rio?) o discurso da tradição, fazendo, efetivamente, “girar os saberes”, conduzindo-os para uma esfera outra que ultrapassa os valores binários da discussão cópia/original: a da transcriação. O prefixo trans é-nos, aqui, de essencial importância, ele demonstra, por si, o movimento emancipatório das culturas, põe em evidência a relação íntima entre os idiomas, como entende Benjamin.

Porque a linguagem poética é impossível, seria necessário para possibilitar compreendê-la uma linguagem irreal. Desse jeito, ao traduzir The Jabberwocky, Augusto de Campos criou O Jaguadarte, monstro incrível, transposto na linguagem fantástica. Ou melhor, no dizer do irmão “siamesmo”, Haroldo de Campos (cujas teoria e prática poéticas nos servirão de fios de Ariadne), linguagem “mefistofáustica”.





Heres is a simulation of Lewis Carroll reading Jabberwocky.


The poem is read superbly by Justin Brett. II. A propriedade do poema escolhido é, pelo já dito acima, evidente: Lewis Carrol nos leva, com palavras “inexistentes” a conhecer o mundo do fantástico. As opções lexicais do poema no original já apontam para o que se confirma na teoria da tradução. Se o papel do tradutor é mesmo o de “usurpador e plagiador” (OLIVEIRA:2003, pág. 99), podemos dizer que o texto original já aponta para sua tradução. Explico-me: os signos utilizados no poema já são, em si, transcriação ou recriação de uma tradição que talvez não pudesse exprimir a categoria do feérico (no sentido que gosta Murilo Mendes) com as palavras do cotidiano, assim, Carrol “deslê” palavras, imiscuindo-as umas as outras, reinventando seus significados a partir da “criação” de novos sabores e saberes, promovendo polissemia. 

A capacidade de promover novas combinações é, segundo T.S. Eliot, o que difere o poeta “maduro” do “imaturo”: 

Tentei ressaltar a importância da relação entre determinado poema e outros de diferentes autores, e sugeri a concepção da poesia como um conjunto vívido de toda a poesia já escrita até hoje. O outro aspecto dessa teoria impessoal da poesia está na relação do poema com o seu autor. E insinuei, por uma analogia, que a mente do poeta maduro difere da mente do imaturo não exatamente em nenhuma valorização da “personalidade”, não por ser necessariamente mais interessante, ou por ter “mais a dizer”, mas antes por constituir um meio mais finamente aperfeiçoada em que sentimentos especiais, ou muito variados, estão livres para participar de novas combinações. (ELIOT:1989, pág. 43) 

Nesse sentido, a poética da tradição implica, necessariamente, numa poética da tradução: a maturidade consiste em participar de novas combinações. Digamos, então, acentuar as dobras textuais que promovem o “segredo ostentado”( a noção é Derridiana) da poesia, não valorizando a personalidade daquele que escreve inserido na tradução, no paideuma, mas acentuando a “tradição da desleitura”, se não for ousado demais combinar dois conceitos que, à primeira vista, talvez não pareçam poder resultar em poéticas novas.




Jabberwocky: filme de Jan Svankmajer.


III. 

O poema é uma narrativa em terceira pessoa e o que podemos depreender dela é que alguém matou alguma coisa, talvez seja possível inferir que esta “coisa” seja um monstro fabuloso e que este “alguém” seja um herói no estilo de um cavaleiro medieval. 

Essa percepção, porém, é o tempo todo confundida e readquirida porque a maneira como as palavras foram “encaixadas” umas nas outras acabam por deixar-nos sempre com, pelo menos, um significado a mais como forma de saída possível para “compreensão” do poema. Digamos, portanto, tratar-se este caso da primeira forma de tradução conhecida por nós: a tradução como forma de espelharmos nossa concepção da “realidade” (2). E, ao que parece, a realidade de Carroll é tão mirífica quanto seu poema, assim a tradução do The Jabberwocky segue pela isomorfia: a técnica de portemanteau é mantida, assim como a marca do (ir)real cenário do primeiro poema: 

“It seems very pretty”, (Alice) said when she had finished it, “but it’s rather hard to understand! … Somehow it seems to fill my head with ideas—only I don’t exactly know what they are! (CARROLL. The Annoted Alice 197). Alice’s reaction to Lewis Carroll’s poem is about. “…Somebody killed something: that’s clear, at any rate”—, Alice continues (CARROLL. The Annoted Alice 197). After all, what is a Jabberwocky anyway, and how, exactly, does one chortle or galump? How is it that a poem can be full of nonsense, and seemingly devoid of meaning, but still sound like proper English? The answer to these questions lies in Carroll’s unique ability to manipulate language (DEAN, Cathy:1997). 

Assim, como que trapaceando com a linguagem, manipulando-a como um escultor faria com o mármore bruto, temos a impressão de estarmos falando de um monstro incrível que foi morto por um astuto herói. O cenário da luta nos parece, de início, bastante pacato( embora não se possa afirmar que assim seja, pois em And the mome raths autgrabe --- E os morriratos davam grilvos não é possível saber ser “dar grilvos” é comum aos “momirratos” ou se eles assim estavam por causa da ameaça expressa na segunda estrofe...). De qualquer forma, é notável a intenção de “ativar o plural de sentidos” (NASCIMENTO:2002) tanto numa língua quanto noutra, desse jeito, é bem provável que o primeiro “monstro” seja bem diferente do segundo, o que vem nos mostrar que a tradução não deve aclarar ou mesmo explicar consoante o texto original aquilo que se pretendeu dizer, mas acentuar as suas “estrangeiridades/ estranhicidades” (a da língua em que o texto foi concebido originalmente e na sua segunda origem: a tradução), num movimento infinito de possibilidades significativas. É essa possibilidade que Haroldo de campos chama de “transluciferação”: 

Lançando mão de conceitos procedentes da “desconstrução” derridiana, Haroldo vai demonstrar todo o poder demoníaco e corrosivo da tradução para com o original. “Flamejada pelo rastro coruscante de seu Anjo instigador, a tradução criativa, possuída de demonismo, não é piedosa nem memorial: ela intenta, no limite, a rasura da origem: a obliteração do original. A essa desmemoria parricida chamarei ‘transluciferação’ (CAMPOS, H. de, 1981, p.209). 

A longa citação se justifica pelo sobredito, ela vem nos atar ao todo tecido anteriormente, o conceito suscitado pelo termo ‘transluciferação’ vem nos lembrar O Paraíso Perdido, de Milton: cansado de se subjugar à tirania de Deus, Lúcifer o questiona e, em resposta, é lançado ao inferno. Ali, ao preferir descer aos infernos que servir nos Céus, Satanás nos aponta para o papel da tradução “traidora” defendida pelos irmãos Campos: o comportamento subversivo é de fato o intento da tradução, ao trair o original, a tradução cria vida, adquirindo um estatuto de originalidade conquistado graças a reescritura em diferença. A linguagem que se revoluciona e se (re)inventa é campo fértil para a tradução do impossível Jaguadarte. É a essa reescritura que se refere a professora Maria Clara Castellões em seu ensaio O tradutor Haroldo de Campos e a (des)leitura da tradição, é essa a “mirada estrábica” a que se refere e que possibilita (re) manejar a tradição, amplia-la e recoloca-la(no sentido de colocar num novo lugar) no cenário da cultura latino-americana. As nossas “interferências literárias” ressemantizam as obras nas quais tocam; assim, outro é nosso monstro fabuloso, como outro é o herói que o derrota. Pois eles foram (re)construídos “paramorficamente” aos originais, a sua imagem, mas não à sua semelhança.... 

Assim, na tradição na qual se insere a recriação poética dos textos de Lewis Carroll e Augusto de Campos, o Jaguadarte mais ainda se parece com um monstro, pois seu nome nos lembra “jaguar”, ao mesmo tempo “jacaré” e, no entanto, trata-se de uma ave: 

“Foge do Jaguadarte, o que não morre! 
Garra que agarra, bocarra que urra! 
Foge da ave Felfel, me filho, 
e corre Do fruminoso Babassurra!”


(CARROLL, Lewis. Trad. Augusto de Campos) 

Vejamos como o descreve Carroll:

“Beware the Jabberwock, my son!”. 
The jaws that bite, the claws that catch! 
Beware the Jujub bird, and shun 
The frumious Bandersnatch!”


(CARROLL, Lewis. The Jabberwock) 

Beware que, literalmente seria traduzido por “tome cuidado”, em português tem um sentido muito mais incisivo, no imperativo coloquial “foge”, vemos a iminência do perigo. Logo em seguida, um desafio: o que não morre, que não aparece no original. Em português, “ave Felfel”, o monstro amargo, ressentido, malvado, de fel, que em inglês é um pássaro, nome que, na nossa língua, não teria a conotação de algo ameaçador, mas ao contrário, nossa semântica compreende pássaro como um animal sutil, incapaz de agredir. Fruminoso Babassurra, evidentemente trata-se de uma reconstrução de vocábulos e o nome, como no inglês, acentua o caráter ameaçador deste ser monstruoso. Por último, percebamos a estrutura formal. No poema de Carroll, temos a forma gráfica vista em tantos e tantos poemas, no de Augusto de Campos, a fisiognomia dá ao texto um movimento que nos conduz pela aventura da narrativa. É possível ver que o segundo e o quarto verso estão afastados da que seria a “margem principal”, talvez para tentar demonstrar a perseguição e fuga da fera. 

Assim, agregando significados novos ao texto, a tradução concretiza a “intradução”, evidenciando a possível relação entre os idiomas, por vezes, a sonoridade original é recuperada nos interstícios do novo texto, seja brincando com a forma gráfica do poema ou tentando aproximar sons de vocábulos como traduzindo galumphing por galunfante. O professor Evando Nascimento entende o esforço em recuperar a sonoridade do original como essa tendência transliterativa que revela o desejo de “transpor literalmente não o significado, mas a matéria significante do original” (...) “Nessa fidelidade radical, o que fica resguardado antes de tudo é a ‘vaga música’ concretizada pelo texto poético. E o que, por outro lado, se evidencia é a relação possível entre os idiomas.” (NASCIMENTO: 2002, 93). Percebamos, com isso, que os sons guturais do texto original poderiam conotar a fera, assim, a recuperação desse sentido do original faz-se necessária, pois entendemos o vocábulo como massa sonora. (3) 

Vejamos. Nas duas estrofes transcritas acima, vemos que, para as duas línguas há esquema rítmico na ordem AB/AB, a escolha não se dá ingenuamente, os sons produzidos pela consoante –r traduzem o perigo iminente do ataque e, em inglês temos o mesmo efeito, dado pelas rimas son/shun, catch/Bandersnatch. Com isso, vemos que está em relevo a ‘íntima relação entre os idiomas’, como nos disse Benjamin. E o que nos parece, em verdade, é que o texto está sempre por traduzir. Sabemos bem que a literatura não se permite esgotar, apreendido um sentido, logo outro surge, como que por encanto, deixando à vista sua incompletude (4). 

Ainda vale a pena analisar esta questão pelas felizes considerações da professora Maria Clara. Segundo ela: Haroldo de Campos, ao descortinar a sua teoria da tradução e , com freqüência, é apresentada juntamente com as traduções que faz publicar, mostra o quanto ambas se fazem no cruzamento de tradições literárias, poéticas e críticas que operam no seu contexto e em contextos estrangeiros. Essas tradições englobam o pensamento antropofágico de Oswald de Andrade, veiculam temas e formas da poesia, da literatura, da música e do cinema brasileiro que almejaram se fazer novos diante da tradição européia e propõem a desestabilização da noção de centro, tão cara à constituição do pensamento ocidental logocêntrico (...) (OLIVEIRA:2003, 103)

Vemos que “nesse cruzamento de tradições literárias” existe um espaço poroso, no qual se dá uma relação de descortinamento e revelação. Descortinamento de imagens que sempre, num ato caleidoscópico, se reproduzem ao infinito e revelação de segredos cuja opacidade não se desfaz. Nas fronteiras de todas as tradições, vemos que o movimento tradutório se faz a partir da confluência trans- significativa, os sintagmas se trocam se completam, mas nunca se reiteram: não é possível domina-los. Resta lembrar: a técnica de composição original (a de portemanteau) já deixava entrever sua tradução; afinal, porque a entrega das palavras nunca se consumará, é preciso tentar, de alguma forma, obtê-las. A luta então se dignifica, se corporifica, quando não na língua original, na sua tradução antropofágica.



Jabberwocky a poem by Lewis Carroll put into song by Donovan.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 
 ANDRADE, Carlos Drummond de. O lutador. In:____ANTOLOGIA POÉTICA.São Paulo, Record:2000. 
BARTHES, Roland. Aula.Tradução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo, Cultrix:1978. CAMPOS, Augusto de. Jaguadarte. In:___website: http://home.earthlink.net/~lfdean/carroll 
CARROLL, Lewis. The Jabberwocky. In:___website: http://home.earthlink.net/~lfdean/carroll 
DEAN, Cathy. The Jabberwocky. In:_____website: http://home.earthlink.net/~lfdean/carroll 
ELIOT, T.S.. Tradição e talento Individual. Tradução Ivan Junqueira. São Paulo, Art Editora:1989.
 MELO, Gladstone Chaves de. Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Padrão Livraria Editora: 1976. 
NASCIMENTO, Evando. Uma poética da tradu/ição: teoria e crítica na poesia concreta. In:___ Ângulos. Juiz de Fora, Editora UFJF:2002.
 _____________. Notas sobre uma tradução. In:____Ângulos.Juiz de Fora, Editora UFJF:2002
 ______________. Ana Cristina César e Charles Baudelaire: Signos em tradução. In:____. Literatura em Perspectiva. Juiz de Fora, Editora UFJF, 2003. 
OLIVEIRA, Maria Clara Castellões de. O tradutor Haroldo de Campos e a (des)leitura da tradição. In:___. Literatura em Perspectiva. Juiz de Fora, Editora UFJF:2003. 

Notas: 
1 ) MOISÉS, Leyla Perrone. Lição de casa IN:______Aula. São Paulo: Cultrix, 1978. 2 ) ANDRADE, Carlos Drummond de. O lutador.Rio de Janeiro, Record, 2000. A relação do poema drummoniano é bem pertinente, pois a metáfora do lutador remete, em mais de um sentido, a tarefa do tradutor, que, assim como o poeta, se alimenta da luta com as palavras apesar de conhecer sua insuficiência. 
2 ) Vejamos bem a escolha semântica feita para falar dessa primeira forma de tradução: espelhar porque é justamente isso, ver a imagem através de e ao contrário, o que é possível no ato tradutório, ver o poema a partir do original, mas traduzi-lo em diferença, recriando-o poeticamente; depois realidade vem entre aspas, pois entendemos que a realidade sempre pode ser mais que uma possível, mesmo numa só pessoa, dado que somos outro, que somos muitos. 
3 ) De acordo com o professor Gladstone Chaves de Melo, palavra e vocábulo se diferenciam exatamente porque este possui uma massa sonora que possibilita ainda mais acréscimos de significados, assim grito é mais expressivo que brado(MELO:1976,79)Assim, é muito pertinente que se mantenham os sons mais significativos do poema original, pois há, na forma, como no som (o que os concretos entendiam por significação mínima no texto) signos polissêmicos que não devem ser desprezados. 
4 ) Mais uma vez, remeto-me a Drummond, sobretudo aos versos: DEIXAM-SE ENLAÇAR,/TONTAS À CARÍCIA/E SÚBITO FOGEM/ E NÃO HÁ AMEAÇA/ E NEM SERVÍCIA/ QUE AS TRAGA DE NOVO/ AO CENTRO DA PRAÇA.(ANDRADE. O lutador.)




Kate Burton recites "The Jabberwocky" at the end of the 1983 Great Performances version 
of "Alice In Wonderland," directed by Kirk Browning. 




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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together desires, monsters and fairy tales. Her collages and metamorphic assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, Adriana Peliano costura desejos, monstros e contos de fadas. Suas colagens, metamofoses e assemblagens despertam inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”